O que as empresas e as universidades brasileiras podem aprender com o MIT?
O que as empresas e as universidades brasileiras podem aprender com o MIT?

O que as empresas e as universidades brasileiras podem aprender com o MIT?

Programa de intercâmbio de universidade norte-americana traz expertise e consultoria em projetos de alto impacto para empresas nacionais

No ano 2000, sobre as cinzas das dotcom pós-bolha, estudantes e professores do Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT) deram início a um projeto para auxiliar startups em mercados promissores – entre eles o Brasil – a implementar soluções em diversas áreas. Nesse processo, estudantes da Sloan School of Management estabelecem contato com empresas e experimentam um período auxiliando na implantação e execução de projetos, durante um choque criativo de culturas que gera resultados, experiência, conhecimento e desperta a curiosidade em todos os envolvidos.

O Global Entrepreneurship Lab (G-Lab) consiste em um projeto interdisciplinar que transforma o cotidiano das empresas de países da América Latina, Ásia, Oriente Médio e África em laboratório para os estudantes. "O curso mistura análises de macroeconomia regional e questões atuais de empreendedorismo com instruções funcionais e específicas para ajudar as equipes em direcionar o escopo dos projetos, como a entrada em novos mercados, estratégia, marketing ou recursos humanos", afirma Trond Arne Undheim, professor de economia global e gestão na MIT Sloan School of Management.

Como funciona

A empresa que irá sediar o projeto envia o perfil dos estudantes que precisa e em qual área eles devem atuar. Os jovens consultores atuam em questões específicas dentro da startup para encontrar soluções e implementá-las de forma concreta, rápida e eficiente.

Após a aprovação, empresas e estudantes interagem durante três meses por teleconferência, onde são detalhados os problemas e propostas metodologias e soluções. No quarto mês, os estudantes são enviados para a sede da startup, onde farão uma imersão não só profissional como também cultural. Mas a vantagem não é só a consultoria de qualidade: é uma porta que permanece aberta para projetos futuros.

Para participar, as Host Companies (HCs) – empresas que irão receber o apoio – submetem questionários online que ficam disponíveis entre julho e setembro, nos quais irão descrever as dificuldades ao implementar soluções e como gostariam que a equipe do G-Lab trabalhe. Também é necessário descrever o potencial e as habilidades da empresa e sua expertise.

Em outubro, os professores do G-Lab selecionam as companhias e escolhem as equipes mais adequadas para cada caso. Entre novembro e dezembro, tem início o projeto, com a finalização do escopo e pesquisas iniciais, entrevistas e análises.

Cases

Em 12 anos de funcionamento, o projeto já atendeu cerca de 300 startups de diversos setores – desde saúde até educação –, algumas delas no Brasil. É o caso da mineira SambaTech, empresa de logística online de vídeos – espécie de "YouTube para empresas", como define Pedro Filizzola, gerente de marketing da companhia. A empresa, fundada em 2004, é a parceira mais antiga do programa, tendo iniciado o primeiro projeto há sete anos.

"A nossa startup foi indicada na época como uma das 40 no mundo inteiro para ser acompanhada pelo G-Lab", conta Filizzola. "Todo ano, alunos do MBA e graduação nos ajudaram em alguma área, seja marketing, vendas, produtos ou recursos humanos", explica. O último projeto, que envolve a consolidação da holding SambaGroup foi concluído este ano. O próximo já está em desenvolvimento, com as conferências e reuniões online, e deve ser concluído no início do próximo ano.

Outra empresa nacional parceira do G-Lab é a Kimberlit, companhia do setor de agronegócios especializada em nutrição de plantas. O contato foi feito através da Endeavor; o projeto foi realizado entre o final de 2011 e início de 2012. Sua demanda era de expandir para o mercado chinês, que tem amplo potencial em consumo de fertilizantes, mas as dificuldades eram imensas – principalmente de informações sobre o mercado local, que eram pouco acessíveis e disponíveis apenas em mandarim.

“Um dos integrantes da equipe do projeto era uma estudante chinesa radicada nos Estados Unidos, que foi de grande contribuição para a realização dos estudos, sobretudo para a coleta de dados disponíveis apenas em mandarim”, destaca Marcelo Rolim, gerente de marketing, pesquisa e desenvolvimento da Kimberlit. Segundo ele, o trabalho junto à equipe do MIT rendeu resultados acima do esperado, mas o melhor legado foram os benefícios colaterais.

“Passamos a dar mais atenção aos processos de valuation [avaliação de viabilidade de projetos ou de negócios], que antes eram mais simples e superficiais. O choque de cultura no modelo mental de se realizar avaliações foi interessante. A abertura cultural que a vinda de um time de quatro pessoas de origens bem distintas gerou em uma empresa de uma cidade pequena do interior de São Paulo, a evolução de algumas práticas para se adequar e participar do próprio projeto”, elenca Rolim. “Esses ganhos não esperados foram, sem dúvida, um grande diferencial para essa parceria, e talvez tenha um benefício mais duradouro para a empresa”, diz.

Por que não uma brasileira?

Embora o MIT seja uma universidade de ponta, que forma profissionais para trabalhar em empresas como Amazon e Google, existem outras razões para empresas brasileiras optarem por um programa de inovação e desenvolvimento com profissionais estrangeiros – além da oportunidade fácil. A primeira é que poucas universidades oferecem uma modalidade que permita ao estudante desenvolver pesquisa para uma instituição privada – boa fatia da produção científica brasileira se restringe às universidades públicas.

“Parte do que foi buscado no projeto com o G-Lab poderia ser encontrado no Brasil”, reconhece Rolim. “Por exemplo, a aplicação de modelo técnico de valuation e o próprio choque de modelo de condução de estudos e negócios", afirma. Mas a principal vantagem da parceria com uma instituição internacional é menos pragmática e mais potencial: os contatos. “O MIT tem uma rede excelente, que abriu muitas portas e acessos que foram diferenciais para a execução do estudo, inclusive aqui no Brasil e na China”, completa.

“O contato com esses alunos é uma aula de MBA”, destaca Filizzola. No Brasil há diversas universidades que poderiam nos ajudar, mas os estudantes do MIT estão imersos em um cenário altamente focado em tecnologia e muitos já trabalharam em grandes empresas. Trazer esse conhecimento, aliar esse know how ao projeto é um dos principais diferenciais”, afirma.

ExibirMinimizar
CEO Outllok, A era da liderança resiliente. Confira os Resultados.