Whatafuck: o “Shake Shack” brasileiro
Whatafuck: o “Shake Shack” brasileiro

Whatafuck: o “Shake Shack” brasileiro

Um case que vai deixar você, literalmente, com água na boca

Qual o segredo do sucesso de uma empresa do ramo alimentício? O que faz um restaurante estar lotado sempre? Qual o risco de se investir em uma lanchonete? Quais as variáveis mais importantes que devem ser observadas para se almejar o sucesso de um restaurante? São questões complexas e que não possuem respostas prontas e definitivas. Como em qualquer segmento de negócio, e no ramo alimentício principalmente, há quem diga que o sucesso está na correta seleção e boa negociação com fornecedores, alguns acreditam que está no prestígio do chef de cozinha, outros pensam que o atendimento é o principal fator para se reter clientes e deixá-los satisfeitos.

De alguns anos para cá, vimos crescer vertiginosamente nos Estados Unidos um case sensacional. Uma rede de hamburguerias que entendeu bem essa equação e soube calibrar cirurgicamente essas variáveis. É o Shake Shack. Essa rede tem sido vista como uma verdadeira inspiração na cena da baixa gastronomia de Nova York, desde que abriu sua primeira loja no Madison Square Park, há 11 anos. A rede foi criada pelo prestigiado restaurateur Danny Meyer, e desde então tem crescido e se tornado uma cadeia global, com 41 pontos de venda dos Estados Unidos e 29 franquias no exterior, em cidades como Moscou, Dubai, Istambul e Londres. Os fãs da marca fazem fila para comprar seus ShackBurgers, os cachorros-quentes, os milk-shakes feitos com ingredientes locais artesanais (onde cada loja tem suas próprias criações únicas) e a cerveja artesanal. Para saber mais sobre eles, leia a recente matéria que saiu na Revista Fast Company aqui.

Mas não precisamos mais ir até Nova York para provar algo tão gostoso, justo e genuíno. Tive o imenso prazer de conhecer a mais nova sensação da cena gastronômica do Brasil, mais precisamente na cidade de Curitiba: o Whatafuck. Um termo em inglês que nem tem muita tradução literal é o nome dado a uma nova hamburgueria aberta recentemente no bairro do Batel, zona nobre da cidade. O nome da lanchonete, sim, é polêmico, mas é sonoro, viral e impactante, e destoa dos nomes mais convencionais de restaurantes. E a irreverência e informalidade estão presentes não apenas no nome, mas em todos os pontos de contato da marca com seu público: desde a forma como se faz um pedido, à forma como o lanche é entregue, passando pela simpatia dos atendentes e o tom da marca nas postagens do Instagram. Em apenas três meses de vida, o Whatafuck já ocupa o segundo lugar entre as hamburguerias da cidade dentro do aplicativo de geolocalização Foursquare.



O hambúrguer pronto desce (hermeticamente embalado) e rodopiando por um tobogã projetado especialmente para o lugar, vindo da cozinha, que fica no primeiro andar. Algo absolutamente inusitado e diferente. Daniel Mocellin, o sócio-fundador, fica na linha de frente, pegando os pedidos e, ao mesmo tempo, verificando se os clientes estão satisfeitos com o produto. Mocellin, que há dez anos é apreciador das cervejas artesanais, faz questão de que os frequentadores de sua lanchonete saboreiem chopes de alta qualidade. Ele, inclusive, é quem escolhe as cervejas e faz diariamente os pedidos para o distribuidor, na madrugada, pelo Whatsapp, após fechar as portas. A hamburgueria sempre tem engatado seis torneiras de chope artesanais da cidade de Curitiba, uma cidade onde a cena cervejeira não é mais modinha, já virou cultura. Até o fim de agosto, o número de torneiras passará para oito. Existe um plano de começar a ter o próprio rótulo de cerveja, a exemplo do que algumas lanchonetes de fora do Brasil já fazem. No Katz´s Delicatessen de Nova York, onde se come um emblemático sanduíche de pastrami, temos a “Katz´s Ale”, e no Shake Shack, temos o chope “ShackMeister”, ambas feitas pela Brooklyn Brewery.

