A educação ambiental como instrumento de gestão em empresas privadas

A implantação da educação ambiental como ferramenta de gestão em empresas privadas provoca impactos positivos no contexto operacional das empresas, proporcionando uma integração eficiente entre todas as partes envolvidas no contexto organizacional, trazendo benefícios para os empreendimentos e para a sociedade em geral. Chegou-se a essa constatação após a aplicação de diversas metodologias, afim de aferir a implantação de programas em educação ambiental através de sistemas de gestão ambiental e da política ambiental adotada no cotidiano das empresas

As constantes mudanças no mercado e no cenário econômico e social fez com que as organizações busquem implantar políticas educacionais em seus sistemas de gestão. Essas políticas são resultado de estudos e levantamentos realizados através da avaliação de sua dinâmica econômica e impactos ambientais e sociais ocasionados por suas atividades econômicas, que resultaram em processos de reestruturação afim de se obter não só resultados positivos para a empresa, como para a sociedade e o meio ambiente, que sofre indiretamente com as consequências (LEFF, 2011).

Com o advento da série ISO 14.000, as empresas passaram a buscar um equilíbrio entre a economia e o meio ambiente, com a inserção de políticas ambientais através da aplicação de métodos específicos da gestão ambiental (CRUZ, 2013). Essa normatização elencou todos os requisitos necessários para que as empresas pudessem obter uma certificação de qualidade ambiental, se diferenciando no mercado através da adoção de práticas sustentáveis e responsabilidade social.

Neste contexto, as organizações utilizam ferramentas de educação ambiental para atender aos preceitos estabelecidos na obtenção de certificações ambientais, assim como em ações relacionadas ao desenvolvimento sustentável junto aos colaboradores, que replicam os conceitos assimilados no cotidiano e em suas comunidades (FARIAS; SOUZA, 2010). O incentivo à discussão sobre desenvolvimento sustentável está relacionado à preocupação com a compatibilidade entre a proteção ambiental e o desenvolvimento socioeconômico.

Conforme se observa na dinâmica empresarial, economia de sustentabilidade ou economicidade socioambiental é o nome dado à relação entre a produção continuada e o consumo de bens e serviços com a condição ambiental preservada associada ao compromisso de resultados sociais positivos relacionado à adoção de boas práticas ambientais (MONTIBELLER, 2014).

Para tanto, o presente artigo se propõe a analisar as metodologias de educação ambiental adotadas pelas empresas que implantaram em sua gestão a questão ambiental e seus resultados internos e na sociedade, já que a responsabilidade ambiental tornou um dos principais instrumentos para a introdução de práticas sustentáveis em seu meio, o qual têm sido alvo de muitas discussões sobre o real comprometimento com a questão ambiental, verificando a responsabilidade interna das empresas com o indivíduo, buscando oferecer uma melhor qualidade dos produtos ou serviços fornecidos, desde o início do processo de produção até a valorização do capital humano envolvido.

O estudo foi baseado na coleta de dados efetuada através da observação in loco, de entrevistas e da análise documental, em conjunto com uma caracterização de pressupostos elencados na bibliografia pertinente ao tema, para melhor compreensão e discussão dos dados levantados, visando identificar as metodologias de educação ambiental implantadas pela empresa, assim como seus efeitos nas rotinas administrativas, sociais e ambientais.

LAKATOS e MARCONI (2003), afirmam que a pesquisa de campo é utilizada com o objetivo de levantar informações ou conhecimento acerca de um problema específico, para o qual se procura uma resposta ou o teste de uma hipótese que se queira comprovar ou ainda descobrir novos fenômenos ou relações entre eles.

Para o levantamento dos dados, foi efetuada uma visita à empresa Amxcc Industria e Comércio Ltda., de nome fantasia Chlorophylla Fytocosmetica, localizada na cidade de Gravatá, Estado de Pernambuco. Baseada em pesquisa descritiva, a análise buscou levantar dados sobre a realidade da política ambiental da empresa e o desenvolvimento de ações em educação ambiental. A coleta foi realizada na sede da empresa, através de uma entrevista com a direção da mesma, assim como com a observação das instalações e de seus manuais e registros de gestão ambiental e de qualidade, após a concordância quanto à participação, onde os participantes foram informados verbalmente sobre os objetivos, métodos e processamento da pesquisa.

