O empreendedorismo e sua relação com o capitalismo natural

Empreender um novo negócio levando-se em conta o capitalismo natural, certamente será um diferencial competitivo para os próximos anos

Não faz muito tempo em que poluição era sinal de progresso. Hoje uma crise ambiental de grandes proporções é um risco constante. De fato esse cenário vem preocupando uma parcela considerável de empresários. A reconciliação do ser humano, neste caso os negócios, e os sistemas vivos dominará o século XXI.

Por isso empreender um novo negócio levando-se em consideração o capitalismo natural, certamente será um diferencial competitivo para os próximos anos. Mas afinal o que é o capitalismo natural?

O capital natural compreende todos os conhecidos recursos usados pela humanidade; a água, os minérios, o petróleo, as árvores, o solo, o ar, mas também abrange sistemas vivos como mangues, oceanos, rios, áreas ribeirinhas, florestas tropicais etc. Portanto, utilizar adequadamente e com visão sistêmica todos esses recursos faz parte do capitalismo natural.

Para o consagrado autor americano Paul Hawken o capitalismo natural reconhece a interdependência fundamental entre a produção e o uso do capital produzido pelo homem, por um lado, e a conservação e o fornecimento do capital natural, por outro.

A economia deve valorizar plenamente todas as formas de capital. O empreendedor que irá empreender um novo negócio ou mesmo aquele que já está empreendendo deve compreender que na realidade uma economia requer quatro tipos de capital para funcionar adequadamente:

1- O capital humano na forma de trabalho e inteligência, cultura e organização;

2- O capital financeiro, que consiste em dinheiro, investimento e instrumentos monetários;

3- O capital manufaturado, inclusive a infraestrutura, as máquinas, as ferramentas e as fábricas;

4- O capital natural, constituído de recursos, sistemas vivos e os serviços do ecossistema.

Por várias razões empreender um novo negócio têm se constituído em desafios gigantescos para empreendedores. Mas, não considerar o capitalismo natural na atual conjuntura pode significar o fracasso de um negócio, seja ele novo ou já em andamento. À medida que a globalização avança e a disponibilidade por recursos naturais declina, negócios que respeitam o capital natural já são vistos por um grupo considerável de consumidores como necessários para uma nova era mundial. Esse grupo de consumidores está disposto a pagar mais por produtos e serviços que tenham práticas testadas em questões ecológicas que deixaram ser apenas do meio ambiente, mas sim questões sociais.

Não há uma separação verdadeira da economia e da ecologia nem agora e nem haverá no futuro. O que pode haver é uma mudança de comportamento humano para cada vez mais integrar a economia com o capitalismo natural. O empreendedor deverá saber que conciliar os aspectos econômico, social e ambiental a favor da produtividade dos recursos, se constituirá em diferencial competitivo para o seu negócio. É preciso ficar claro que o aspecto econômico sustenta os outros dois. A questão é de obter o lucro de forma sustentável. Sustentável sob o ponto de vista financeiro e sustentável sob os pontos de vista social e ambiental. Para isso, uma das chaves do emprego mais eficaz das pessoas, do dinheiro e do meio ambiente é o crescimento radical da produtividade dos recursos.

O capitalismo natural que dá importância aos sistemas vivos e é a possibilidade de uma mentalidade com escala de valores diferentes do capitalismo convencional, alicerça-se em alguns pressupostos e princípios que o empreendedor deve observar a fim de agregar novos valores ao seu negócio e às oportunidades de negócio. Alguns pressupostos são:

a) Não se pode desconsiderar o meio ambiente. Ele, meio ambiente, não é um fator de produção sem importância, mas um conjunto de recursos que abastece e sustenta a economia;

b) A disponibilidade e funcionalidade dos recursos do capital natural são sérios limitadores do desenvolvimento econômico futuro. Mesmo com toda evolução tecnológica o capital natural não será “dispensável”;

c) Negócios mal concebidos ou mal projetados, consumos excessivos, crescimento populacional desordenado são causas primárias da perda do capital natural;

d) Quando todas as formas de capital são plenamente valorizadas o progresso econômico futuro tem melhores condições de ocorrer. Não é possível negligenciar os fatores econômico, humano, social e natural;

e) Buscar constantemente a produtividade radical dos recursos é determinante para a utilização do capital natural. O desperdício e o consumo excessivo das várias fontes energéticas, por exemplo, terão consequências graves no futuro.

