Brasil precisa crescer 3% em 2009 para evitar desemprego, dizem analistas

País precisa criar 1,2 milhão de vagas para evitar aumento da taxa. Em 2009, só 'cenário otimista' fará país crescer 3%, segundo a ONU.

A economia brasileira precisa crescer pelo menos 3% em 2009 para evitar o crescimento do desemprego, segundo especialistas ouvidos pelo G1. Com essa expansão, o país criaria 1,2 milhão de novas vagas. Para os economistas, isso seria suficiente para absorver as pessoas que vão ingresssar no mercado de trabalho no ano que vem.

“O Brasil precisa crescer pelo menos 3%, talvez até 3,5%, apenas para não gerar mais desemprego”, diz Clemente Ganzlucio, diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos (Dieese).


“Cada ponto percentual representa algo como 400 mil novas vagas; 1,2 milhão de postos (de trabalho) é o necessário para absorver os novos entrantes no mercado de trabalho”, explica Edgard Pereira, do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Meta ambiciosa

No entanto, o país deverá ter dificuldade para alcançar esse nível de aumento. Enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) deve registrar expansão entre 5% e 5,5% em 2008, a crise econômica deve diminuir esse número em 2009.



Enquanto o governo federal tem como meta um crescimento de 4% para o PIB em 2009 – valor que o próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega, já admitiu ser “ambicioso” –, outras projeções apontam para um resultado inferior.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) projeta um aumento de 2,4%, enquanto a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) prevê aumento de 2,1%.

No boletim Focus - levantamento semanal feito com cerca de 80 analistas -, a média das previsões aponta expansão de 2,5%.

Para a Organização das Nações Unidas (ONU), o país só atingiria 3% em uma cenário otimista. A única organização a fazer uma projeção igual à do governo é a agência de classificação de risco Moody's.

Desculpa para demissões


As recentes demissões feitas por empresas como Vale e Embraer levaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a afirmar nesta semana que os empresários brasileiros não podem usar a crise econômica como desculpa para demitir trabalhadores.

"Nenhum empresário pode ter motivo para mandar trabalhador embora", afirmou o presidente. "O papel do empresário agora é trabalhar rápido com o governo para evitar que a crise chegue à sociedade."

No entanto, as duas empresas se encaixam no perfil que mais deve ser atingido pela crise ao longo do primeiro semestre do ano que vem, segundo os analistas: as exportadoras.

“O impacto imediato será sobre aqueles setores que são dependentes da demanda externa, que está caindo”, afirma Renato Baumann, diretor da Cepal no Brasil.

“Isso inclui os setores de siderurgia, de mineração e os bens de capital. E temos os automóveis, que são afetados pela desaceleração do mercado interno. Eu elejo esses quatro setores como os mais fortes candidatos a dispensarem pessoal no próximo ano”, ressalta Pereira, da Unicamp.

Crédito em falta

Segundo os analistas, a escassez de crédito bancário também pode causar dificuldades em outras áreas. “Setores que dependem muito de financiamento podem ter problemas se o fluxo de empréstimos não for restabelecido. Estão nessa categoria produtos como automóveis, aviões, navios e ônibus”, diz Baumann.

“No entanto, isso pode ser compensado em parte pela desvalorização do real frente ao dólar, que torna os produtos brasileiros mais baratos no exterior. Isso dá um ganho de competitividade para alguns setores como manufaturas médias, confecções e vestuário”, completa o diretor da Cepal.

Resultado global

Ao redor do mundo, as projeções de desemprego são sombrias para o próximo ano. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que o número de desempregados com a crise mundial pode subir em 20 milhões de pessoas em 2009.

“O número de desempregados pode aumentar de 190 milhões, em 2007, para 210 milhões, em 2009”, afirmou no início de dezembro o diretor-geral da instituição, Juan Somavia.

Desse total de 20 milhões de desempregados, cerca de 1,8 milhão deverá estar na América Latina, segundo estimativa da Cepal.

A organização prevê que a economia da América Latina e do Caribe crescerá 1,9% em 2009, longe dos 4,6% estimados para este ano. A Cepal também calcula que o nível desemprego na região deverá subir de 7,5%, em 2008, para algo entre 7,8% e 8,1% no ano que vem. Já a inflação deve cair de 8,5% para 6%.

Pé no freio


No caso do Brasil, os analistas dizem que é difícil fazer uma projeção exata sobre o comportamento do mercado de trabalho. “Ainda é muito prematuro para falar em número de desempregados. O que é possível dizer com certeza é que o desempenho da economia no ano que vem será menor do que em 2008. Por conseqüencia, menos empregos serão criados”, diz Baumann.

É a mesma opinião de Ganzlucio, do Dieese: “É impossível fazer uma projeção. O que temos certeza é que a performance do mercado de trabalho não será igual ao que foi em 2008. A crise está colocando um freio na economia, mas falta verificar o tamanho da puxada de breque."

Já Pereira, da Unicamp, diz que acha “um crescimento de 3,5% no ano que vem otimista". Segundo ele, para que isso acontecesse, seria preciso um crescimento do mercado interno na faixa de uns 5% para compensar o recuo do setor externo. "O mais provável é que o resultado final fique entre 2,5% e 3%, o que não é ruim. No panorama atual, evitar desemprego em massa já é um grande negócio."
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