O modelo de negócio do Whatafuck foi inspirado em uma hamburgueria vizinha do Shake Shack. Durante uma viagem para Nova York, Daniel Mocellin conheceu o Burger Joint. Lá, uma portinha por trás de uma cortina vermelha dentro do saguão do luxuoso Hotel Le Parker Meridien dá acesso a uma hamburgueria onde não existem garçons, o próprio cliente é quem faz o pedido no caixa, e após ser chamado pelo nome volta para buscar seu lanche. Por fim, quando termina de comer, ele é convidado a jogar seu lixo no lixo. O Whatafuck tenta funcionar da mesma forma: o cardápio é reduzido, com a proposta de ser um lanche rápido, mas sem perder qualidade e sabor.



Segundo Daniel, a boa aceitação da hamburgueria não se dá apenas por conta dos lanches. Todo o projeto teve muito tempo para ser articulado da maneira desejada. “Primeiro eu me formei em jornalismo, e depois em Tecnologia em Marketing. Precisei deixar uma pós-graduação em e-branding pela metade para me dedicar ao projeto. Trabalhei por quatro anos com gestão e planejamento de comunicação para restaurantes. Então eu tive a chance de abrir o Whatafuck e poder pela primeira vez criar uma estratégia do jeito que eu queria, desde o início. Mas eu também acreditei muito no talento das pessoas que me cercaram no projeto. Acreditei na capacidade do meu sócio (na verdade, foi meu cliente durante três anos), que já tem uma hamburgueria aqui. Eu sabia que ele ia conseguir fazer um produto de qualidade, por um preço que fosse possível trabalhar. Sabia que meus amigos arquitetos iriam fazer o melhor projeto possível, e realmente fizeram. Para mim, só faltou criar o conceito, identificar uma abordagem que tivesse tudo a ver com o público da rua, e estabelecer a linguagem para isso. Deu certo. Os funcionários do Whatafuck têm toda a liberdade que eles merecem. Para conseguir atingir o resultado que eu espero, é fundamental que cada um deles consiga expressar o que têm de melhor para o público”, afirma Daniel, o sócio-fundador.

Apesar de uma verdadeira operação de guerra (a média de venda diária já alcançou a marca de 450 hambúrgueres), tudo é muito organizado. Mesas para sentar, são algumas poucas apenas dentro da própria loja. E a grande maioria dos clientes fica em pé mesmo, na calçada da rua Vicente Machado, ponto de efervescência de jovens da capital paranaense. O carro-chefe é um hambúrguer vendido a módicos R$ 10. Algo absolutamente inimaginável para um morador, por exemplo, da cidade de São Paulo, um famoso reduto de hamburguerias descoladas e famosas. Mas nem em padarias de bairro de São Paulo se come um hambúrger com esse preço, e com esse alto nível de qualidade, então, nem pensar. Nas premiadas, descoladas e gourmetizadas hamburguerias que se vêem hoje em São Paulo, não se paga menos de R$ 25 para se comer um clássico X Salada. Mas no Whatafuck se come algo realmente gostoso, caseiro e, nas quartas-feiras, com bacon grátis. Tudo por uma cédula de R$ 10.

Sim, um hambúrguer gostoso de verdade, saboroso, com uma carne suculenta, ingredientes selecionados, frescos e escolhidos com muito critério. O pão, assim como a cerveja, é entregue diariamente. A qualidade e sabor da carne do hambúrger protagonizam a experiência gastronômica do local. Um hambúrger bem montado, que se come segurando-o com apenas uma das mãos, e sem que escorra a deliciosa maionese caseira pelos dedos. Tudo firme, saboroso, no ponto certo. Quando estiver em Curitiba, não deixe de conhecer o Whatafuck. Um modelo de negócio feito com paixão e principalmente com extrema atenção aos detalhes. Um trabalho de branding impecável. Algo absolutamente ousado, inspirador e muito corajoso, ainda mais em uma cidade como Curitiba, onde o padrão gastronômico é muito elevado. Whatafuck!

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