Spotlight: a Importância das relações interpessoais e do trabalho bem feito
Spotlight: a Importância das relações interpessoais e do trabalho bem feito

Spotlight: a Importância das relações interpessoais e do trabalho bem feito

Spotlight, com toda sua dor e urgência, é uma pura celebração de profissionais fazendo o que sabem fazer de melhor: trabalhar

Em 6 de Janeiro de 2002, os assinantes do jornal Boston Globe apanharam seus respectivos exemplares de seus quintais e varandas, e viram, em choque, na manchete da primeira página: "Igreja Permitiu Abusos de Seus Padres Por Anos". A história, escrita por Michael Rezendes, um repórter da equipe investigativa do jornal, a Spotlight do título, foi massiva tanto em suas palavras quanto em seu impacto, e isso era apenas o começo.

Mais duas matérias da Spotlight sobre o mesmo assunto foram publicadas naquele dia, e outras vieram a seguir. A repercussão das matérias da Spotlight foi tão pesada, que em dezembro de 2002, o Cardeal Bernard Law, o Arcebispo de Boston, renunciou seu cargo em desgraça, dizendo em um depoimento que "Para todos aqueles que sofreram devido aos meus erros, eu peço desculpas e imploro perdão." (O Papa João Paulo II lhe concedeu uma posição em Roma, onde Law permanece até hoje). Em 2003, a equipe Spotlight recebeu a honraria do Prêmio Pulitzer por sua reportagem.

Estes eventos são familiares para boa parte das pessoas hoje, especialmente nos EUA, mas as primeiras publicações da Spotlight sobre o tema são particularmente dolorosas para os católicos de Boston, e tais matérias foram as primeiras a dominar as conversas de todos desde o atentado terrorista ocorrido em 11 de setembro de 2001, ou seja, apenas alguns meses antes.

Dirigido por Tom McCarthy (O Visitante, 2007), este soberbo Spotlight: Segredos Revelados (Spotlight, EUA, 2015), co-escrito pelo próprio McCarthy em parceria com o roteirista Josh Singer (do recente O Primeiro Homem), é o relato da investigação em torno do maior escândalo recente da Igreja Católica. Spotlight é um ótimo "Newspaper Movie" à moda antiga, evocando comparações com Todos os Homens do Presidente (All the President's Men, 1976) e Zodíaco (Zodiac, 2007), dois filmes com uma similar devoção aos detalhes dos processos que envolvem a elaboração e publicação de uma reportagem deste porte. Em um dos momentos finais deste Spotlight, há uma cena das prensas imprimindo a edição do Boston Globe a qual o filme se refere. Tal tipo de cena é tão rotineira em filmes que envolvem a redação de jornais que chega a beirar o clichê, mas em Spotlight trata-se de um momento de intensa emoção. A verdade daquela edição e o mal ao qual descreve, será eternamente uma ferida para milhões de pessoas.

A equipe Spotlight é formada pelo editor Walter "Robby" Robinson (Michael Keaton, de Fome de Poder, cuja crítica também está disponível aqui no Portal Administradores), e três repórteres, Michael Rezendes (Mark Ruffalo, o Hulk do universo cinematográfico da Marvel), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams, de Desobediência, 2017), e Matty Carroll (Brian d'Arcy James, também de O Primeiro Homem). John Slattery (da série Mad Men) interpreta o editor-chefe do Globe Ben Bradlee Jr. Todos os repórteres são locais, e todos tem alguma conexão com a Igreja Católica.

Quando o novo editor, Marty Baron (Liev Schreiber, de X-Men Origens: Wolverine, 2007), entra para a equipe do Globe, ele é recebido como um forasteiro principalmente pelo fato de que ele não tem nenhuma ligação com a cidade de Boston. Em uma reunião inicial com Robby, Baron menciona uma matéria recente de um colunista do Globe sobre a maneira potencialmente obscura com que a igreja lida com vários casos de abuso. Baron sugere que a história seria perfeita para a equipe Spotlight, e Robby hesita, até que Baron retruca dizendo que em sua ótica, trata-se de uma "história essencial para um jornal local." Trata-se de uma excelente linha de diálogo, entregue de maneira tão sutil por Schreiber que a maioria do público não percebe sua efetividade. Aliás, isso vale para toda sua performance. Pouco antes da edição do Globe que escancara os abusos chegar às ruas, toda a equipe Spotlight se reúne na sala de Marty, e a maneira com que ele lida com sua equipe, é de encher os olhos e até aquecer o coração do espectador.

