Vontade e motivação são diferentes

No dia da estréia da seleção brasileira na Copa eu quase não cheguei em casa a tempo de assistir o jogo. O trânsito estava terrível. Preso no tráfego eu observava a reação dos motoristas diante da possibilidade de perder o jogo. De gritos e esbravejamentos a conversões ilegais e ultrapassagens perigosas. Semáforos eram simplesmente ignorados e atropelamentos não aconteciam por milagre.

No dia da estréia da seleção brasileira na Copa eu quase não cheguei em casa a tempo de assistir o jogo. O trânsito estava terrível. Preso no tráfego eu observava a reação dos motoristas diante da possibilidade de perder o jogo. De gritos e esbravejamentos a conversões ilegais e ultrapassagens perigosas. Semáforos eram simplesmente ignorados e atropelamentos não aconteciam por milagre.

Eu comentei com um colega: Já pensou como seria este país se todos tivessem o mesmo desespero para trabalhar como para assistir sua seleção jogar? Eu gostaria de ter pessoas na minha equipe que tivessem esta mesma gana e motivação.


No jogo de despedida do Brasil da Copa estes pensamentos voltaram à minha mente. A França despachou o Brasil, de novo, re-editando mais uma saída à lá francesa (bem apática), pois o grande salto de qualidade que Parreira queria e esperava com a nova formação montada não aconteceu. Como em 1998, os jogadores estavam impassíveis, como se a França gerasse algum efeito narcótico sobre o Brasil. Só que desta vez, um dos poucos lúcidos e acordados era justamente Ronaldo.

Eu percebi como a passividade com que os jogadores aceitavam a derrota e a eliminação contrastava com o brilhantismo de Zidane (mais uma vez) e pensei: Vontade é diferente de motivação. Todos os jogadores afirmavam, desde que foram escalados, que eles tinham muita vontade de trazer o hexacampeonato. Muita vontade, muita disposição, muita motivação?

Zinedine Zidane declarou, desde o começo da competição, que esta seria sua última copa, se aposentaria depois do último jogo. Após alguns tropeços nas fases iniciais, a França re-encontrou seu jogo no duelo que eliminou uma das favoritas, a Espanha. E aí fica a pergunta: Quem você acha que está mais motivado: Quem ainda pode ter outras chances com a seleção ou quem sabe que o próximo jogo pode ser seu último jogo?

Cada torcedor sabe que aquele jogo da seleção pode ser o último, sabe que a derrota é o fim. Cada espectador sabe que não terá outra chance de torcer pela sua seleção naquele jogo. A motivação para superar os obstáculos para conseguir chegar em casa a tempo não se compara com a motivação por mais um rotineiro dia de trabalho é mais do que vontade de ver o jogo.

Um grupo cheio de estrelas não faz um time vencedor. Como motivar quem está no auge, quem já conquistou quase tudo, quem acha que é imbatível? Como lidar com as altas expectativas geradas entre aqueles que esperam que seu status e fama se justifiquem na mais importante competição do gênero no mundo? Como fazer com que uma equipe de talentos vibre em cada jogo e celebre a vitória e o privilégio de estar lá como fazem os jogadores ganenses e sua respectiva torcida?

Como manter a motivação de quem estréia na competição, prova do que é capaz e precisa manter o mesmo desempenho diante da alta expectativa gerada para os próximos confrontos, como aconteceu com Juninho e Cicinho? Como relacionar declarações de Robinho de que tinha muita coisa ainda para mostrar e conquistar, com as conquistas já obtidas de Ronaldinho Gaúcho e como eles demonstravam esta motivação em campo?

Fica mais claro ainda perceber a ascensão de Ronaldo que mais uma vez chega desacreditado e se supera ao longo da competição (mesmo no jogo da desclassificação) diante de evidências de que está muito mais motivado quem vem de baixo e quer subir do que quem já está no topo e precisa se manter lá.

Parreira declarou, por várias vezes, que a maior preocupação da equipe técnica com relação ao lado psicológico do time era que o excesso de favoritismo não provocasse o comportamento arrogante de quem entra com salto alto. Mas ele se esqueceu de uma coisa, este excesso de favoritismo se transformou em uma cobrança que os jogadores não estavam muito dispostos a cumprir, o efeito negativo da cobrança foi mais forte do que a vontade de vencer, uma situação oposta à de 2002 quando o time de Scolari chegou desacreditada na Copa e tinha todo um árduo caminho para percorrer em direção ao topo.

Por isso, se você é líder e tem talentos empreendedores em sua equipe, preocupe-se com o desafio de garantir que eles se mantenham auto-motivados e não apenas com muita vontade. A maior dificuldade de quem lidera empreendedores é manter a chama acesa, lidar com as expectativas, minimizar o favoritismo, despertar aquele desejo intrínseco que nasce nos corações das pessoas.

A nós, torcedores, resta torcer pelo único brasileiro que continua vivo na Copa (e bota vivo nisto), vestir-se de vermelho e verde por nossos irmãos lusitanos e ver até onde o poder de Scolari de provocar a atitude de garra, coragem e determinação vai além da grande vontade de vencer.


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