Como Índia e China, o Brasil tem a difícil tarefa de manter sua taxa de inflação em níveis baixos enquanto registra um crescimento vigoroso; um desafio pessoal, no entanto, será ampliar sua participação no comércio internacional nos próximos anos, afirmou ontem o chefe de pesquisa econômica do banco Goldman Sachs, Jim O’Neill, criador do acrônimo Bric (Brasil, Rússia, Índia e China). Para O’Neill, a economia brasileira tem “começado a mudar”, mas continua muito atrelada ao consumo interno, o que enfraquece sua moeda. “O real está mais fraco que o rublo [moeda russa]. Isso porque o Brasil é uma parte muito pequena do comércio internacional [1,2% em 2009, segundo dados da Organização Mundial do Comércio]”, afirmou, no início da tarde, em video-conferência realizada pela Fecomércio (Federação do Comércio de São Paulo). O economista voltou a defender o uso do real, do rublo, do yuan e da rúpia no comércio entre os quatro países. Um dos grandes desequilíbrios da economia global, afirma O’Neill, é que o dólar continua com um peso muito maior do que a economia americana: o Produto Interno Bruto dos Estados Unidos representa cerca de 30% da economia global, enquanto o dólar é responsável por 70% das trocas financeiras. “O percentual deve ser maior nas trocas comerciais”, disse. Mas, como “toda boa ideia, o diabo está nos detalhes”: os países, principalmente a China, teriam de fazer grandes ajustes para tornar esse sistema viável. O’Neill também voltou a defender uma reorganização na estrutura de governança da economia mundial — principalmente do FMI (Fundo Monetário Internacional)–, que deve se acomodar para acolher o peso que os Brics passaram a ter e que passarão a exercer cada vez mais nos próximos anos. O economista defende um G7 com Estados Unidos, Japão, União Europeia e os quatro países do Bric. “Até 2018, os países do Bric, juntos, serão tão grande quanto os EUA”, disse. Para ele, o pós-crise “será a era do consumo dos Brics”. “Acredito que estamos entrando num mundo diferente, no qual o consumo global será liderado pelo consumo nas economias do Bric”, afirmou, apontando que o Goldman Sachs prevê um aumento de 9,8% da demanda interna nos quatro países neste ano –para os EUA, a previsão é de alta de 2,2%. País a país Na video-conferência, o economista também discorreu sobre os principais desafios de cada país. O da China é transitar do crescimento liderado pela exportação para o crescimento liderado pelo consumo interno. “Está no meio do caminho, mas é um desafio de médio e longo prazo.” Para “atingir seu pleno potencial”, a Índia tem de resolver o abismo entre “elites altamente educadas” e “centenas de milhões virtualmente sem acesso à educação”. A Rússia, afirma, sofre com o baixo crescimento demográfico (aliado a uma baixa expectativa de vida) e com a dependência da exportação de commodities (petróleo e gás, principalmente) –caso semelhante ao brasileiro. “A Rússia teve uma crise ruim não devido à crise de crédito, mas pelo colapso do preço do petróleo”, disse. Segundo O’Neill, é “perigoso” acreditar que o crescimento chinês dará suporte aos preços das commodities minerais no futuro, como petróleo, carvão e aço, pois a China, cada vez mais, deve priorizar a eficiência energética e as fontes renováveis de energia. Mas, devido ao crescimento da classe média chinesa e à mudança de hábitos alimentares, para alguns produtos agrícolas o cenário deverá ser diferente. “A China será um país muito diferente em relação às commodities e o Brasil terá muita vantagem nesse sentido.”