América Latrina supera o inferno de Dante

Não parece ser destino, pois a humanidade aprendeu a dominar o caminho do bem e do mal, deixando a sorte e o azar para os mais crédulos. Mas uma coisa é certa, a América Latina está perdendo o trem-bala da história, que está passando e não espera passageiro lento, burro e despido de vontade própria. De um jeito ou de outro, tudo indica que já perdemos o século 21. A luta agora é para ver se conseguiremos sobreviver a tanta violência, descalabro, corrupção e falta de tudo. A educação, economia empresarial e estratégia de estado formam a tríade da salvação. Quem sobreviver verá ou, o último que sair, por favor, apague a luz. Não há como fugir da realidade que espreme consciências e multiplica inconsciências: a América Latina, já denominada América Latrina pelo livre humor popular, parece que não se emenda nem remenda, conforme descreve de forma insuspeita o artigo de Jens Glüsing (A Violência na América Latina: o reino das sombras das máfias) na respeitada Der Spiegel. Glüsing desenha um quadro cujo foco é apontar a dominação criminosa que se impõe ao continente latino-americano, desde o México, passando por El Salvador, Guatemala, Honduras, Venezuela, Colômbia e Brasil. Só não falou do Haiti por ser óbvio demais relatar como anda aquele desastre incontido pela miséria e espoliação, que as forças brasileiras com o capacete azul da ONU não conseguem apaziguar. O nível de organização e mobilização que o crime e a violência atingiram nestas paragens latinas não tem paralelo nem nas eternas guerras civis da África, que já se estendem por décadas sem fim matando e mutilando milhões de seres humanos, e servindo de laboratório para a indústria de armas. O crime organizado e mafioso que domina a América Latrina é insidioso, espalha-se numa extensa malha labiríntica que envolve desde imensas populações pobres até o poder do Estado. O recente escândalo internacional, que parou e colocou literalmente de quatro a capital da maior potência econômica do continente, é o principal indicador do poder da máfia do crime. E não há como deixar de conectar esse nível de paroxismo com três universos determinantes do êxito da engenharia humana nos países desenvolvidos: educação, economia empresarial e estratégia de estado. A educação formal e média no primeiro mundo situa-se em mais de 12 anos, enquanto na AL está estagnada em 4 anos, três vezes menos. Os melhores sistemas de ensino por aqui não ultrapassam o quartil inferior dos testes internacionais, portanto, a desqualificação do ensino está criando um exército de incompetentes que não conseguem, ao menos, compreender ou interpretar textos muito básicos. E não há falta de dinheiro, o que indica seriíssimo problema de gerenciamento, de incompetência na gestão de volumes cada vez maiores de recursos. Em recente levantamento do Departamento de Estado norte-americano, foi identificado que mais de US$ 11 bilhões (isso mesmo, bilhões!), são desperdiçados anualmente na AL devido às elevadas taxas de repetência e evasão escolar. Não faltam recursos, falta gerência. Na economia empresarial, centro gerador dos principais incrementos de crescimento de todos os países bem sucedidos, a situação da AL é semelhante ao náufrago que acaba de salvar-se em uma ilha ridiculamente pequena. Só que seus problemas mal começaram: a pequena ilha tem apenas um coqueiro sem cocos e sem água, e o pobre náufrago está com a roupa do corpo em frangalhos, muito ferido, bateu a cabeça e não se lembra de nada. Mais perdido, impossível. O gigante da AL, o Brasil, não representa nada no comércio mundial, ficando com menos de 1,5% do movimento, portanto, o ridículo elevado à enésima (im) potência. Os enormes esforços empresariais para competir e inserir-se num contexto global são literalmente exterminados por governos e governantes imbecis, exímios burocratas cartoriais que não param de gerar políticas fiscais e aduaneiras altamente danosas às empresas, mas que são fortes geradoras de recursos pela espoliação do faturamento empresarial. Mais de 80% de todas as empresas da AL são pequenas e médias, que empregam cerca de 60% de toda a força de trabalho, um exército de 135 milhões de pessoas, dentre 225 milhões em todo o continente. Nem por isso têm privilégios, ao contrário: mais de 80% da oferta de crédito destina-se às grandes empresas. Mas esse crédito é inferior à metade do ofertado nos mercados emergentes como China e Índia: cerca de 24% do PIB contra 52%. Como se isso não bastasse, os custos para abrir uma empresa podem consumir cerca de três vezes a renda per capita média, contra 1% nos Estados Unidos. Quer mais? O tempo médio para abrir uma empresa na Dinamarca não ultrapassa três dias, no Brasil pode ultrapassar três meses e uma longa e intensa via-crúcis por cartórios, juntas comerciais, guichês públicos, dezenas de carimbos, taxas, impostos, contribuições, gorjetas e uma incontida festa para as copiadoras. Na estratégia de estado, bem, a falta dela realmente deve compensar, pois a cada novo governo em todo o continente são contratados milhares de técnicos, especialistas, consultores e magos de plantão para traçar estratégias não se sabe para que, pois os famosos Planos dos Primeiros 100 Dias não sobrevivem à segunda semana de desgoverno. O planejamento de estado nos países desenvolvidos é lição de casa que está muito distante da classe política do momento na AL. No primeiro mundo, os eleitos podem até mexer no varejo, mas não tocam no atacado, defendido por leis, normas e regulamentos que impedem qualquer ação irresponsável na gestão pública de longo prazo. Esse longo prazo é que possibilitou à Coréia do Sul descolar-se, em 20 anos de muita disciplina, dos outrora seus pares latino-americanos nos números da incompetência de gestão. Não deixaram nem poeira e rastro para que fossem seguidos de tão distantes que já estão nas três esferas: educação, economia empresarial e estratégia de estado. Por aqui, os presidentes do turno querem mudar o mundo, mas não querem curar a miopia que os impede de enxergar um dedo à frente do nariz. Há nítida desagregação dentre os países membros da AL, especialmente perpetrada por títeres de uma esquerda agonizante, burra, atrasada e despida do menor senso do ridículo. O planejamento de estado não existe, e a situação do momento é refém das demandas do momento, como a decisão do líder cocalero e atual presidente da Bolívia, Evo Morales. Ao usurpar para o estado a propriedade privada de indústrias petroleiras, para fazer bravata aos eleitores da assembléia constituinte, certamente não vai salvar a Bolívia de sucumbir-se da sua própria e inexorável incompetência. E assim a América Latrina consegue, neste início do século 21, concretizar um inferno que supera o de Dante, ao exterminar pessoas, empresas, oportunidades, sonhos e vontades, e jogando para o futuro, não menos que um século, o fio da possibilidade de mudança. Uma mudança que persiste em existir, e que ainda não foi cooptada pelo crime organizado das gangues favelizadas e das máfias encasteladas no poder, porque protegido está na alma de uns poucos patriotas sobreviventes e conscientes. Quem sobreviver verá ou, o último que sair, por favor, apague a luz.
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