Por que você precisa se tornar um professor-empreendedor?
Por que você precisa se tornar um professor-empreendedor?

Por que você precisa se tornar um professor-empreendedor?

A profissão de professor é mais uma fadada à extinção? A resposta é, ao mesmo tempo, sim e não

20 fevereiro 2019

Desvalorização da carreira, baixos salários, carga horária intensa e acúmulo de problemas de saúde são relatos comuns entre nossos educadores. Uma pesquisa online realizada pela Associação Nova Escola com mais de cinco mil professores, entre os meses de junho e julho de 2018, identificou que 66% destes profissionais já precisaram se afastar do trabalho por questões de saúde.

O levantamento também mostrou que 87% dos participantes acreditam que seus problemas são ocasionados ou intensificados pelo trabalho. Tudo isso acaba colaborando para que apenas 2,4% dos jovens brasileiros de até 15 anos sonhem com esta carreira, segundo o relatório “Políticas Eficientes para Professores”, divulgado em junho de 2018 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Há dez anos, esse percentual era de 7,5%.

Este cenário nos leva a uma reflexão: a profissão de professor é mais uma fadada à extinção? A resposta é, ao mesmo tempo, sim e não.

O professor como conhecemos hoje, exclusivamente atrelado a uma instituição de ensino, aos poucos dará espaço a um profissional capaz de preencher a lacuna existente entre o docente tradicional, o administrador e o formulador de políticas educacionais. Estamos falando do chamado teacherpreneur, ou professor-empreendedor em tradução livre. Afirmo isto diante da realidade de que, apesar dos avanços tecnológicos, a maioria das escolas conta com uma hierarquia que separa as pessoas que criam políticas educacionais (administradores) daquelas que realmente entregam a educação (professores).

Essa história de compartimentalização muda com o professor-empreendedor, que além de estar no dia a dia no ambiente escolar, sai da sala de aula para interagir com múltiplos domínios da educação. Assim, em termos gerais, um professor-empreendedor envolve-se na liderança educacional, escreve seus próprios currículos, pesquisa metodologias educacionais, aprende a usar diferentes tecnologias, cria cursos próprios e os vende ou disponibiliza gratuitamente em plataformas digitais, educa outros professores e até trabalha para reformar as políticas educacionais oficiais.

Esse novo educador tem como característica fundir a imagem do professor inovador com a liderança empreendedora que assume riscos para criar seu próprio lugar no mundo profissional. São pessoas empenhadas em criar uma cultura de criatividade e reflexão na sala de aula, mas que também pensam suas ações para além deste espaço, pois têm consciência de que o aprendizado e lições valiosas não devem ficar restritos aos bancos escolares.

A possibilidade de se tornar um professor-empreendedor pode ser uma das soluções para reverter o crescente desinteresse pela carreira e conter o êxodo para o mundo administrativo, movimento geralmente resultante de salários pouco competitivos, dificuldades em lidar com os alunos e até mesmo o esgotamento físico e mental que muitos alegam ao deixar a educação. É um caminho possível para ajudar aqueles professores talentosos e dedicados a permanecerem entusiasmados com sua profissão e a compartilharem suas melhores práticas. A chave aqui é que o educador crie uma maneira diferente de navegar na profissão sem abandoná-la ou perder a vontade de ensinar.

Mas o que os teacherpreneurs estão produzindo agora?

Como exemplo de professores-empreendedores, podemos nos pautar por vários cases de sucesso, tanto no exterior como aqui mesmo no Brasil. São educadores que resolveram criar seu próprio produto ou serviço para solucionar problemas que eles ou seus colegas encontraram na sala de aula, desenvolvendo soluções criativas para educação.

Este é o caso do professor de História de uma escola pública localizada no Bronx, Charles Best, que fundou o site DonorsChoose.org, uma plataforma de financiamento coletivo de projetos escolares direcionados à rede pública norte-americana. Em 2000, Charles Best propôs que seus alunos lessem “Little House on the Prairie”. Enquanto fazia fotocópias do único livro disponível na escola, pensou em todo o dinheiro que ele e seus colegas gastavam em livros e materiais de apoio para lecionar. Foi então que ele imaginou que talvez houvesse pessoas que gostariam de colaborar com projetos educacionais, desde que pudessem acompanhar para onde seu dinheiro estava indo.

Best esboçou um site onde os professores poderiam postar solicitações de projetos de sala de aula e os doadores poderiam escolher os que desejariam apoiar. Seus colegas postaram os primeiros onze pedidos. Hoje, a plataforma é utilizada em todo Estados Unidos. Quando o projeto atinge a meta de doações em dinheiro, a organização do DonorsChoose entrega os materiais necessários – que vão desde livros e giz de cera até microscópios e equipamentos esportivos – e envia para os doadores um extrato detalhado indicando como cada dólar foi utilizado.

