Violência doméstica, saúde mental e o cuidado com filhos devem estar entre as novas prioridades dos RHs Entre as várias transformações que a covid-19 vem provocando no mercado de trabalho, está a necessidade de ampliação dos programas de diversidade e inclusão para atender novas questões intensificadas pela pandemia, entre elas a violência doméstica, a saúde mental e o enfraquecimento das redes de apoio para o cuidado dos filhos, que vêm ganhando cada vez mais espaço nas agendas das organizações. Não que essas questões não fossem importantes antes. Ao contrário, já eram tratadas anteriormente no mundo corporativo. A pandemia, no entanto, trouxe um olhar ainda mais urgente sobre elas, à medida que ficaram mais evidentes, passaram a ser relacionadas à queda de produtividade e, no caso da violência doméstica, à ameaça contra integridade física dos colaboradores, principalmente mulheres, e seus familiares. A violência doméstica, para muitas organizações, era um tema externo, ocasionalmente tratado quando casos pontuais envolvendo colaboradores vinham a público. Nas empresas com maior contingente de mulheres, era até comum ver ações de apoio e acolhimento às vítimas. Na pandemia, no entanto, o problema passou a ser crônico, podendo ocorrer, inclusive, durante o horário de trabalho e exigindo medidas mais efetivas. O distanciamento social de familiares, amigos e colegas de trabalho, aliado à instabilidade do cenário econômico, também ampliou a recorrência de problemas de saúde mental. Sinais de surgimento ou agravamento da depressão, ansiedade, estresse e esgotamento emocional surgiram de forma recorrente, demandando a criação programas cada vez mais presentes nas organizações para monitorar a saúde mental. A sua maneira, cada grupo da sociedade foi atingido pelo confinamento e isso exige dos programas de diversidade e inclusão um olhar ainda mais interseccional. Além de trabalhar os tradicionais temas de mulheres, étnico-racial, comunidade LGBTI+ e pessoas com deficiência, mais que nunca é necessário ampliar o olhar e ver os recortes interseccionais afetados pela pandemia dentro de cada grupo. Assim, os programas de diversidade devem tomar ações relativas a questões como as mulheres que ficaram ainda mais vulneráveis à violência doméstica, as pessoas com deficiência que não tiveram seus ambientes de home office adaptados ao trabalho, mães solo impossibilitadas de manter o mesmo nível de produtividade pela falta de redes de apoio, negros e periféricos mais afetados pela covid-19 que qualquer outro grupo. As ações devem incluir também as pessoas com menor qualificação, que não puderam aderir ao home office e correm o risco de perder seus empregos com a consolidação do teletrabalho, além dos jovens das classes mais baixas, que tiveram sua educação prejudicada pela falta de acesso à internet e ou porque tiveram de assumir outros papéis no contexto familiar durante a pandemia. Em um momento em que muitos negócios passam por reinvenção, os programas de diversidade e inclusão também precisam enfrentar suas próprias transformações para que continuem relevantes, coerentes e, sobretudo, legítimos em seus propósitos. Se assim for, poderão continuar a contribuir para o comprometimento, engajamento, inovação e resultados que desejam todas as empresas na recuperação econômica do pós-pandemia. *Letícia Rodrigues é consultora especialista em diversidade e inclusão e sócia-fundadora da Tree Diversidade.