Outro dia, numa dessas conversas de botequim, entre um gole de cerveja e outro, o assunto deixou de ser futebol e passou para a economia. Um amigo comentou, com certa indignação, sobre a quantidade de empresas que estariam quebrando no Brasil. Outro, sem hesitar, apresentou o diagnóstico: “Também, com esse governo, não poderia ser diferente”.
A conversa seguiu. Vieram os impostos, os juros, as dificuldades dos empresários e aquela sensação de que empreender no Brasil se tornou uma missão quase impossível. Em poucos minutos, o problema estava explicado. E o culpado, devidamente identificado.
Confesso que aquilo me provocou certo desconforto.
Não por acreditar que o governo esteja isento de responsabilidades. Longe disso. Mas porque poucas coisas me inquietam tanto quanto a facilidade com que transformamos problemas complexos em explicações simples.
Como administrador e professor, senti aquela conhecida vontade de fazer algumas perguntas. Mas convenhamos: ninguém vai ao botequim para assistir a uma aula de Administração. Muito menos para participar de uma edição improvisada do Roda Viva. Resolvi ouvir um pouco mais.
E fiquei pensando: será que as empresas brasileiras estão, de fato, quebrando como se anuncia? Ou estamos confundindo acontecimentos particulares com o comportamento de toda uma economia?
Há uma diferença considerável entre uma empresa encerrar suas atividades, enfrentar dificuldades financeiras e recorrer à recuperação judicial. São situações distintas, embora frequentemente apareçam nas conversas como se fossem a mesma coisa. Uma empresa pode atravessar uma crise e continuar operando. Outra pode encerrar uma unidade sem deixar de existir. E há aquelas que, simplesmente, deixam de encontrar condições para permanecer no mercado.
Mas existe algo curioso na maneira como enxergamos esses acontecimentos. O fechamento de uma empresa conhecida vira notícia, desperta preocupação e alimenta discussões. Já o surgimento de novos negócios, a adaptação de organizações e a continuidade de milhares de atividades econômicas dificilmente provocam o mesmo entusiasmo.
Talvez porque o fracasso faça mais barulho do que a rotina de quem continua trabalhando.
Ocorre que empresas não vivem apenas de conjuntura econômica. Vivem também de decisões.
Em uma das minhas aulas de Administração, costumo explicar aos alunos que nenhuma organização funciona isolada da realidade que a cerca. Existem fatores externos, que não dependem diretamente da vontade do empresário, e fatores internos, relacionados à maneira como o negócio é administrado. Na nossa área, utilizamos ferramentas como a análise PESTEL e a matriz FOFA para compreender essa relação.
Parece uma observação simples. E é. Mas talvez seja justamente por isso que mereça tanta atenção.
Imagine dois comerciantes de uma mesma rua. Ambos enfrentam o aumento dos custos, a concorrência, as mudanças no comportamento dos consumidores e as mesmas condições gerais da economia. Um acompanha suas contas, conhece suas margens, planeja suas compras e procura adaptar o negócio. O outro mistura as finanças pessoais com as da empresa, assume compromissos sem avaliar sua capacidade de pagamento e acredita que vender mais será suficiente para resolver qualquer problema.
O ambiente externo é semelhante. As decisões, nem tanto.
Isso significa que o primeiro necessariamente prosperará e o segundo fechará as portas? Evidentemente que não. A economia não funciona como uma receita de bolo. Mesmo uma empresa bem administrada pode sucumbir a circunstâncias adversas. Mas seria razoável ignorar completamente a maneira como cada uma foi conduzida?
É aqui que a conversa fica interessante.
Uma empresa pode faturar muito e lucrar pouco. Pode crescer enquanto compromete sua capacidade financeira. Pode apresentar bons resultados no papel e, ainda assim, não ter dinheiro para honrar seus compromissos. Pode investir em expansão quando deveria fortalecer sua estrutura. Ou insistir em um modelo de negócios que o consumidor já começou a abandonar.
Nada disso aparece necessariamente na manchete que anuncia sua crise.
É claro que os juros importam. E muito. O custo do crédito influencia investimentos, compromete margens e pode agravar situações de endividamento. A tributação, a infraestrutura, a renda das famílias e as decisões de política econômica também interferem na atividade empresarial.
Ignorar essas relações seria desconhecer como funciona uma economia. O mercado não existe apartado do Estado, assim como a atividade produtiva não pode ser compreendida sem considerar o sistema financeiro, o consumo e as condições de investimento.
Mas reconhecer tudo isso não nos autoriza a atribuir ao governo cada decisão equivocada tomada dentro de uma empresa.
E há uma contradição nessa história que merece atenção.
Quando um negócio prospera, costumamos ouvir elogios à visão de seus fundadores, à coragem de empreender e à competência de seus administradores. O sucesso é apresentado como resultado de escolhas inteligentes. Entretanto, quando a situação se inverte, não é raro que a administração desapareça da narrativa e toda a responsabilidade seja transferida ao ambiente econômico.
Ora, se as decisões dos gestores importam quando uma empresa cresce, por que deixariam de importar quando ela enfrenta dificuldades?
Não se trata de culpar empresários por suas crises, muito menos de transformar o governo em espectador inocente. Trata-se de reconhecer que responsabilidades diferentes podem coexistir. A política econômica estabelece condições que favorecem ou dificultam a atividade produtiva. A administração, por sua vez, decide como a organização se posiciona, utiliza seus recursos e responde aos riscos desse ambiente.
Uma coisa não elimina a outra.
Aliás, talvez seja esse o grande problema das discussões econômicas que começam com uma conclusão pronta: perdemos a oportunidade de fazer perguntas melhores.
Por que determinadas empresas assumem dívidas que não conseguem sustentar? Por que algumas demoram a perceber transformações no mercado? Como decisões de investimento, problemas de governança e ausência de planejamento contribuem para situações de crise? E em quais circunstâncias as condições econômicas tornam inviável até mesmo um negócio bem administrado?
Essas perguntas não oferecem respostas tão rápidas quanto apontar um culpado. Mas nos aproximam de uma compreensão mais séria do problema.
Naquela conversa, preferi não transformar o encontro em um debate. Afinal, o propósito daquela noite era encontrar amigos, não disputar argumentos econômicos.
Mas saí dali com uma reflexão que considero importante.
O Brasil precisa de um ambiente favorável à produção, ao investimento e à geração de empregos. Precisa de políticas econômicas responsáveis, crédito em condições adequadas e instituições que ofereçam segurança para quem empreende. Mas também precisa de organizações que compreendam que administrar não é apenas aproveitar oportunidades quando o mercado está favorável. É planejar, antecipar riscos, reconhecer limites e assumir responsabilidades pelas escolhas realizadas.
Talvez algumas empresas estejam enfrentando dificuldades por problemas externos. Outras, por decisões internas. Outras, provavelmente, pela combinação dos dois.
E é justamente essa combinação que torna o assunto mais complexo — e mais interessante — do que parece.
No fim das contas, talvez o maior problema não seja discordarmos sobre quem é o culpado. É acreditarmos que uma pergunta tão complexa possa ter apenas uma resposta.








Bruno Perin
Alessandro Almeida
Aline Rizzo
Marco Antonio Spinelli

Janguiê Diniz

Raquel Torres
Armando Lourenzo
Daniela Viek