Aqui no Brasil, temos o exemplo de Leila Adriano Ostoyke, idealizadora da Escola de Professores do Futuro, plataforma que disponibiliza cursos online justamente para educadores que desejam vender seus próprios cursos. Professora há mais de duas décadas, com dez anos de atuação em educação a distância, Leila defende que o uso de novas tecnologias rompe barreiras geográficas e temporais, ajuda a democratizar o conhecimento e cria inúmeras possibilidades de negócios.

Outro ótimo exemplo é o do professor de inglês Mairo Vergara. Em seu site, ele se descreve como entusiasta do ensino de idiomas estrangeiros e propõe o uso de métodos e técnicas completamente diferentes dos tradicionais, buscando levar aos alunos formas de aprendizado mais efetivas possíveis. Vergara desenvolveu um método próprio do ensino de inglês, criou um curso online que leva seu nome e já atendeu cerca de 40 mil alunos desde que começou, em 2014. O número impressiona e é maior do que o de muita escola tradicional. Embora o curso seja pago, Vergara é bastante conhecido nas redes sociais pelo conteúdo grátis que disponibiliza, o que inclui um e-book que já foi baixado por mais de 254 mil pessoas, enquanto sua página, no Facebook, conta com mais de dois milhões de seguidores.

Mairo Vergara fundador de curso de inglês que leva seu nome e sucesso na internet com suas dicas para aprender o idioma

Como se tornar um professor-empreendedor?

Os exemplos mostram o quanto os professores-empreendedores têm a oportunidade de afetar a política educacional, impactando a sociedade e gerando inovação no ensino, sem estarem necessariamente atrelados a uma instituição ou sala de aula convencional. Eles geram renovação e entusiasmo, além de experiências mais eficazes e enriquecedoras para todo o sistema educacional. Em certo sentido, eles dão um passo adiante para alcançar um estado de aprendizado mais engajado e simplificado.

Não há dúvidas de que a educação cada dia mais será impactada pelas novas tecnologias, que acabam quebrando paradigmas – aulas virtuais e a distância, avaliações que não se restringem a aplicar um teste de conhecimentos, gamificação do aprendizado etc. O novo educador vem nesta esteira de grandes mudanças ao não se limitar a dar aulas e formar profissionais. Ele também está em busca de soluções que melhorem a área e proporcionem novas experiências de aprendizado a partir de todas estas mudanças e possibilidades de geração de renda.

Para quem deseja, então, tornar-se um professor empreendedor, aqui vão cinco características essenciais:

· Interesse por tecnologia: há muitos professores que resistem às novas tecnologias, mas são elas que, direta ou indiretamente, estão gerando inovação em sala de aula. Há cursos online pagos e gratuitos, vídeos, e-books, materiais que podem te ajudar nesta missão. Se familiarizar com as tecnologias vai trazer benefícios para você e para o seu trabalho junto aos alunos. No Instituto Crescer oferecemos gratuitamente para download os Guias Crescer em Rede, que apoiam a formação continuada de professores para adoção de tecnologias digitais no contexto educacional.

· Seja colaborativo: além de aprender a fazer uso das ferramentas online, é preciso estar atento ao fato de que a tecnologia pode trazer benefícios não apenas para o seu conteúdo, mas para a educação propriamente dita. Ser colaborativo é uma das características fundamentais para manter aceso o espírito empreendedor.

· Fique atento às novas tendências: professores-empreendedores estão sempre de olho em novas tendências e abertos às novidades. Eles conhecem a área que atuam, seguem os principais nomes e meios de divulgação e não perdem a oportunidade de colocar em prática as novidades que chegam nas suas mãos.

· Adapte-se: o professor-empreendedor não apenas testa novas ferramentas e abordagens, como tem a capacidade de adaptá-las às necessidades de seu cotidiano e à realidade de seus alunos. Padronizar práticas é um antigo modelo de ensino-aprendizagem. É preciso reconhecer um bom método e aplicá-lo a partir do conhecimento existente sobre os alunos e a comunidade na qual estão inseridos.

· Aprenda sempre: correndo o risco de ser repetitiva, friso que se colocar como alguém consciente de que há sempre algo novo a aprender é fundamental para continuar se desenvolvendo na carreira. É possível traçar um plano de estudos e buscar cursos online gratuitos sobre os temas de seu interesse. Visite sites de escolas e instituições de referência, brasileiras ou estrangeiras, para saber o que estão fazendo. Leia entrevistas, ouça podcasts. Tudo isso ajuda.

Abrir-se para a possibilidade de se transformar num professor-empreendedor é importante porque traz um novo olhar sobre o ensino-aprendizado e sobre suas próprias possibilidades como educador e pessoa. A profissão de professor não vai acabar, mas vai se transformar profundamente. É importante se perguntar se você quer acompanhar esta mudança ou não. Pelo que já estamos vendo, será uma ótima jornada. Você não vai querer ficar fora desta, vai?

Luciana Allan Diretora do Instituto Crescer e Doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) com especialização em tecnologias digitais aplicadas à educação.

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