10 lições de uma aula da saudade

O que devemos aprender sobre a vida e sobre a saudade em uma aula? Aprenda a ser um jardineiro e um viajante. A compreender que a saudade faz parte dos caminhos que trilhamos e que as partidas e chegadas compõem a sintonia que embala nossos ritmos

Gostaria de confessar que não fiz a aula da saudade pensando nos alunos ou na trajetória que tiveram ao longo do curso. Fiz a aula para os alunos e não sobre eles, foi pensando em mim que delimitei aquilo que valia a pena ser dito. Fiz pensando que essa poderia ser a minha última aula. E na verdade é a minha última aula como professor da turma de formandos em ADM da UFV de janeiro de 2016. Fiz isso pensando minha vida e algumas lições que aprendi nos vários caminhos que passei e com as várias pessoas que encontrei. Existe uma pessoa que me marcou mais do que todas as outras e uma experiência de vida que me transformou por completo. As lições sobre elas eu deixarei a vocês.

Uma coisa importante a ser dita é que na verdade a aula é da saudade porque essa foi a última vez que assistiriam a uma aula nessa instituição como alunos de graduação. Pedi que os alunos escrevessem como esperam estar para os próximos 5 anos... Não o que foi nos 5 anos que se passaram. Sabem por quê? Saímos movidos pelos sonhos, são eles que nos farão buscar as trilhas que nos levam onde estaremos. De alguma forma sabemos que as coisas terão sentido mais tarde, que as decisões foram acertadas. Sabemos que o que fizemos de nós, e o que continuaremos fazendo, nos levarão onde queremos chegar. O futuro não é o lugar para onde estamos indo, mas o lugar que estamos construindo. O ato simples de trilhar nossos caminhos em busca do futuro, muda tanto o futuro como a nós mesmo. Daqui 5 anos, não seremos mais os mesmos, nem nosso futuro da forma como pensamos hoje. O futuro não é estático, ele é fluido! Como nossa vida toda!

Um bom início da mensagem que quero transmitir é questionar o que a aula da saudade Não é. Particularmente, creio com veemência que a aula da saudade não é um momento para falar de mercado de trabalho como muito se faz. O mercado de trabalho e a formação do profissional de administração devem ser discutidos todos os semestres ao longo dos anos de formação, não nesta aula. A aula da saudade não precisa ser chata, nem com lições de moral. Falar na aula da saudade sobre mercado e formação é transformar a aula da saudade na aula da depressão!

A saudade a que se refere a aula da saudade é a lembrança, a boa lembrança de tudo que nos marcou. Das piadas dos professores, das palavras bonitas, dos exemplos de vida, das provas difíceis, das conversas em sala e das dormidinhas durante a aula... Só é possível sentir saudade daquilo que gostamos, daquilo que amamos, daquilo que foi bom pra nós. A saudade é a marca que não nos deixa esquecer tudo de bom que passamos. A saudade também é uma maneira de nos fazer pensar no futuro, em nós mesmo.

Eu, particularmente, tinha muitos motivos para sentir saudades. Pra viver intensamente um momento de saudade. Participava de minha primeira aula da saudade como professor da UFV e reflitia sobre minhas atitudes na docência e a gratidão em formar seres humanos. Não me preocupava naquele momento os administradores que estavam saindo, mas os seres humanos que ajudei a formar. Não me preocupava porque eu sei que serão bons administradores com o currículo que cumpriram. Mas isso não garante a formação de seres humanos capazes de regar os jardins da humanidade com sua bondade. E não se faz um mundo repleto de paz com profissionais competentes, mas com pessoas bondosas. Por isso, me preocupo com os seres humanos que formo. Formando seres humanos sábios e sensíveis eu sei que estaremos deixando ao mundo administradores sábios e sensíveis.