Eu tomei a liberdade de ser um pouco mais específico ao descrever estas passagens do filme, pois é justamente em cima destas relações interpessoais que se desenrolam e se desenvolvem entre seus personagens que Spotlight: Segredos Revelados se apoia. A dinâmica de trabalho entre a equipe, a maneira como a informação escala dos editores até seus repórteres provou-se mais do que vital para que a reportagem chegasse da maneira que chegou à seu público. Um exemplo puro e cristalino do mais eficaz profissionalismo. Enfiados em um pequeno escritório no subsolo do prédio do Globe, o time Spotlight reflete o comportamento de pessoas que passam mais tempo um com o outro do que com suas próprias famílias. Os detalhes pessoais sobre suas vidas são mínimos; Sacha vai à igreja com sua avó todos os domingos, num ritual que para ela vai se tornando cada vez mais doloroso; o casamento de Rezendes está por um fio, e por aí vai.

Tais sacrifícios revelam ainda mais nuances sobre quem são estes profissionais. Pessoas de carne e osso cujo envolvimento incondicional ao trabalho os fazem sofrer pelas vítimas cada vez mais numerosas dos seguidos abusos perpetrados por padres da instituição cuja primeira diretriz é proteger e cuidar de sua comunidade. Na melhor e mais dilacerante sequência do filme, Robby e Rezendes têm uma acalorada discussão sobre que direção seguir com a reportagem. Baron os havia relembrado que o caso é muito maior do que alguns padres pedófilos, e que o objetivo é derrubar todo o sistema. Rezendes, entretanto, mais suscetível à sordidez do material com o qual está lidando, questiona Robby do porquê devem esperar tanto para escancarar a verdade, e a maneira com que Keaton e Ruffalo interpretam a cena é simplesmente impecável. Por mais que seu Robby compactue com a raiva e o inconformismo de seu subordinado, Keaton interpreta a cena com implacável firmeza, ainda que suas feições revelem que sua vontade é fazer o mesmo. Ruffalo é puro coração na cena, e tal sequência diz muito sobre as relações e a aplicação da hierarquia de trabalho.

A mesma abordagem rica é aplicada na maneira com que o trabalho de campo dos repórteres é retratado, especialmente o de Sacha, responsável por falar com as vítimas de abuso por parte da Igreja, hoje adultas e sofrendo com os traumas que sofreram quando crianças. Há ainda uma dupla de advogados (interpretados por Billy Crudup e Stanley Tucci), ambos em lados opostos do espectro legal envolvendo a igreja católica. Há de se ressaltar também a nobreza do trabalho do advogado interpretado por Tucci, Mitchell Garabedian, cuja verdadeira importância é revelada numa das últimas cenas do filme, também de partir o coração.

O mundo do jornalismo (principalmente o impresso) mudou muito desde 2002. O prognóstico não é nada bom, especialmente quando utilizamos o Brasil como exemplo. Mas o bom e velho jornalismo investigativo ainda existe, e tal trabalho é tão importante agora quanto sempre foi ao longo da história. Spotlight: Segredos Revelados é o tipo de filme onde uma cena que mostra um grupo de repórteres amontoados tomando notas, torna-se uma sequência empolgante. O conceito de heroísmo talvez não seja aplicável aqui, mas sabemos muito bem que no mundo real os heróis não usam capas, e geralmente são trabalhadores que conduzem seus ofícios com habilidade e profissionalismo. E isso vale para qualquer esfera profissional, do jornalismo ao corporativo. Spotlight, com toda sua dor e urgência, é uma pura celebração de profissionais fazendo o que sabem fazer de melhor: Trabalhar.

Spotlight: Segredos Revelados está disponível no catálogo da Netflix.

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    Eduardo Kacic

    Eduardo Kacic

    Eduardo Kacic é bacharel em administração com mais de 15 anos de experiência no mundo corporativo, até que decidiu se aventurar por sua paixão: O cinema. Hoje ele é roteirista de longa-metragens, crítico de cinema, palestrante e tradutor cinematográfico. É colunista de cinema no portal do jornalista Luiz Andreoli e agora também veste a camisa do Portal Administradores.

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