Gestão de resíduos ainda gera prejuízo bilionário e desafia avanços no país

O Brasil gera mais de 81,6 milhões de toneladas de RSU anualmente | Foto: Dandora, Duncan Moore/UNEP
Com baixa reciclagem e cadeia fragmentada, o país desperdiça insumos valiosos que poderiam retornar à indústria por meio da logística reversa
O Brasil discute produtividade, reindustrialização e competitividade global, mas ainda ignora um dos maiores focos de ineficiência econômica do país: a forma como lida com seus resíduos. Todos os anos, milhões de toneladas de materiais com valor econômico e social são descartadas, elevando custos industriais, pressionando cadeias de suprimentos e desperdiçando matéria-prima já disponível no sistema.
De acordo com o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, o país gera mais de 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos (RSU) por ano, o equivalente a mais de 223 mil toneladas por dia. Apesar do volume expressivo, apenas 8,7% desse total é efetivamente encaminhado para reciclagem, evidenciando um baixo aproveitamento de materiais com potencial econômico.
Na prática, isso significa que plástico, papel, vidro e metais — insumos básicos da indústria — continuam sendo descartados, enquanto empresas seguem dependentes de matéria-prima virgem, cuja extração demanda mais recursos financeiros e naturais, além de estar sujeita à volatilidade de preços. Esse cenário amplia custos, intensifica o uso de recursos naturais e evidencia o baixo aproveitamento de materiais que poderiam retornar à cadeia produtiva com valor econômico.
Além disso, o problema não está apenas na reciclagem. O estudo mostra que cerca de 34% dos resíduos ainda têm destinação inadequada, sendo encaminhados para lixões ou aterros controlados, o que amplia perdas econômicas e gera passivos ambientais relevantes.
Mesmo quando há coleta, a eficiência do sistema ainda é limitada. Embora o país já alcance 93,7% de cobertura de coleta de resíduos, grande parte desse volume segue para disposição final sem qualquer recuperação de valor. Paralelamente, estima-se que cerca de 5,7% dos resíduos recicláveis sejam recuperados por meio da coleta informal, realizada por milhares de catadores — um elo essencial, mas ainda pouco integrado à economia formal.
Para Renato Paquet, CEO da Polen, o problema vai além da questão ambiental e revela uma distorção estrutural na economia brasileira.
“No Brasil, gestão de resíduo é tratada como custo, quando deveria ser tratada como oportunidade de ativo. Essa lógica aumenta o custo das cadeias industriais, reduz competitividade e amplia uma ineficiência estrutural que o país já não pode sustentar”, afirma.
É nesse contexto que a logística reversa deixa de ser apenas uma obrigação regulatória e passa a funcionar como infraestrutura econômica. Plataformas especializadas conectam empresas a operadores certificados, garantem rastreabilidade e reduzem o custo de coordenação de um mercado historicamente desorganizado.
“Não se trata apenas de sustentabilidade. Trata-se de eficiência. Logística reversa é uma forma de reduzir desperdício produtivo, melhorar margens e organizar cadeias que hoje operam no improviso”, afirma Paquet.
O momento é especialmente sensível. Com margens pressionadas, cadeias globais mais exigentes e crescente volatilidade de preços de insumos, resíduos reaproveitáveis representam uma das poucas fontes de matéria-prima de menor custo já disponíveis no sistema econômico brasileiro.
Ignorar essa equação significa aceitar um paradoxo: o país discute competitividade enquanto deixa de aproveitar milhões de toneladas de materiais com valor econômico todos os anos.