E daqui pra frente será assim, uma nova vida, com as lembranças eternas daquilo que foi vivido e aprendido. A saudade é daquilo que vivemos e das pessoas que passaram por nós. Por isso eu tinha motivos em dobro para falar de saudade. A exatos 1 mês, perdi meu pai, que hoje descansa em paz. Meus alunos foram testemunhas de compromissos que me ausentei para ficar com ele no hospital. Eu também lutei com ele. E hoje o que me resta são lembranças, são saudade. É a Saudade, porque saudade é eternizar a beleza de tudo que vivemos. Acho que por isso eu procurei trazer a saudade e nada mais.

E posto aquela minha condição de sentir saudade, eu fiquei pensando que mensagem e lições eu deveria levar aos formandos. E cheguei à conclusão que ao sentir saudade do tempo que fiquei com meu pai e do tanto que aprendi com ele eu deveria pensar nas tantas coisas que trouxe com seu convívio e que levo para minha vida toda. Por tanto, eu queria que essa aula fosse minha última contribuição em termos de aprendizado para aqueles tantos jovens. Mas um aprendizado sobre a vida, na intenção de ainda dar uma última contribuição a formação de seres humanos mais felizes.

Não foi um momento triste pra mim, e a formatura não pode trazer tristeza a ninguém; Em ambos os casos, só podemos ter saudade, e é ela que as vezes nos faz chorar. Porque quando não cabe no coração, escorre nos olhos. A formatura significa uma mudança de vida, assumir novas responsabilidades, ressignificar parte do nosso mundo.

Significa que devemos aprender que as partidas fazem parte da vida, mas as chegadas também. A letra de uma música do Pe. Fábio de Melo sintetiza bem essa questão: “Em cada porto e despedida dessa vida, Esqueci meu coração batendo lá. Aos poucos transformei-me em tantos outros”.

Existe uma frase que gosto muito que fala que “os barcos estão seguros se permanecem nos portos, Mas não foram feitos pra isso”. Os barcos, neste caso, somos nós. Que muitas vezes nos aprisionamos em muitos portos, por medo de sair, por saber que ao entrar em novos mares estaremos sujeitos a tempestades, e outras tormentas. Isso dá medo. E por natureza somos todos medrosos. Mas não tenham medo! Não temam a vida!.

Mas em meio a partidas e chegadas os medos são bons para termos os cuidados necessários. Por isso eu aprendi que devemos aprender com os viajantes.

Somos todos viajantes desse mundo. Partimos e chegamos sempre, seja dos lugares que criamos raízes, seja das pessoas que fixaram em nós as suas raízes. O viajante sábio sabe que as partidas são inevitáveis. Que não podemos levar tudo que queremos nas viagens. Muitas vezes tentamos colocar mais bagagem do que é permitido. Só então percebemos que muita coisa deve ficar para trás. Não dá para levar tudo, só o essencial. São nestes momentos que aprendemos e conseguimos mensurar o valor das ausências, a dar o devido valor às coisas e as pessoas que ficaram para trás. Quando mensuramos os verdadeiros valores, sabemos que para cada partida há necessidade dos retornos. Então quando conseguimos ver que algo é realmente importante, podemos voltar. Também teremos condições de saber o que levamos em excesso. E os excessos são somente pesos que nos atrapalham. Devemos deixa-los para trás. Viajar então é isso, é saber mensurar o valor das ausências e das presenças, é deixar os excessos.... e partir sem medo e bem leve. E isso o meu pai me ensinou bem. Espero então Que nas partidas da vida, vocês possam ir leves, bem leves, Mas se levem. Não se prendam nos portos.

Outra lição que gosto muito é a do jardineiro sábio.

Também somos todos jardineiros. Os jardineiros vivem de sonhar, é ao imaginar o jardim que ele se constrói. Não há jardim, se não houver aqueles que imaginam a sua beleza. O jardineiro sabe a necessidade do cuidado que deve ter para ver a beleza das flores. Ele sabe que regar todos os dias é parte do processo. O jardineiro também sabe que por mais que o jardim permaneça um longo período sem dar flores, ele ainda precisa continuar cuidando, porque as roseiras só florescem no seu tempo. Eles sabem que as primaveras preenchem o jardim de alegria e amor, mas também sabem que os invernos chegarão, e que nesse período é preciso ter ainda mais cuidado e sabedoria para que ao despertar de cada nova primavera o jardim esteja repleto de novos sorrisos e perfumes.