f) O bem estar humano deve ser favorecido. É importante a responsabilidade social corporativa. As empresas devem sair de um modelo tradicional de filantropia para um modelo moderno de responsabilidade social.

g) Investir no capital natural. Trata-se de reverter mundialmente a destruição do planeta mediante reinvestimentos e na restauração do capital natural. Chegou-se a um determinado estágio no planeta que só a conservação não será suficiente para garantir recursos para o futuro. É preciso reinvestir para que a deterioração ambiental não se agrave e comprometa o crescimento econômico e as gerações futuras.

É inegável que a tecnologia vem revolucionando nossas vidas, porém para o capitalismo natural um dos paradigmas a serem rompidos é inverter essa constatação, ou seja, como nossa existência e nossa vida revolucionarão as tecnologias. Esta será a reconciliação entre o homem, a técnica, os negócios e os sistemas vivos do capital natural. Os pedidos aos novos empreendedores não podem ser de súplica para utilização dos pressupostos do capitalismo natural. Cada vez mais empresários e novos empresários estão mudando suas empresas a fim de se tornarem mais ecologicamente responsáveis em virtude de convicções e valores que vão se arraigando a cultura empresarial. Por isso a mudança em busca da produtividade radical e do capitalismo natural está se mostrando inevitável, pois respeitar os limites dos recursos é uma decisão sábia e necessária. Empresas com esses valores e cultura estão sendo cada vez mais notadas e procuradas pelos consumidores. É nessa transição para uma nova maneira de pensar, ou seja, um novo modelo mental, que os novos empreendedores podem agregar conhecimentos para criar empreendimentos mais sistêmicos, mais coerentes, mais equilibrados, um modo de vida ganha-ganha, que funcione para toda sociedade. E assim espera-se que as transformações culturais na comunidade empresarial comecem a acelerar o ritmo da mudança.

No quadro a seguir estão demonstradas algumas características do capitalismo convencional e do capitalismo natural. Compreender o modelo econômico vigente é o primeiro passo para mudanças de mentalidade.

CAPITALISMO CONVENCIONAL

CAPITALISMO NATURAL

O progresso econômico tem melhores condições de ocorrer num mercado livre onde os lucros são reinvestidos e tornam o trabalho e o capital cada vez mais produtivos.

Existem limitadores do desenvolvimento econômico futuro em virtude de que alguns elementos do capital natural não têm substitutos.

Obtém-se vantagem competitiva quando fábricas maiores e mais eficientes produzem mais produtos para venda no mercado em expansão.

Negócios mal concebidos ou mal projetados para o excessivo consumo são causas de perdas do capital natural.

Todo advento de escassez de recursos estimula o desenvolvimento de substitutos.

Em longo prazo, o uso indiscriminado do capital natural trará graves consequências ao bem estar humano.

As empresas e as forças de mercados livres alocarão pessoas e recursos para seu uso e para acumulação de capital.

A sustentabilidade econômica e ambiental depende da superação das desigualdades globais de renda e bem estar material.

