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Negócios e Gestão

Como fazer mensuração de projetos de impacto social

Créditos: iStockPhoto
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A Teoria da Mudança é uma ótima ferramenta para criar um planejamento de ações de impacto no curto, médio e longo prazo

por Kátia Mello*

À medida que a preocupação com a sustentabilidade e a responsabilidade social aumenta, é possível perceber que a mensuração de impacto ganha importância. Essa é uma forma de as organizações comprovarem resultados positivos e afirmarem seu compromisso com essas questões e com a geração de valor para seus stakeholders, investidores, clientes e a sociedade.

É um momento oportuno para que as iniciativas que ainda não têm um acompanhamento adequado possam levar mais a sério o S do ESG (Ambiental, Social e de Governança, na sigla em inglês). Dificilmente uma empresa não fará um acompanhamento de metas e métricas para suas áreas de marketing e vendas, então por que é que deixam de ter o mesmo interesse para iniciativas e projetos sociais?

Na agenda de responsabilidade social corporativa, é preciso levar ainda mais a sério o valor da transparência. Não há mais espaço para greenwashing ou socialwashing, e por isso as iniciativas devem considerar desde o começo a mensuração de impacto e de resultados das intervenções para um determinado público-alvo ou comunidade. 

Existem referências multidisciplinares que podem ser adotadas nos processos de avaliação. Os padrões do Impact Reporting and Investment Standards (IRIS); o processo avaliativo do Global Impact Investing Report System (GIIRS) e a ferramenta de avaliação do Sistema B trazem referências de indicadores a serem acompanhados. Entretanto, há uma tendência de busca por indicadores e métricas mais adaptados à realidade das ações desenvolvidas pelos agentes investidores, sejam públicos ou privados.

Podemos avaliar todo e qualquer projeto social que vise transformar determinada situação que gerou a necessidade daquela ação. A pergunta essencial é: o que teria acontecido com o público-alvo sem a intervenção?

Entre os investimentos sociais privados há diversos exemplos em educação, habitação e saúde que podem ser avaliados, incluindo transformações para beneficiários, desempenho escolar, acesso ao mercado de trabalho, satisfação da comunidade e até retorno social do investimento.

A iniciativa só não pode esquecer que a comunidade local deve ser envolvida na identificação de prioridades e no monitoramento e avaliação dos projetos, fortalecendo o controle social e engajamento.

Por vezes, as organizações fazem a propaganda positiva das ações antes mesmo da implementação. E com a mensuração de impacto, pode ser que o resultado obtido não seja aquele que gostariam de ver. Embora esse tipo de avaliação não seja obrigatório, é uma boa prática e deve ser encarada como componente fundamental dos processos de implementação de iniciativas e projetos de cunho social.

Por se tratar de uma ferramenta de supervisão, é urgente que entre na agenda privada também para empoderar stakeholders. A ausência de priorização de mensuração de impacto na distribuição de recursos acusa também o desinteresse por avaliar a eficácia de seus esforços e de identificar se os resultados alcançados estão de acordo com os objetivos pretendidos.

A Teoria da Mudança

Para analisar o impacto e os benefícios de intervenções sociais, é preciso seguir alguns passos da metodologia de mensuração de impacto que descrevemos no exemplo a seguir.

Um projeto pode ser criado para estimular o desenvolvimento econômico em uma cidade que depende muito de uma empresa específica, visando criar mais oportunidades de trabalho para a população e fortalecer outras atividades econômicas.

A partir desses objetivos, é possível elaborar um plano de avaliação que inclui a criação de uma teoria de mudança, a definição de indicadores e métodos de avaliação, a aplicação de pesquisas, a análise dos indicadores observados e a divulgação dos resultados.

A Teoria da Mudança é uma ótima ferramenta, que compreende o processo de enxergar o problema e criar um planejamento de ações e expectativas de impacto no curto, médio e longo prazo.

Esse processo de mensuração de impacto social permite que os resultados da intervenção sejam avaliados de forma pragmática, considerando os objetivos estabelecidos no projeto. Os resultados podem ser diversos, como a participação em ações de qualificação profissional, a abertura de novos estabelecimentos e cooperativas, e até mesmo o aumento dos empregos formais na região.

Ao envolver a população-alvo na elaboração do plano de avaliação, é possível garantir que os indicadores escolhidos sejam relevantes para os beneficiários e que a avaliação reflita adequadamente os impactos da intervenção.

Comunicando resultados de impacto social

Por fim, a divulgação dos resultados permite que outras organizações e stakeholders aprendam com os resultados do projeto e, assim, possam replicá-lo ou adaptá-lo em outras regiões e contextos. 

Quando os processos começam sem uma avaliação diagnóstica e sem seus indicadores, avaliar o impacto no futuro será um desafio maior, por não ter uma linha de base para fazer comparações, e por isso muitos projetos de responsabilidade social corporativa perdem a chance de contar ótimas histórias.

Vale ressaltar que a mensuração de impacto é baseada nas ciências sociais, endereçada pela área de monitoramento e avaliação para projetos e programas sociais. A Teoria da Mudança permite o desenho do percurso e dos objetivos que se pretende alcançar.

Para aferição dos indicadores de resultados e impactos é possível lançar mão de diversas metodologias, como a aplicação de um censo preliminar, durante e após a implementação do projeto, além da adoção de pesquisas qualitativas.

Essas pesquisas resultam em dados primários que precisam ser sistematizados para serem comparados e analisados com a situação anterior. Além disso, também é importante contar com dados secundários, que muitas vezes compõem bancos de dados públicos e são de extrema importância para comparar os efeitos da intervenção.

Para uma evolução contínua das práticas ESG, é fundamental que a mensuração de impacto seja incorporada à responsabilidade social das empresas, onde o compromisso não seja apenas com a boa imagem da organização, mas principalmente com o impacto real gerado na vida das pessoas. Ainda que a cultura no campo do investimento social privado de colocar recursos nessa área seja incipiente, a cultura avaliativa precisa fazer parte do dia a dia das organizações que querem e precisam causar impacto positivo.

* Katia Mello é diretora da Diagonal.

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