Os jardineiros sabem apreciar a beleza das rosas e sabem que com as rosas vêm os espinhos que elas carregam. Mas não temem os espinhos. Colhem as rosas sem medo dos arranhões que podem levar. E nós? Quantas vezes deixamos de colher as rosas porque pensamos somente nos espinhos? Quantas vezes nós deixamos de perceber e apreciar a beleza e a pureza das rosas porque só conseguimos ver os espinhos? Então eu desejo que vocês sejam jardineiros na arte da vida, que tenham paciência para esperar o tempo das coisas; que possam despertar a sensibilidade necessária para saber contemplar as belezas daquilo que é pequeno, sem manchar o olhar com as dificuldades. Desejo que a sua vida se torne um jardim de oportunidades para ser feliz... Que quando as primaveras desabrocharem as primeiras pétalas de rosas todos possam ser amantes da beleza, mas quando os dolorosos invernos apontarem nas colinas da alma, possam ser amantes da paciência e da perseverança.

O Jardim só nasce com a imaginação, mesmo! Sem ela não há jardim. Mas de que adianta olhar um terreno baldio e imaginar um jardim. Se não houver jardineiros com coragem de construí-los. Por isso, precisamos ter coragem de agir. De sairmos da condição de meros expectadores em direção ao protagonismo no palco das nossas emoções.

Para finalizar essa parte da mensagem gostaria de deixar algumas palavras do admirável Drummond e do saudoso Rubem Alves.

”Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim” (Carlos Drummond de Andrade)

“A saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que ela provou e aprovou. Aprovadas foram as experiências que deram alegria. O que valeu a pena está destinado à eternidade. A saudade é o rosto da eternidade refletido no rio do tempo." (Rubem Alves)

Drummond quis dizer que a ausência é transformada em saudade, e a saudade é despeertada das boas coisas e da boa convivência, e isso realmente ninguém tira de nós. E como Drummond, Rubem Alves eterniza a saudade.

Por fim escrevo as 10 lições mais importantes que aprendi com meu pai e que me ajudam e ajudarão a ser jardineiro e viajante, transformando meu caminho, lapidando meu destino.

10 LIÇÕES DE VIDA QUE APRENDI COM MEU PAI

(1) Uma das maiores lições é um clichê que todos conhecem: Não deixe para amanhã, o que você pode fazer hoje! Ele sempre me dizia isso. Mas eu descobri que não estava querendo falar de pagar uma conta ou estudar para uma prova. Um dia, mais distante do dia de hoje, iremos reclamar de coisas que não fizemos, que deveríamos ter brincado mais com nossos filhos, que deveríamos ter prestado mais atenção a aula do professor, que poderíamos ter sido mais compreensivo com a namorada que se foi, que deveria ter dito “eu te amo” para o meu pai ou a minha mãe, antes que eles morressem. Que poderíamos ter feito muito, se soubéssemos que a vida passaria tão rápido. Se soubermos que iremos morrer, ou que as pessoas queridas vão morrer talvez tenhamos mais cuidado e pressa para fazer aquilo que realmente importa. Com essa lição eu fiz o primeiro e único pedido daquela aula: "Não percam a chance de sair daqui, ir até o pai e a mãe de vocês, dar um grande abraço inesperado e dizer “eu te amo, obrigado por tudo que você fez para que eu chegasse até aqui".

(2) Tenha Fé. Ter Fé é acreditar. É conseguir ter esperança nos momentos mais difíceis, é a fé que não nos faz desistir e nos impulsiona para frente. A perseverança necessária no nosso caminho diário é fortalecida com a fé, por isso, nunca devemos deixar de acreditar.

