Cuidar dos músculos não é apenas uma questão estética ou funcional. É uma estratégia concreta de proteção cerebral Um novo estudo apresentado nos Estados Unidos adiciona uma peça importante ao quebra-cabeça da longevidade cognitiva. Segundo a pesquisa, pessoas com maior massa muscular e menor quantidade de gordura visceral tendem a ter cérebros biologicamente mais jovens. O achado reforça algo que a ciência vem indicando há anos, mas agora com mais precisão anatômica: exercício físico consistente, especialmente o treinamento de força, não protege apenas o corpo, mas também o cérebro. O estudo foi conduzido por pesquisadores da Washington University School of Medicine (WashU) e apresentado durante o encontro anual da Radiological Society of North America, realizado em Chicago entre os dias 30 de novembro e 4 de dezembro. O trabalho teve como autor sênior Cyrus Raji, professor associado de radiologia e neurologia da instituição, que foi direto ao resumir a principal implicação dos dados: se a ideia é manter um cérebro mais jovem e saudável, o treinamento de força precisa fazer parte da rotina. Massa muscular e gordura visceral no centro da análise Embora a relação entre atividade física e saúde cerebral já seja bem documentada, este estudo se diferencia por analisar diretamente a composição corporal, em especial dois fatores críticos: a massa muscular e a gordura visceral, aquela gordura profunda localizada na região abdominal e associada a maior risco metabólico e inflamatório. Os pesquisadores analisaram exames de ressonância magnética de quase 1.200 adultos saudáveis, com idades entre 40 e 60 anos. Essa faixa etária não foi escolhida ao acaso. De acordo com Raji, é justamente nesse período da vida que começam a surgir muitos dos fatores de risco associados ao declínio cognitivo e à demência em fases mais avançadas. Com o apoio de ferramentas de inteligência artificial, a equipe conseguiu estimar com precisão a quantidade de músculo e de gordura corporal de cada participante. Em paralelo, algoritmos treinados com dezenas de milhares de exames cerebrais foram usados para estimar a 'idade aparente' de cada cérebro, comparando suas características estruturais com padrões típicos de diferentes idades. O que os cérebros revelaram Os resultados mostraram um padrão claro. Pessoas com maior volume de massa muscular apresentavam cérebros com aparência mais jovem do que o esperado para sua idade cronológica. Já aquelas com maior quantidade de gordura visceral tinham cérebros que pareciam biologicamente mais velhos, o que está associado a maior risco de declínio cognitivo precoce. Segundo Raji, a relação foi consistente: quanto maior o volume muscular, mais jovem o cérebro parecia; quanto maior a gordura visceral, mais envelhecido. Os cérebros com aparência mais antiga foram encontrados, sobretudo, em indivíduos com a combinação considerada mais desfavorável: pouca massa muscular e altos níveis de gordura abdominal profunda. É importante destacar que o estudo é observacional. Ele não testou intervenções diretas para verificar se aumentar músculos ou reduzir gordura visceral, ao longo do tempo, rejuvenesceria o cérebro. Ainda assim, os autores apontam caminhos biológicos plausíveis para explicar a associação. Por que músculos ajudam o cérebro De acordo com Raji, os músculos liberam substâncias bioquímicas que favorecem a formação de novas células cerebrais e a integração de conexões neuronais. A gordura visceral, por outro lado, tende a produzir compostos inflamatórios que têm efeito oposto, prejudicando a saúde do cérebro. Essa explicação, citada pelo The Washington Post, ajuda a entender por que a composição corporal parece ter impacto direto na idade biológica cerebral. O papel estratégico do treinamento de força O estudo também chama atenção para um ponto crítico do envelhecimento: a perda progressiva de massa muscular a partir da meia-idade. Sem intervenção, essa perda é praticamente inevitável. O treinamento de resistência, no entanto, pode desacelerar ou até reverter esse processo, além de ajudar a reduzir a gordura visceral. Raji ressalta que estratégias puramente farmacológicas para perda de peso, como o uso de medicamentos da classe dos GLP-1, podem reduzir a gordura abdominal, mas também levam à perda de músculo se não forem acompanhadas de exercícios de força. Isso pode neutralizar parte dos benefícios metabólicos e, possivelmente, cerebrais. Em um cenário de envelhecimento populacional e aumento dos casos de demência, os achados reforçam uma mensagem simples, mas poderosa: cuidar dos músculos não é apenas uma questão estética ou funcional. É uma estratégia concreta de proteção cerebral. O corpo e o cérebro, mais uma vez, mostram que envelhecem juntos — e que escolhas feitas na meia-idade podem fazer toda a diferença no futuro cognitivo.