Fonte: Paul Hawken, 2010 – adaptado pelo autor

Práticas como a logística reversa devem estar presentes no pensamento dos empreendedores quando da iniciativa de novos negócios. Prever o destino de produtos após seu uso é uma prática que ajuda muito no planeamento adequado do uso racional de recursos. Isto é praticamente uma viagem que exige o abandono de antigas concepções e que agregando este tipo de valor aos produtos, certamente um grupo maior de consumidores estará atento. Estudar e analisar o ciclo de vida dos produtos como importante ferramenta para o ciclo de logística reversa, sem dúvida, é prática recomendável aos empreendedores. Empresas que querem ser lideres de mercado não podem negligenciar as questões relacionadas com a logística reversa. Nesse sentido o crescimento populacional e da industrialização deflagram obrigações ao empreendedor em preocupar-se mais com as questões ecológicas e do meio ambiente, neste caso da logística reversa, com o tratamento dos resíduos sejam sólidos, líquidos ou gasosos. Já existe uma tendência clara no que tange a legislação ambiental, no sentido de exigir de forma cada vez mais rigorosa a responsabilidade das organizações no que diz respeito a todo ciclo de vida de seus produtos e ao aspecto do destino dos produtos após seus usos. As fontes de matérias-primas que fazem parte do capital natural, que há anos atrás pareciam inesgotáveis, já dão mostra de que não sobreviverão para sempre. Por isso a reutilização e a reciclagem devem fazer parte dos planos de negócios dos empreendedores.

Equilibrar a economia com o meio ambiente é uma das grandes questões do século XXI. Por isso se cada novo empreendimento, negócio ou produto levasse em consideração os pressupostos do capitalismo natural, o caminho certo da sustentabilidade estará sendo percorrido. Aqui se potencializa o papel e a responsabilidade do empreendedor, pois aliar a teoria à prática, neste contexto de complexidade dos problemas ambientais, dentro de uma escala sustentável, exige, muitas vezes, atitudes não econômicas o que sem dúvida contraria o tradicional processo de acumulação de capital. E, desta forma, gera conflitos e incertezas no empreender.

Um conceito cada vez mais popular entre as empresas que buscam melhorar seus processos produtivos otimizando o uso de materiais com objetivo de redução dos impactos ambientais chama-se ecoeficiência. Porém um cuidado que deve ser tomado é que manter o foco exageradamente na ecoeficiência pode ser um desastre para o meio ambiente nas seguintes situações:

a) Excessiva economia de recursos e um crescimento da produção de produtos errados;

b) Produtos produzidos em processos errados;

c) Produtos produzidos com materiais errados;

d) Produtos produzidos no lugar errado;

e) Produtos produzidos na escala errada;

f) Produtos distribuídos mediante modelos empresariais errados.

Portanto, buscar o ponto de equilíbrio equacionando esses possíveis erros é o caminho para alcançar a economia durável. Aliar-se ao processo científico e tecnológico na avaliação de possíveis impactos ambientais e sua medida monetária, são elementos importantes e fundamentais no processo de conscientização para empreendedores. Esse conjunto de fatores, não estritamente ecológicos, faz parte do capitalismo natural e tem papel decisivo na mudança de valores socioculturais, que permite a adoção de práticas sustentáveis tanto economicamente, socialmente e ambientalmente falando.

Assim, se novos empreendedores ou mesmo empresários que já atuam no mercado tiverem em mente que aumentar a produtividade dos recursos significa obter de um produto ou serviço a mesma quantidade de utilidade ou trabalho empregando, menos material e energia, as evidências sugerem que o aumento radical da produtividade dos recursos é prática e eficaz em termos de custos. Se o empreendedor consegue reduzir custos em seus produtos e serviços certamente os mesmo tornam-se mais competitivos e consequentemente a empresa ou o negócio se sustenta. Assim utilizando os conceitos do capitalismo natural agregado às técnicas de empreender é possível tornar os empreendimentos mais socialmente responsáveis e naturalmente mais eficientes.

Por fim, empreender, diante de tantas circunstâncias e variáveis significa acreditar no negócio, mas principalmente se preparar para enfrentar e viabilizar a ideia do negócio. Começar bem é um bom indicativo de trilhar bem o caminho do sucesso. É fundamental adquirir conhecimento e capacitação e ter um bom plano de negócios que contemple, também, o capitalismo natural.

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