(3) A humildade fertiliza tudo ao nosso redor! Com a humildade nós fertilizamos tudo ao nosso redor. A arrogância nos afasta, dilacera nossas possibilidades de compreender o outro e fazer o bem pelo outro. A humildade nos faz compreender que nunca sabemos demais, que admitir o não saber é o primeiro passo na busca pelo saber. Uma constatação importante é que todos os estudos sobre a felicidade vão nos dizer que pessoas que possuem boas relações com familiares, amigos e colegas de trabalho são mais felizes. E para manter boas relações, seja humilde. Seja reconhecido por aquilo que você é, não pelo que você tem. A humildade deve ser nossa maior referência.

(4) Vivemos numa sociedade em que cada vez mais as pessoas vivem com medo, medo de tudo. Mas o maior medo é de ser abandonado, de se sentir sozinha, de viver na solidão. As pessoas que se sentem sozinhas adoecem mais rápido, são mais infelizes. Mas a questão não a quantidade de pessoas que está ao nosso redor. Podemos nos sentir sós no meio de uma multidão, ou mesmo em casa com seu marido ou esposa. O que importa é a qualidade. Existem pessoas que representam uma multidão para nós. É delas que precisamos, pois ali está a qualidade que precisamos.

(5) Ame o que você tem. Reclamar só fertiliza nossa miséria emocional. Agradeça, sempre. Agradecer é insumo básico da felicidade. Adquirimos o péssimo hábito de achar que muito do que temos não vale mais a pena, ou que existe coisa melhor no mercado. Nossa espirito consumista só nos faz querer algo que não temos, e na busca pelo que não temos questionamos tudo que temos. Abandone a prática de reclamar! Valorize o que você tem.

(6) A vida requer cuidado, os amores também. Quem quiser levar a rosa para sua vida, tem que saber que com ela vão inúmeros espinhos. Infelizmente cada vez vemos pessoas reclamando do amor, das relações, da afetividade. Nós queremos tudo pronto e não sabemos mais nos relacionar. O que de fato precisamos é ser jardineiros nos jardins do amor. Saber que os cuidados e a compreensão são necessários. É impossível levar uma relação saudável sem os necessários cuidados. É preciso ser sábio para amar!

(7) Tenha coragem de viver a cultura do desafio. Supere você mesmo os desafios que a vida lhes colocar. Muitos se prostram diante das pedras que achamos nos caminho. Mas cada um de nós vê a pedra de uma maneira. Davi, com uma pedra, matou Golias. Michelangelo fez uma bela escultura, um grupo de meninos com a pedra fez brincadeira, o pedreiro usou-a na construção. Em nenhum dos casos a diferença esteve na pedra, mas sim no homem. É isso que devemos aprender. É a forma como encaramos os desafios e os enfrentamos que decide o que faremos diante das pedras.

(8) Não deixe nunca de fazer planos para amanhã. Tenha coragem de ter esperança mesmo que você esteja na UTI da vida. A pessoa só se envelhece, ou só se entrega, quando os lamentos substituem os sonhos. Quando fazemos planos vemos um sentido na vida; é esse sentido que nos faz buscar o novo, a sonhar e lutar pela vida.

(9) Aprenda a colocar os pontos corretos no livro da sua vida. Exclamação, interrogação e o ponto final são essenciais à construção de laços sadios e de histórias completas e felizes. Por falta de coragem de colocar um ponto final muitos de nós podemos carregar por uma vida inteira uma história que nos machuca.

(10) Não ocupe o seu coração com magoas. A maioria de nós tem o grande defeito de levar consigo as aflições inerentes a tudo que sofremos, a tudo que nos fizeram. Tolos são os que ocupam o seu coração com ressentimento, com magoas e com rancor. Um coração cheio de ódio e mágoas não pode amar. Liberte-se das magoas, promova o perdão; viva com o coração livre. Somente assim estaremos livres para amar, livres para receber amor.

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