Todas as informações levantadas durante a entrevista foram comparadas às informações já levantadas através da bibliografia correlata para uma melhor compreensão das ferramentas de educação ambiental utilizadas no cotidiano da empresa. Após a comparação, procedeu-se a análise e discussão dos dados levantados, observando as metodologias de educação ambiental e seu impacto nas organizações privadas e na sociedade.

A intensidade da adoção de sistemas de gestão ambiental nas empresas varia de acordo com o grau de percepção dos benefícios percebidos pelos empresários em sua implantação. A dinâmica de mercado, as variações econômicas e sociais, assim como a disponibilidade de insumos e mão de obra, se tornaram fator determinante na efetividade de uma política ambiental eficiente. Neste contexto, é notória a preocupação com o trato ambiental diante do aumento das situações emergenciais, ampliando a consciência e percepção de risco (SILVA, 2001).

Identificou-se na primeira observação que a empresa visitada possui uma visão voltada à gestão eficiente de recursos e de pessoal, onde os gestores da empresa salientaram a importância de obedecer às boas práticas de sustentabilidade elencados no Sistema de Gestão Ambiental implantado pela empresa. Uma de suas visões estratégicas é a conscientização ambiental visando a economia sustentável, através do desenvolvimento de produtos que possuam baixo impacto ambiental atrelado ao menor custo de produção.

Como discorre GOUVINHAS (2010:57), “as empresas precisam avaliar o impacto gerado por seus processos e produtos ao longo de todo o ciclo de vida”. Foi observado que a empresa possui um departamento de gestão da qualidade que, em conjunto com o departamento de controle e logística, realiza análises periódicas da linha de produção, indicando soluções para a diminuição dos impactos ambientais provocados pela atividade da empresa (fabricação, envase e distribuição de cosméticos e perfumaria), visto que a atividade principal da mesma é potencialmente poluidora se não for controlada e planejada de forma eficiente.

Outra estratégia adotada pela empresa é a capacitação continuada dos colaboradores acerca de medidas de segurança no trabalho, segurança ambiental e qualidade total. Justamente neste ponto, que a adoção de medidas em educação ambiental provoca mudanças no cotidiano da empresa e no contexto social ao qual seus colaboradores estão inseridos, gerando benefícios para a comunidade e um retorno positivo para a empresa, através da valorização da marca perante o mercado consumidor.

Por constituir um processo de relacionamento de valores e classificação de conceitos, a educação ambiental objetiva o desenvolvimento das habilidades, modificando as atitudes do homem em relação ao meio ambiente, proporcionando uma mudança no entendimento das relações entre a sociedade, suas culturas e o meio biótico (SILVA, 2011).

Com a implantação do sistema de gestão ambiental na empresa, o processo de educação ambiental foi realizado com a implantação de um Programa de Educação Ambiental (PEA), abrangendo um sistema de coleta seletiva para os resíduos oriundos do refeitório e das áreas administrativas, além de ações continuadas com palestras, distribuição de circulares via e-mail e cartilhas sobre reciclagem e consumo consciente, objetivando influenciar os colaboradores a preservar o meio ambiente. Essas práticas são adotadas por outras empresas do setor com a meta de obtenção de certificações ambientais que as tornem mais competitivas no mercado consumidor.

O processo de sensibilização ambiental ao qual os colaboradores vivenciaram, foi decisivo para a eficácia do sistema de gestão ambiental da empresa, situando as funções de cada um deles no contexto do PEA, destacando a responsabilidade comum em relação ao meio ambiente. Os ciclos de palestras referentes ao PEA, são realizados trimestralmente, com temas propostos pelos próprios funcionários, focados no cotidiano e fatos da atualidade. Os colaboradores, em sua totalidade, participam das atividades desenvolvidas pela empresa. Este ponto, inclusive, é observado pela empresa nas contratações de pessoal e de fornecedores, verificando o conhecimento sobre meio ambiente, preservação e origem de insumos, de acordo com o meio de atuação dos mesmos.

