Você vai querer trabalhar na Suécia e aqui está o porquê
Você vai querer trabalhar na Suécia e aqui está o porquê

Você vai querer trabalhar na Suécia e aqui está o porquê

Conheça a realidade de um lugar onde o funcionário faz seu horário e ficar no escritório até depois das 17h é visto como sinal de incompetência

Permanecer muitas e muitas horas no escritório pode ser sinal de dedicação em alguns lugares, mas não na Suécia. Ali, passar das 17h no local de trabalho pode significar que o profissional em questão não é tão produtivo ou competente. Ou pior: que é relapso com seus deveres familiares e como cidadão. A lógica de viver em primeiro lugar, tendo o trabalho como parte da realidade, mas não como a realização de toda ela, é a filosofia nórdica não dita do país escandinavo.

Através do perfil de um trabalhador sueco de classe média, o jornal El País aprofundou uma das discussões mais importantes dos nossos dias. Como usufruir uma vida feliz e plena, conciliando nossos desejos e necessidades enquanto seres humanos às exigências da sociedade com relação à nossa contribuição produtiva para a comunidade. O velho dilema entre "viver para trabalhar" e "trabalhar para viver" continua atual e pulsa nas mentes de jovens e experientes profissionais.

Tom Holmqvist, o personagem real do qual trata a matéria do El País, é um economista e funcionário da agência espacial da Suécia. Casado e com dois filhos, sua rotina é flexível o suficiente para aproveitar tempo de qualidade com sua família. Ele sempre sai para trabalhar pela manhã, por exemplo, mas sem muitas preocupações com horário de chegada, pois o que é exigido dele em seu espaço de trabalho é que as atividades sejam realizadas e entregues nos prazos, não importando como ele se organiza para cumprir tais obrigações.

“Trabalho 40 horas por semana e às vezes tenho muita carga de trabalho, até 50 horas, mas meu horário é totalmente flexível. Se não tivesse essa liberdade, não trabalharia aqui”, declara Holmqvist, que aos 37 anos de idade afirma piamente não estar disposto a perder uma tarde com Tom e Hugo, seus dois filhos. Marie, sua mulher, é reumatologista e atualmente desfruta de licença-maternidade, pois Hugo tem apenas 10 semanas de vida.

"A empresa me ajuda muito, pois mesmo quando tenho muita carga de trabalho posso ir para casa e terminar minhas tarefas depois que as crianças dormirem. Isso me dá a chance de passar mais tempo com a minha família", conta Tom. Ele não é uma exceção na Suécia. Apesar de aqueles com menores salários e cargos terem menos facilidades, pode-se dizer que, da classe média para cima, a grande maioria dos empregos permite essa flexibilidade na hora de construir uma rotina de trabalho.

"Foi uma dia difícil/ e eu tenho trabalhado como um cão" - não na Suécia!

A música dos Beatles retrata uma realidade impensável para os suecos. Na Revista Administradores já falamos sobre inverter prioridades na busca pela realização pessoal em níveis mais profundos. Tratamos do assunto em nível de cultura individual, citando exemplos de pessoas que, nadando contra a corrente, resolveram adotar abordagens diferentes para suas vidas e carreiras, eliminando a necessidade imposta de existir simplesmente para produzir.

Aqui, a questão não é apenas de escolha pessoal, pois muitas vezes queremos trabalhar menos, mas não podemos, por questões financeiras ou de exigência do local de trabalho. O caso sueco é diferente, pois existe um entendimento coletivo de como se encarar a vida e a produção de riqueza. A cultura local é a de colocar família e vida pessoal como prioridades, e os deveres cívicos em patamar de igualdade com obrigações profissionais. Por isso, empresas e empregadores não exigem de seus funcionários aquilo que não poderiam suportar eles mesmos.

Tom Holmqvist calcula que passa cerca de 30 a 35 horas no escritório semanalmente, realizando o restante de suas atividades de casa. “Se tenho assuntos pendentes, trabalho à noite. Mas se não, não faço nada", conta ao El País. Muitas vezes ele não vai ao escritório pois afirma que não compensa se deslocar se não houver alguma reunião ou compromisso presencial. Claro que essa rotina exige disciplina por parte de Tom, mas a cultura na qual foi educado o equipou para lidar com a liberdade sem relaxar enquanto profissional.

"Aqui é muito normal que as empresas que querem atrair os melhores trabalhadores ofereçam dias livres ou jornadas mais curtas, ajuda aos pais e, em geral, liberdade para determinar os horários”, explica Holmqvist. Ele afirma que os avanços tecnológicos facilitaram isso, pois hoje em dia estamos conectados o tempo todo, e a presença nem sempre é essencial. Ao ser confrontado com a realidade de locais nos quais as pessoas trabalham até 19h ou 20h, o economista fica chocado e simplesmente não compreende.

Primeiramente, porque o cidadão sueco não entende como "as pessoas se ocupam dos filhos ou dos pais, quando fazem esporte ou vão ao cinema" em um sistema de trabalho que ao invés de estimular a eficiência, encaixa o trabalhador no esteriótipo de incompetente - afinal, para Holmqvist, pessoas eficientes conseguem realizar suas obrigações profissionais no tempo disponível para tal. A lógica de permanecer mais tempo ou se exaurir para cumprir as tarefas cotidianas não funciona para Tom. “Se você é obrigado a ficar até as oito, não há incentivos para ser eficiente. Para que vou ser eficiente se tenho de ficar até as tantas do mesmo jeito?”, questiona.

Questão de cultura

O estilo de vida de Tom, que exemplifica a realidade sueca, traz à tona uma reflexão ainda mais profunda do que a das escolhas feitas em prol do alcance da realização pessoal: se a forma como encaramos o trabalho está intimamente ligada à visão da sociedade na qual estamos inseridos sobre os propósitos da vida, então talvez soframos de um mal coletivo. Qual? A incapacidade de perceber que a plenitude enquanto profissionais e, acima de tudo, seres humanos, pode estar longe da rotina doída e engessada de um workaholic. Viver para trabalhar não deveria ser uma regra e nem uma postura imprescindível para o tão sonhado "sucesso'.

A cultura workaholic, exportada pelos Estados Unidos para o mundo, na Suécia é abominada. "Longe de gerar admiração, é sintoma inequívoco de ineficiência e de falta de responsabilidade para com a família e a sociedade", diz a matéria do El País. Porque naquela nação, formar cidadãos sadios é um dever cívico tal qual o de recolher e pagar impostos.

O tema da divisão do tempo é, inclusive, político, marcando presença em campanhas eleitorais, pois é considerado um assunto chave na qualidade de vida dos cidadãos e na criação de um estado de bem estar nacional. “É um assunto público, não privado. Temos claro que é um assunto que precisa ser legislado', afirma Marie, esposa de Tom Holmqvist. Governos e instituições ali enxergam que um país próspero é aquele em que os cidadãos vivem digna e plenamente. O estresse profissional extremo não faz parte dessa equação.

Ao ler sobre Tom, sua vida se torna uma ilustração que nos confronta e constrange a pensar sobre os rumos que tomamos profissional e pessoalmente. Nossas escolhas em nível pessoal são questionadas e, mais ainda, passamos a nos debater com a realidade ao redor. Talvez o caminho para desfrutar de uma vida de qualidade, gasta com o que é importante para o indivíduo - seja isso o que for que ele amar - esteja em repensar a forma de encarar o trabalho, os sentidos da vida e do mundo, de forma individual e coletiva. Enquanto refletimos, sugiro arranjar um jeito de ir trabalhar para viver na Suécia.

ExibirMinimizar
aci institute 15 anos compartilhando conhecimento