Café com ADM
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Prejuízo é um detalhe?

Ações em queda de 75% e perdas que se acumulam, Marcus Elias, controlador da Parmalat, tenta convencer os investidores de que conhece a saída para a crise

Há pouco mais de dois anos, o paulistano Marcus Elias surgiu na cena empresarial brasileira fazendo barulho. Até então desconhecido do grande público, Elias comprou em 2006 o controle da combalida operação brasileira da Parmalat e ganhou uma súbita notoriedade. Com a coroa de rei do leite na cabeça, demonstrou uma invejável autoconfiança. “Jamais conheci o fracasso”, disse ele na época. “Todas as nossas tacadas foram certeiras, e isso vai se repetir com a Parmalat.” No ano seguinte, Elias continuou gerando notícias. Sob seu comando, a Parmalat deu início a uma série de aquisições e a um elogiado projeto para melhorar a qualidade da produção leiteira no país. Recentemente, porém, a maré virou. A Laep, empresa que controla a Parmalat, acumulou prejuízo de cerca de 100 milhões de reais nos dois trimestres seguintes à abertura de capital. Em junho, o banco de investimento UBS Pactual rebaixou o preço-alvo de suas ações de 11,50 para 4 reais — queda de 65%. No mesmo mês, a rede de supermercados Pão de Açúcar teve de devolver 30 000 litros de leite da Parmalat. O produto apresentava problemas de qualidade. Finalmente, segundo EXAME apurou, a Laep está sob investigação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão que regula o mercado de capitais. O dinheiro levantado pela Laep em sua abertura de capital — quase meio bilhão de reais — foi usado para um fim diferente do prometido aos investidores. A CVM suspeita que a empresa tenha agido de má-fé.

O principal termômetro para avaliar o nível dos problemas enfrentados por uma empresa aberta é o valor de suas ações na bolsa. No caso da Parmalat, esse indicador mostra que os desafios da companhia são efetivamente superlativos. O valor de mercado da Laep caiu 75% desde o começo do ano, o que coloca a empresa na lista de piores negócios do ano na bolsa. No cerne da queda estão a divergência entre os planos da companhia antes da ida à bolsa e os passos que Marcus Elias tomou após a abertura de capital — ou IPO, na sigla em inglês. É justamente isso que a CVM quer investigar, aliás. Nesse quesito, são duas as reclamações dos investidores. A primeira é o destino do dinheiro levantado. Quando uma companhia vai à bolsa, vende ao mercado um plano detalhado do que fará com os recursos. Segui-lo é quase uma obrigação. Não foi o que fez a Laep. A empresa prometeu que investiria 60% do dinheiro na Integralat, projeto apresentado por Elias para integrar a cadeia produtiva do leite. A possibilidade de profissionalizar o setor mais arcaico do agronegócio brasileiro foi o grande chamariz das apresentações da empresa aos investidores. Elias apostaria, então, num programa de melhoramento genético do gado brasileiro para aumentar a produtividade das vacas. O problema é que, passado o IPO, apenas 80 milhões de reais, menos de 30% do que havia sido previsto no prospecto, foram destinados à Integralat. O resto foi usado, basicamente, em aquisições e como capital de giro. Além da mudança abrupta de planos, a estratégia foi considerada equivocada pelos analistas. Segundo um relatório do UBS Pactual, a seqüência de compras deixou o caixa da Parmalat esvaziado, um risco num momento de crise no mercado de leite — em que o aumento do preço ao produtor não foi repassado ao varejo. “A empresa não deixou nenhuma reserva para os dias ruins”, escreveram os analistas.


Além de acusarem Marcus Elias de descumprir o combinado quanto ao uso do dinheiro da abertura de capital, alguns investidores se ressentem de outra mudança de planos. Durante o processo de preparação para o IPO, a empresa havia informado que mudaria sua estrutura de capital em poucos meses. A Laep adotou um modelo conhecido como BDR, em que a companhia tem sede num paraíso fiscal e negocia suas ações no Brasil. Esse modelo traz pouca segurança para os investidores. Passados seis meses desde a abertura de capital, nada aconteceu. “Esse foi um compromisso ignorado pela empresa”, diz Aquico Wen, diretor do fundo de investimento americano Legg Mason. “Vai ficar difícil acreditar no que eles prometem a partir de agora.” No início de julho, a administração da empresa informou que ainda estuda a possibilidade de alterar sua estrutura.

Para Marcus Elias, o descrédito generalizado do mercado não se justifica. Entrevistado por EXAME, ele afirmou que os prejuízos dos dois trimestres seguintes ao IPO não são um problema grave. “O mercado não vê nosso prejuízo com maus olhos”, diz Elias. “Carregamos o prejuízo acumulado da Parmalat no Brasil.” Há duas semanas, Elias tentou convencer seus investidores de que, mesmo sem gerar caixa, a empresa não deixará de pagar seus compromissos. Já para continuar a financiar a Integralat, a empresa pretende agir em duas frentes. A primeira é pleitear um empréstimo do BNDES. A segunda é procurar um sócio, possibilidade que, até agora, não era cogitada pela empresa. Elias rebate, também, as queixas quanto à estratégia de uso do dinheiro do IPO. “Diante do aumento de preços, investir na compra de vacas para a Integralat seria jogar dinheiro fora.” Segundo ele, fazer aquisições foi a melhor estratégia, já que os preços das empresas adquiridas estavam baixos. “Não entendo a desvalorização excessiva das ações nem todo o falatório em relação a isso”, diz Elias.
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