O paradoxo Apple

Schumpter, Quem comeu o meu queijo Texto 100% de Carllen Hawn

O paradoxo da Apple.

Por: Carllen Hawn para a Exame de 3 de Fevereiro de 2004.

Como uma empresa tão criativa consegue ficar fora dos mercados que ela própria cria?

"Se você não conseguir embalar a inovação numa proposta de valor convincente, com uma estratégia de distribuição dinâmica e preços atraentes, ela não valerá grande coisa".

Hamel.

"Na prática, isso significa apoiar a inovação com um esquema de vendas sólidas, com uma estratégia de colaboração com desenvolvedores e fabricantes de produtos complementares e com uma boa estratégia de serviços para o consumidor".

Howard Anderson.

T

odo mundo sabe que os parisienses são esnobes. Assim, não deve ter sido surpreendente que uma surpresa que um estadunidense de meia-idade, com barba a fazer, falando inglês e vestindo jeans com barra dobrada, tênis e uma camiseta preta gasta, tenha sido rudemente barrado numa comemoração requintada no Musée d'Orsay, em Paris, no dia 16 de setembro de 2003. Exceto por dois fatos: o homem era Steve Jobs, co-fundador e principal executivo da Apple Computer. E a festa era dele

Foi uma festa de arromba. Por 3 horas, os convidados da Apple Computer beliscaram canapés de foie gras e atum e bebericaram champanhe enquanto flanavam sob uma galeria de vidro imponente que abriga uma das maiores coleções de mestres impressionistas, escultoras de Rodim e mobília art nouveau do mundo. Num salão barroco, no outro extremo do museu, tocava uma estridente banda de jazz. Como um convidado entrou, observando a cena: "Isso é grandioso". Grandioso – mas, ao que parece, não o bastante para dar espaço a Jobs. Porém, se o patrão ficou irritado ao ser tratado como um qualquer, não deixou transparecer. Juntamente com seu séqüito de executivos vestidos de terno, Jobs retirou-se rápido para um bar num andar interior, e a festa, que comemorava o 20º aniversário do grande evento comercial europeu da Apple, a Apple Expo, prosseguiu sem maiores incidentes. Talvez "Bad Steve" tenha amaciado um pouco aos 48 anos de idade.

Ou talvez tenha apenas se acostumado a ser posto para fora de suas próprias festas. Pode-se dizer que a própria indústria de computadores pessoais começou como uma festança da Apple, quando a empresa de Cupertino, na Califórnia, apresentou o Apple II, em 1977. Desde então, ela tem desempenhado o papel de anfitrião generoso, temperando o mercado com uma iguaria atrás da outra. Depois do computador pessoal, a Apple serviu muito dos pratos que o usuário de computador hoje encararia como corriqueiros incluindo a interface gráfica, a impressão a Laser e o monitor colorido. E, no entanto, a Apple tem sido forçada a assistir às celebrações pela janela: hoje, mais de 25 anos depois de sua fundação, controla apenas 2% dos 180 bilhões de dólares do mercado mundial de PCs.

Quase todos concordam que os produtos da Apple não são apenas pioneiros, mas também os mais fáceis de usar, freqüentemente os mais poderosos e sempre mais elegantes que os de seus rivais. E, no entanto, esses rivais seguiram as idéias criativas da Apple e abocanharam os lucros e a produção em massa que continuamente escapam às mãos da empresa criada por Jobs. O que nos leva a uma pergunta inevitável: se a Apple é realmente o cérebro da indústria com produtos melhores que os da Microsoft, da Dell, da IBM – por que ela é uma empresa tão pequena? (Nos últimos dez anos, a Apple obteve 1300 patentes, quase uma vez e meia o número da Dell, e metade do da Microsoft que ganha 145 vezes mais dinheiro).

A Criatividade é o Enigma : Há anos a Apple é tida como vítima de um único e enorme erro estratégico: a decisão, nos anos 1970, de não licenciar seu sistema operacional. Mas isso foi há muito tempo, e a criatividade da empresa deu a ela diversas oportunidades de compensar o erro inicial. O problema é que, na maioria das vezes, a Apple ficou paralisada, por problemas que vão além de erros estratégicos individuais. Jobs pode, sem querer, ter apontado para o que está errado naquele dia em Paris. De cima do palco, em seu discurso de abertura, ele berrou: "Inovar – é isso que nós fazemos". Bem. ele está certo – e esse é o problema. Ao longo da sua existência, a Apple se dedicou obsessivamente, religiosamente, à inovação. Mas o que pode haver de errado nisso? Afinal, nós veneramos a inovação como um bem corporativo absoluto, ao lado de coisas como o trabalho em equipe e a liderança. Mais ainda, a inovação é vista como sinônimo de crescimento. Há décadas economistas políticos dão a ela uma enorme importância. A inovação está, por exemplo, no coração da destruição criadora de Schumpeter. Mais recentemente, um sem-número de estudos e livros sobre negócios de autores como Tom Peters, Peter Drucker, Ríchard Foster e Clayton Christensen – apresentaram-na como o elemento crítico para o sucesso. Ela é o coração da excelência, a raiz do espírito empreendedor, o novo imperativo. É a explosão, o dilema e a solução.

Acontece que é difícil olhar para a Apple sem questionar se a inovação está mesmo com essa bola toda - e a Apple nem é o único caso que nos leva a questionar o poder da inovação. Muitas das instituições mais inovadoras do mundo corporativo estadunidense foram fracassos colossais. O centro de pesquisa da Xerox Pare, em Palo Alto, que deu ao mundo a impressora a Laser e os primórdios da interface gráfica, é notório por nunca ter dado dinheiro. A Polaroid, que trouxe ao mundo a imagem instantânea décadas antes da fotografia digital, entrou em colapso por má gestão. A explosão da Internet nos anos 1980 hoje é vista como um ralo por onde escoou muita inovação sem valor. E a Enron poderia ser definida como a empresa que mais inovou em finanças. Em outras palavras, nem toda inovação é igual. Mais ainda, nem toda inovação é boa.

O paradoxo da Apple é ainda mais perturbador. As inovações da empresa não foram falha – comerciais, como as da Xerox Pare, não foram substituíveis, como a da Polaroid, não foram frívolas, como as da nova economia, e não foram destrutivas, como a da Enron. As inovações da Apple têm sido poderosas, bem-sucedidas, úteis, bacanas. Desde os seus primórdios, a empresa tem sido, de longe, a mais inovadora no seu ramo – e, tranqüilamente, uma das mais inovadoras em todo o mundo empresarial. Jobs tinha razão em estar orgulhoso enquanto falava a uma platéia de 3 700 pessoas no Palais des Congres em setembro. Ele exultava com os detalhes dos numerosos lançamentos Apple em 2003. Os principais eram o novo Desktop G5, o primeiro computador de 64 bits, um novo sistema operacional chamado Panther, um laptop de 15 polegadas com um teclado que brilha no escuro e o primeiro mouse sem fio da empresa. E, como se isso não bastasse, Jobs lembrou a multidão sobre a estréia mais importante do ano, a loja de m&

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    Mori Itiro

    Bacharel em Economia pela Univ. Mackenzie,...

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