A segunda carreira

É impossível controlarmos todas as variáveis que podem nos levar a um futuro indesejável. Porém, na dúvida, o melhor caminho é tentar assumir o controle e fazer o melhor neste sentido, o mais cedo possível

Faz tempo que tenho pensado no que fazer quando me “aposentar”. Nestes momentos, quase sempre, o sentimento que vem é o de felicidade plena - fazer o que nunca pude em função do trabalho e dos compromissos profissionais, livrar-me do meu chefe e não ter mais horário e nem responsabilidades. Acontece que este tipo de pensamento é pura fantasia.

Quando penso seriamente nisso, o que vem à cabeça é a responsabilidade de me preparar para poder continuar ativo profissionalmente, continuar me sentindo útil. Não me parece razoável que, depois de ter trabalhado tanto, estudado tanto, ter ganhado tanta experiência e competência, de uma hora para outra eu pare de trabalhar completamente.

Muitos que o fazem, na maioria das vezes, o fazem por falta de oportunidades. Simplesmente perderam a competitividade profissional. Nunca pensaram que deveriam se preparar para o futuro. Mas um dia o futuro se torna presente. Para aqueles que se prepararam, ele será literalmente um presente. Para aqueles que nunca pensaram no assunto, pode ser um “presente de grego”, como diz o ditado popular.

Claro que sei que é impossível controlarmos todas as variáveis que podem nos levar a um futuro indesejável. Porém, na dúvida, o melhor caminho é tentar assumir o controle e fazer o melhor neste sentido, o mais cedo possível – e há um enorme benefício de se começar o quanto antes.

Lógico que, quando se tem vinte e poucos anos, não parece razoável achar que o planejamento de carreira de longo prazo seja um comportamento natural. Entretanto, se um jovem de 20 anos começasse a poupar de maneira sistemática, o mínimo que fosse, com uma taxa de juros acima da inflação, chegaria aos 50 anos em condições de enfrentar possíveis dificuldades na carreira, ou mesmo de planejar uma possível segunda carreira com mais tranquilidade.

Falando nos jovens, é fundamental que eles tenham consciência da importância de se investir em educação de qualidade, em experiências enriquecedoras para o desenvolvimento de competências sólidas, em autoconhecimento para o desenvolvimento de foco e inteligência emocional e, por fim, na construção de um patrimônio financeiro que lhe sirva de ponto de equilíbrio para a vida em um regime capitalista.

Vale lembrar também que, tão importante quanto a reserva financeira, é o investimento em si e no desenvolvimento de competências dirigidas para um foco específico. Só assim é possível manter-se competitivo no mercado durante anos. E, manter-se competitivo no mercado é uma boa alternativa para que a segunda carreira seja uma opção – e não uma falta dela.

Porém, se você não conseguir combinar todos os fatores que citei acima, deve começar de onde está e fazer o melhor que puder.

A segunda carreira, normalmente, deverá ter como base aproveitar o melhor de sua experiência profissional e de vida. Terá base também nos valores individuais e na capacidade de continuar investindo uma grande energia por longo prazo.

Normalmente, é a partir dos quarenta anos que começamos a pensar mais efetivamente na segunda carreira. Estaremos no meio do caminho da vida (se considerarmos os novos números sobre a expectativa de vida dos brasileiros moradores das grandes capitais do país) e teremos ainda muita energia para gastar, porém, com mais maturidade.

É lógico que na segunda carreira uma pessoa pode mudar radicalmente de atividade e fazer aquilo que sempre sonhou, mas nunca pôde. Porém, o mais comum é que a pessoa se mantenha em atividades no seu núcleo maior de experiências profissionais. Mas o que é certo é que a relação capital x trabalho irá mudar. Mais importante do que qualquer coisa, será a satisfação que esse novo trabalho trará a você.

Nesta fase será muito importante ter a mente aberta para novas maneiras de “vender” a capacidade de solucionar problemas. O motivo pelo qual alguém contrataria seus serviços.

Alguns profissionais vão abrir uma empresa. Outros serão autônomos. Outros terão um novo trabalho com registro em carteira, mas em outra atividade. Alguns vão ter carreiras paralelas até que possam focar definitivamente na nova carreira.

Tenho visto muita gente buscando, por exemplo, a área acadêmica como forma de manter-se ativo e de aproveitar o conhecimento desenvolvido em anos de mercado.

Há outros oferecendo uma experiência de mercado para Organizações não Governamentais.

O importante, no entanto, será pensar de forma mais estruturada no que você vai querer fazer profissionalmente quando os quarenta, cinquenta e sessenta anos chegarem. Para alguns, essa parece ser uma realidade longe demais dos olhos, porém, para outros, será uma questão de sobrevivência.

Tenho visto que, de uma maneira ou de outra, as pessoas encontram o seu caminho. Contudo, como disse Thiago de Mello; “não é necessário um caminho novo e sim, um jeito novo de caminhar”.

MARCOS VONO - Especialista em Recursos Humanos e Carreiras. Atuou como Executivo de RH do Grupo IBMEC por dez anos, papel que também cumpriu em diversas empresas como Banco Santander, Quaker e Unilever. Marcos também atua como Professor de MBA e Pós-Graduação, Palestrante e Consultor nas áreas de Carreiras e Gestão Estratégica de RH, além de ter sido articulista do jornal O Estado de São Paulo no caderno de Empregos.

ExibirMinimizar
CEO Outllok, A era da liderança resiliente. Confira os Resultados.