"Moneyball: o homem que mudou o jogo" e uma aula de gestão
"Moneyball: o homem que mudou o jogo" e uma aula de gestão

"Moneyball: o homem que mudou o jogo" e uma aula de gestão

O filme é baseado em fatos reais, ocorridos durante a Major League Baseball de 2002

Assim como acontece com as comédias, os filmes esportivos também carregam uma conexão muito forte com o mundo dos negócios. Aqui mesmo no Portal Administradores eu já falei sobre alguns deles, como Jerry Maguire: A Grande Virada (Cameron Crowe, 1996), Rudy (David Anspaugh, 1993) e Um Domingo Qualquer (Oliver Stone, 1999). Ainda que os filmes citados acima tenham suas diferenças, todos giram bastante em torno do elemento da superação, substantivo sempre ligado também ao mundo corporativo. Já este O Homem que Mudou o Jogo (Moneyball, EUA, 2011), difere dramaticamente dos filmes mencionados há pouco, já que antes de qualquer coisa, Moneyball é uma tremenda aula de gestão de negócios.

Baseado em fatos reais ocorridos durante a Major League Baseball de 2002, e também no livro Moneyball: The Art of Winning an Unfair Game, do escritor Michael Lewis (que escreveu também o livro que deu origem ao filme A Grande Aposta, filme sobre o qual eu também já falei aqui no Portal Administradores). Lançado em 2003, o livro deu origem ao filme que mostra a inacreditável sequência de 20 vitórias consecutivas do time com os menores salários da liga daquele ano, estabelecendo um novo recorde. Detalhe: o mesmo time havia começado o campeonato com uma sequência de onze derrotas seguidas. O que ocasionou tal mudança? Como o time pôde melhorar tanto? Um novo técnico? Espírito renovado? Milagre dos céus? Não. A resposta é estatística e mentalidade voltada para o Business. O Homem que Mudou o Jogo não é o seu filme de esporte comum, mas sim um filme sobre o poder da intuição e também sobre o correto entendimento de informações vitais para qualquer projeto ou tipo de negócio.

Trata-se de um filme altamente inteligente e profundo, centrado na figura do gerente geral do time de beisebol Oakland Athletics, Billy Beane (Brad Pitt, estupendo), que após fracassar como jogador da MLB, decidiu seguir a carreira de gerenciador dentro do esporte que tanto ama. A questão é que em sua temporada anterior, Beane até conseguiu levar o Athletics para a World Series, apenas para perder não só a decisão, como também seus três melhores jogadores, todos contratados por times mais ricos que oferecem salários bem maiores, longe da realidade dos cofres do time gerenciado por Beane.

Para a temporada atual, Beane se encontra na ingrata situação de ter que reconstruir o time a preço de banana, e é então que ele acaba sendo persuadido (e o filme começa a revelar sua verdadeira essência) pelas teorias de Peter Brand (Jonah Hill, excelente), um nerd recém-graduado em Yale que passou um bom tempo mastigando números que o levassem a uma rígida análise do custo-benefício dos jogadores de beisebol. Para Peter, Beane deveria contratar jogadores baseado em seus KPI's, que apontavam para os nomes subvalorizados da liga. Juntos, Beane e Brand foram capazes de montar um time que à princípio parecia uma piada, mas que durante o andamento da temporada, provou ser a maior barganha da história da liga.

Muito do peso do filme também se deve à sua impecável dupla de protagonistas. A performance de Hill é propositalmente tímida e ao mesmo tempo fascinante: um jovem acima do peso que nunca jogou sequer uma partida de beisebol em toda sua vida, Peter se deu ao trabalho de analisar décadas de estatísticas do esporte para provar que para se ter um time vencedor, não é sempre necessário seguir os conselhos de olheiros veteranos. Peter é tímido e quieto, mas defende suas teorias com firmeza e certeza, e sua figura é um interessante contraste em relação aos irredutíveis olheiros da equipe, acostumados a bater de frente com seus superiores enquanto mascam quantidade significativas de tabaco.

Já o Billy Beane interpretado por Pitt é um homem introspectivo e solitário, que se recupera de um casamento desfeito e tenta cuidar de sua filha, Casey (Kerris Dorsey, da série Ray Donovan). Beane é tão focado, que não suporta sequer assistir a um jogo no estádio, preferindo dirigir sem destino enquanto escuta a narração no rádio do carro. Ele está totalmente ciente de que, se seguir as teorias suas e de Peter, e o time for mal em campo, nunca mais conseguirá um emprego na área. Ele também enfrenta uma feroz oposição por parte do técnico do time, o cabeça-dura Art Howe (o falecido Philip Seymour Hoffman), que sente que sua experiência está sendo insultada por um gerente hipnotizado pelas enganosas teorias de Peter, que segundo o próprio Howe, "mal saiu das fraldas".

Dirigido por Bennett Miller (do excepcional Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo), Moneyball está longe de ser o seu filme esportivo tradicional, e de fato a produção funciona melhor com o público que aprecia um bom drama ou valoriza uma boa história.

Não se trata de um filme sobre os momentos emocionantes do esporte; Quando vai a campo, é apenas em momentos cruciais. Sua essência está nos concisos e cerebrais diálogos do primoroso roteiro escrito por dois dos maiores roteiristas da história; Aaron Sorkin (de Steve Jobs, cuja crítica também está disponível aqui no Portal Administradores, e A Rede Social), e Steve Zaillian (de A Lista de Schindler e do vindouro The Irishman). Assim como em A Rede Social, discussões abstratas refletem profundos conflitos emocionais.

Há algumas boas risadas também, mas apenas uma ou duas são realmente intencionadas para serem engraçadas. Ao invés disso, as risadas do público vêm através do reconhecimento, da percepção da ironia, da apreciação daquela "tirada" perfeita, e acima de tudo, dos insights sobre a natureza humana.

O que Moneyball realmente é, é um filme sobre negócios. Business. Nenhum dos jogadores individuais têm grandes papéis. Todo o drama acontece dentro da mente de um gerente geral e seu "cara dos números". Eles apostam contra a tradição em favor da análise numérica, o que vai contra um século de história do beisebol, ainda que durante toda esta mesma história, os fãs tenham revirado seus almanaques em busca de improváveis teorias estatísticas. O que Beane e Brand realmente demonstraram é que um computador é capaz de montar um bom time de maneira tão eficiente quanto o instinto humano.

Pode até parecer um tanto melancólico, mas Moneyball: O Homem que Mudou o Jogo é por si só uma produção melancólica. Pitt tem algumas cenas extremamente honestas ao lado de Hill, em que ele se pergunta o que tudo isso significa, afinal. Não importa se o time consegue emplacar uma série de 20 vitórias seguidas. Tudo que importa é que o time vença o último jogo da temporada. Mesmo os jogadores são vistos como peças de um inventário, o que fica evidente em alguns momentos dramáticos onde atletas são vendidos ou negociados como barganha para times de ligas menores.

A verdade é que o beisebol, assim como qualquer outro esporte, é um negócio. Apenas nós, os fãs, os amam como se fossem um jogo.

Moneyball: O Homem que Mudou o Jogo está disponível no mercado de Home-Video e Televisão.

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    Eduardo Kacic

    Eduardo Kacic

    Eduardo Kacic é bacharel em administração com mais de 15 anos de experiência no mundo corporativo, até que decidiu se aventurar por sua paixão: O cinema. Hoje ele é roteirista de longa-metragens, crítico de cinema, palestrante e tradutor cinematográfico. É colunista de cinema no portal do jornalista Luiz Andreoli e agora também veste a camisa do Portal Administradores.

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