Nestlé analisa venda de ativos para viabilizar compra da Garoto

A Nestlé está disposta a negociar a venda de marcas a concorrentes para convencer o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) a rever a decisão contrária à compra da Garoto.

08 março 2004

BRASÍLIA - A Nestlé está disposta a negociar a venda de marcas a concorrentes para convencer o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) a rever a decisão contrária à compra da Garoto.

A empresa está fazendo estudos sobre a viabilidade da alienação de ativos ligados às marcas para apresentar opções de promoção de concorrência ao Cade, informou um executivo da empresa. Os estudos foram pedidos e estão sendo monitorados pela matriz da Nestlé na Suíça.

A venda de marcas deverá ser o principal fato novo que a Nestlé pretende apresentar ao Cade. O órgão antitruste só aceita julgar um pedido de reapreciação caso surjam fatos novos.


Ainda não há definição sobre quais marcas serão oferecidas pela Nestlé. A multinacional suíça preferiu não negociar com o Cade antes, temendo interferir na análise dos conselheiros. A Nestlé também acreditou que era possível a aprovação total do negócio, tendo em vista decisões recentes do Cade favoráveis a grandes fusões, como a que aprovou a fusão Brahma-Antarctica e a criação da Ambev.

O Cade, por sua vez, também não alertou a Nestlé sobre problemas concorrenciais na compra da Garoto. O órgão antitruste assinou um acordo com a Nestlé para suspender os efeitos da compra da Garoto, em março de 2002. Mas, na condução do processo, não houve qualquer tratativa sobre venda de marcas e o resultado foi a reprovação total do negócio.

Agora, a Nestlé concluiu que deve iniciar um processo de negociação com os conselheiros do Cade. A idéia é mostrar alternativas para aumentar a competição no mercado de chocolates, por meio da da venda de marcas e ativos.

A Nestlé estuda se desfazer de determinadas marcas, acrescidas do sistema fabril e de distribuição, disse um executivo da empresa. Com isso, poderá mostrar ao Cade um cenário diferente sobre a concorrência no mercado de chocolates, já que o órgão antitruste concluiu que a compra da Garoto inviabiliza a concorrência.

A análise da Nestlé está sendo feita de forma minuciosa em diferentes mercados. Por exemplo, o Cade entendeu que a união da Nestlé com a Garoto resultará num domínio de 88,5% no mercado de coberturas sólidas de chocolate. Para contornar esse problema, a Nestlé está estudando formas de oferecer parte desse mercado a concorrentes de modo a satisfazer o Cade.

A multinacional está analisando outros mercados em que o Cade concluiu que a concentração é muito alta, como caixa de bombons (73,1%), tabletes (63,9%) e chocolates para consumo imediato (63,1%).

A Nestlé terá de trabalhar dentro da análise feita pelos conselheiros. Eles não consideraram, por exemplo, a competição com marcas artesanais, como os chocolates de Gramado e Campos do Jordão. Nem a fabricante Kopenhagen, presente em várias capitais brasileiras, foi considerada pelo Cade como competidora da Nestlé.

Uma das maiores dificuldades da empresa será a de convencer o órgão antitruste de que não há nenhum demérito em reapreciar a decisão.

O Cade foi muito pressionado após vetar a compra da Garoto, em 4 de fevereiro passado, e criou-se um clima de que manter a decisão significa provar que o órgão é alheio a lobbies políticos. Os conselheiros foram chamados pela bancada capixaba no Congresso - defensora dos investimentos feitos pela Nestlé na fábrica da Garoto em Vila Velha, no Espírito Santo - e sofreram a ameaça de instauração de uma CPI sobre a decisão.

As pressões ainda não acabaram e causam desconforto aos conselheiros. Nessa semana, o senador capixaba Magno Malta (PL) tentou colocar a decisão do Cade num pacote de negociações políticas com o governo. Ele pediu a reapreciação do caso em troca da retirada das assinaturas para a instalação da CPI dos bingos.


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