Apesar do cuidado ambiental e das ações em educação ambiental implantadas através do PEA, a empresa não possui certificações ambientais, mesmo já atendendo vários aspectos elencados na série ISO 14000, com a adoção de indicadores de qualidade total, satisfação do cliente, acidentes, consumo de energia, consumo de água e atendimento às legislações ambientais. Este monitoramento é realizado por pelos gestores de cada departamento, que apresentam estes resultados mensalmente ao departamento de gestão da qualidade.

A educação ambiental tenta fazer com que a cidadania seja exercida de forma ampla, gerando uma ação transformadora que tenha como consequência a melhoria da qualidade de vida da coletividade (PELICIONI, 2014). Essa transformação deve abordar o equilíbrio entre o homem e a natureza, deixando claro o exercício da cidadania ativa que busque a melhora das condições de vida, onde o homem assume o controle da sua própria vida sem restringir a vida da coletividade. Na economia, os mercados buscam otimizar seus recursos para produzir mais com um custo menor, no entanto essa busca nem sempre se traduz em meios mais eficientes de uso dos recursos naturais ou no incentivo aos meios sustentáveis para com os seus colaboradores.

Diversos estudos indicam que uma das melhores ferramentas para uma abordagem efetiva do tema é através da educação ambiental, onde o contexto social do indivíduo passa a praticar o consumo consciente aliadas ao conhecimento sobre preservação do meio ambiente na empresa e em sua vida social (SILVA, 2011). A empresa visitada, apesar de não possuir certificações ambientais que possam ser utilizadas como balizador quanto ao trato ambiental, desenvolveu um programa de educação ambiental próprio, adotando um desenvolvimento contínuo e atualizado, conforme sugestão dos próprios colaboradores. A existência de uma coleta seletiva interna faz com que esse método seja adotado pelos colaboradores em sua rotina de trabalho e até em suas casas, deixando claro que a abordagem da empresa está surtindo os efeitos desejados.

Atualmente, muitas empresas utilizam ferramentas de educação ambiental como um desdobramento da gestão em qualidade total e ambiental proporcionando uma melhoria contínua para a empresa, para os colaboradores e para o meio ambiente (SILVA, 2011). A adoção de novas tecnologias, métodos e sistemas avançados de gestão e controle ambiental exigem a adoção de ferramentas educativas para que sua execução e acompanhamento se tornem eficazes no âmbito empresarial e social.

Desta forma, a pesquisa conseguiu atingir seu objetivo inicial, no entanto, fica evidente que a adoção de medidas de educação ambiental como instrumento de gestão traz melhorias satisfatórias para todas as partes envolvidas, independente da sua área de atuação, visão ou mercado consumidor.

  1. REFERÊNCIAS

CRUZ, R. S. (In)Consciência Socioambiental em Grandes Empresas do Estado de Alagoas. IFAL. Marechal Teodoro: IFAL, 2013.

GOUVINHAS, R. P. Sustentabilidade Empresarial: práticas em cadeias produtivas – organizado por Handson Cláudio Dias Pimenta. IFRN. Natal: IFRN Editora, 2010.

LEFF, E. Complexidade, Interdisciplinaridade e Saber Ambiental. Olhar de Professor, 14(2): 309-355. Ponta Grossa: UEPG, 2011.

MARCONI, M. de A.; LAKATOS, E. M. Fundamentos de metodologia científica. 5ª Ed. São Paulo: Atlas, 2003.

MONTIBELLER, G. Desenvolvimento e Economicidade Socioambiental. Barueri: Manole, 2014.

PELICIONI, M. C. F. Fundamentos da Educação Ambiental. São Paulo: USP, 2014.

SILVA, A. A. A Empresa e a Gestão Ambiental: Uma Análise a partir da Perspectiva Evolucionista. UFF. Rio de Janeiro: PGCA-UFF, 2001.

SILVA, V. P. da. Gestão Ambiental – Reflexões e Estratégias de Aplicação. Natal: IFRN Editora, 2011.

SOUZA, I. P.; FARIAS, I. B. da S. Direito ao Desenvolvimento Nacional e ao Meio Ambiente Equilibrado: uma contraposição entre a teoria e a prática a partir da análise jurídica. IFAL. Marechal Teodoro: IFAL, 2010.

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