Zonas de Exclusão Digital
Zonas de Exclusão Digital

Zonas de Exclusão Digital

(Datiloscrito encontrado na pasta do ativista anticibernético Zenave Jáfoz, hoje em exposição no Museu de Tecnologia de Manaus)

10 maio 2013

Isso não é testamento, desabafo ou carta de despedida, apenas uma mensagem para gente do futuro.

A vida virtual teve sua parcela de culpa no atual mal estar da civilização, não porque imitaria a vida, exatamente pelo contrário. Poderia ter sido a revolução na educação, mas, na prática, especialmente sob as redes sociais, tornou-se apenas o espelho da ilusão, o narcisismo absoluto. Claro que reconheço que tinha potencial, mas a educação de qualidade deveria preceder a criação de instrumentos tão poderosos.

Do jeito que esteve formatada nos últimos anos a onda digital deixou sequelas, restringiu perspectivas e tolheu habilidades. Potencial que teríamos alguma chance de ter desenvolvido se ainda tivéssemos acesso a uma vida lúdica fora do mundo cibernético.

Parece contraditório mas não é. O cárcere psicológico criado pelo vício da web transformou nossas vidas num falso playground. Baudelaire nomeou o mundo que fica fora do mundo de paraísos artificiais. A globalização do mundo virtual tornou-se uma epidemia pior, de proporcões mundiais. Depois que a rede rostodig se associou aos governos, a informação privada se tornou propriedade dos governos. Foi quase um efeito colateral, um bônus inesperado que essa mania tenha ajudado os Estados a melhor controlar politicamente as pessoas.

O resultado prático é que estamos todos fichados.

Mas talvez isso nem seja mesmo o pior. A substituição de vivências reais pela sensação de que a vida e os relacionamentos podem ser manejados via wi-fi, falsificou a experiência vital.

Os centros de tratamento “para educar usuários a usar a rede com parcimônia” começaram a aparecer em 2015. Em 2016 estavam já espalhados pelo mundo. Fui internado em vários webcômios e escapei de todos. No último, de segurança máxima, depois de passar dias à fio sendo obrigado por instrutores humanos que falavam como robos a navegar — fiquei limpo por quase dois anos – e também forçado a enviar milhares de mensagens inúteis. Fora ter que voltar a preencher meio milhão de vezes aquela ficha ridícula “o que você está pensando”. Juro, cheguei a imaginar que eles tinham razão. Para que lutar contra a massa? Sim, devíamos viver dia e noite num mundo idealizado e apartados da realidade. Era isso ou os antidepressivos. Na verdade, para a maioria, os dois juntos. Sim, havia o vazio, a falta do contato físico. E daí? Para que se aborrecer com mazelas sociais, a realidade e a chatice do quotidiano?

Depois de uma noite sem ver aquela maldita tela, o velho bibliotecário preso na ala norte, Quino Barra, me arrastou para sua sala de refúgio e me fez acordar do pesadelo com leituras de livros físicos clandestinos que escondia na sala de máquinas descartadas.

Dias depois, eu e mais três pessoas, refuses como eu, escapamos para a única zona de exclusão digital que sobrou no hemisfério sul, a 45 kilometros a noroeste da cidade de Manaus. (simbolos ininteligiveis – sinais criptografados?)

Hoje, 3 de fevereiro de 2017, e ainda vemos várias gerações completamente à merce dessa tecnoadição. Ninguém se ocupa do perigo político que isso representa. Só lucram os de sempre: donos dos megaoligopólios que detém as ações das redes sociais.

O número de internados neste vício tão incurável quanto o jogo é perturbador. Não divulgam, mas pode chegar a quase um bilhão. Podemos fazer muito pouco. Nosso trabalho fica limitado a alertar pessoas.

No lugar de mais inclusão, precisamos espalhar zonas de exclusão digital.

Lutarei…

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. Mestre e PhD em ciências, é pós-doutor em medicina preventiva (USP). É autor de "A Verdade Lançada ao Solo" (editora Record). Tem uma coluna semanal em "Coisas de Política", do Jornal do Brasil

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