A revitalização do setor sucroalcooleiro

De modo geral, a atividade sucroalcooleira possui diversas alternativas viáveis para se manter como setor produtivo gerador e capaz de agregar valor

Não é novidade que a indústria sucroalcooleira do Brasil vem necessitando de crédito para fomentar seus negócios, a fim de sustentar a capacidade do setor em gerar empregos, voltar à retomada do crescimento, conquistando financiamentos do próprio giro, alcançando investimentos.

A situação do setor, à primeira vista, não está “lá essas coisas”, como se diria coloquialmente. As contas, ao final de cada safra, não fecham. Os pagamentos em final de moagem ficam sobrecarregados com obrigações trabalhistas que não tem como fugir e isso é prioridade para o setor.

EQUILÍBRIO? - Outro fator a ser destacado é que, como a indústria vive de ciclo, safra/entressafra, manter um fluxo de caixa equilibrado requer muita austeridade. Vale considerar ainda que muitas indústrias, num momento crítico, são obrigadas a “queimar” seus produtos, exatamente no momento em que os preços sofrem mais aperto para baixo. E isso acaba inclusive surpreendendo até mesmo usinas mais saudáveis financeiramente, que são afetadas pela descapitalização.

Sem conseguir financiamentos para a formação e manutenção dos produtos acabados, os preços acabam sofrendo volatividade muito relevante, motivo pelo qual força as indústrias a venderem seus produtos a preços elevados para fazer caixa e cumprir seus compromissos de pagamentos. No caso do etanol, a situação é mais árdua já que este produto é comercializado à vista.

Para o açúcar, a situação se esbarra na limitação de crédito para as exportações. Via de regra este produto é comercializado por intermédio de tradings, o que acaba afetando as linhas de créditos para exportações, por conta dos altos juros cobrados pelos bancos privados.

SURFANDO NA ENTRESSAFRA - Por essas e outras situações, há de se ter um acompanhamento direto nos níveis de estoques, a fim de evitar queda na oferta dos produtos nos meses de entressafra. Nesta época, a tendência natural é de pressão de alta nos preços, muito embora, como já salientado, não existem estoques suficientes para atender a demanda, por falta de linha de crédito.

De modo geral, a atividade sucroalcooleira possui diversas alternativas viáveis para se manter como setor produtivo gerador e capaz de agregar valor.

BUSCA PELA ASCENSÃO – Entre os mecanismos urgentes para ascender o setor, há que se debater sobre o futuro a ser desenvolvido, ou seja, como abrir novas oportunidades de negócios, o que pode ser feito para que novas especialidades produtivas e geradoras de renda sejam alavancadas. São ingredientes que devem ser colocados em pauta sob o ponto de vista econômico e social, motivado, principalmente por políticas públicas, com urgência.

O endividamento do setor é altíssimo e deve continuar em crescimento, conforme avaliam os bancos. Nos últimos anos, a dívida subiu R$ 5 bilhões no último ano, indicador que deve apontar para uma situação, como dizem cotidianamente: "fundo do poço". Motivos não faltam: aumento do custo de produção, quebra de safra por conta de fatores climáticos, ausência de competitividade do etanol e falta de investimento no campo (reforma dos canaviais/implementos agrícolas) e na indústria.

Por essas razões, poucas empresas, aquelas mais bem estruturadas, poderão valer-se para dar um salto de desenvolvimento nas próximas safras, aproveitando o investimento feito nas lavouras, que demora cerca de dois anos para ocasionar resultados positivos.

EM BAIXA - Aproximadamente um terço do setor passa por dificuldades expressivas. Segundo estudos feitos pelo mercado, 29% das empresas sucroalcooleiras estão com a sua recuperação com elevada alavancagem, ou seja, a relação da sua rentabilidade e o seu endividamento. Estas somam 16%. Outros grupos, numa fatia de 18% não têm mais condições de recuperação, tendo a necessidade de passar por algum tipo de reestruturação societária, seja pelo processo de fusão, incorporação ou aquisição.

Se há eventualmente alguma empresa obtendo lucro, ela é oriunda do açúcar, já que o etanol hidratado está sendo vendido por um preço próximo ou até inferior aos custos de produção. Como já é sabida, a razão para essa dificuldade se deve em parte à manutenção do preço estável da gasolina pelo governo Federal.

Portanto, o que resta é a possibilidade do governo dar sinais de que irá interferir e tentar buscar e, principalmente, implementar novos investimentos para o setor do etanol.

Caso contrário, se não houver esta apreensão, a situação do setor estará propícia ao fechamento das indústrias, embora haja grupos nesta atividade que tem buscado mais eficiência nas suas gestões, porém, ainda assim, não é suficiente para conseguirem uma maior sinergia na medida em que o governo peregrina deixando estas empresas também em situação complicada.

Com esta política, em que “os bons pagam pelos maus”, o que pode ocorrer é frustrar o investidor de grandes grupos que gostariam e/ou pretendem investir nesse setor. Exemplos não faltam, só entre os anos de 2011 e 2012, pesquisas apontam que aproximadamente 30 produtores de etanol do Centro-Sul interromperam sua produção.

José Osvaldo Bozzo é tributarista e sócio da MJC Consultores. Formado em Direito, iniciou carreira na PwC. Foi sócio da BDO e KPMG e professor na USP - MBA de Ribeirão Preto

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