Você trabalha com o que mesmo, filho?
Você trabalha com o que mesmo, filho?

Você trabalha com o que mesmo, filho?

Por que está cada vez mais complicado responder a essa pergunta?

Já faz algum tempo que tenho dificuldade de explicar o que, de fato, faço para amigos, parentes e conhecidos. Acabou que, para evitar a fadiga, resolvi seguir o caminho mais prático.

- Oi, sou publicitário.

Mas, a bem da verdade, não tenho apenas as atribuições de um publicitário. Desde de 2013, passei a empreender também. Além da empresa, me envolvi em um monte de projeto paralelo relacionado à tecnologia, educação, startups, economia e análise de dados. De repente, me definir como publicitário parecia pouco e foi aí que comecei a olhar ao meu redor para ver se as pessoas próximas a mim também estavam passando por isso.

Quando notei que tem um monte de gente passando pela mesma situação, me veio outra dúvida:

- Por que danado isso tá rolando?

A resposta estava na minha fuça o tempo inteiro. Não é mais novidade nenhuma que o mundo mudou, né? Tem uma caralhada de gente falando disso, com mil teses sobre como essa mudança de era veio para tirar a gente da inércia. Mas o resultado disso não são apenas linhas teóricas não.

Minha interpretação do mundo também mudou.

Para não virar refugo profissional, a seleção natural me obrigou a ceder à adaptação. Não foi, e nem tem sido fácil. Enquanto a publicidade exigia de mim apenas um super poder, que eu domino, as transformações de mercado e sociais exigiam de mim uma gama de expertises que muitas vezes duvidei ter. A primeira delas:

A habilidade de ensinar

Eu já nutria minha criatividade em um processo autodidata. Consumia referência para caralho, lia além do aconselhado e mantinha essa sede sempre viva. Apesar de isso tudo ser fundamental para ensinar, faltava algo.

A primeira coisa era que o formato tradicional de ensino não me convencia. Tudo o que definia um professor parecia, na falta de uma palavra melhor, paia. O formato deveria ser outro. Me desculpe quem curte, mas também não era nada dessa parada de coach.

Esses modelos eram formais demais, descomplicados demais. Não eram alinhados com um tempo onde as pessoas são pra lá de complexas.

Então, assumi meu papel de ensinar seguindo apenas um instinto: sou feliz ensinando, então, enquanto continuar feliz passando conhecimento para o outro, estarei no caminho certo. É isso que faço desde então.

Sou um professor em tempo integral em todo lugar que estou. Cada job é uma oportunidade de ensinar e compartilhar conhecimento e essa postura mudou o nível das coisas que faço, pois tudo é baseado em curiosidade, inconformidade e intuição.

Adquiri a possibilidade de aprender, desaprender e reaprender como forma de impulsionar soluções criativas em mim e na minha equipe.

Depois descobri:

A habilidade de hackear o status das coisas

No universo de startups existe um termo chamado Growth Hacking.

Basicamente se trata de usar criatividade, pensamento analítico e métricas sociais para vender mais e gerar mais aderência. É um processo sistematizado baseado em baixo custo como alternativa à comunicação tradicional.

Hacking é um mindset pra lá de útil nos dias de hoje. Me fez virar um cara que busca incessantemente fazer as coisas melhores, mesmo que sejam pequenas transformações.

Para conseguir isso, precisei ressignificar uma habilidade.

Deixar de ser um criativo para ser um inventor

Se você ainda tinha dúvidas que o movimento maker colocou o pau na mesa, não tenha mais. O fato de que conceber/ter ideias perdeu o poder não vem de hoje. A indústria da publicidade conseguiu ir empurrando com a barriga até um certo ponto, mas hoje em dia é inevitável não ceder a essa cultura.

Fazer é muito melhor que ter ideias. Meu trabalho passou a ser muito mais divertido quando passei a inventar soluções em vez de ter ideias de soluções. Um invento precisa de energia para existir, uma ideia só precisa de audiência.

Criativos são por essência Pensadores. Inventores são por essência Realizadores.

Muitas marcas já entenderam isso. Não há mal em deixar que as pessoas construam coisas desde o rascunho pela sua marca ou bancadas pela sua marca. E é exatamente por isso que não vale mais a pena ter só diretor de arte e redator em um departamento de criação. Muito menos chamar de criação. Por que não chamar de departamento de invenção?

E por último, mas não menos importante:

A habilidade de se apropriar

O famoso "tomar de conta". Toda aquela nóia publicitária sobre "chupar" ou "não chupar" vai para o saco. Boas ideias devem ser copiadas sem nenhuma cerimônia, devem ser replicadas à exaustão.

Talvez seja a habilidade mais importante diante de uma economia que abraçou o termo compartilhar.

As marcas e a publicidade foram responsáveis pela cultura da escassez, e a consequência disso foi um efeito colateral inesperado: a epidemia da solidão. A busca por sucesso e superação é tanta que não sobra tempo para cuidar da gente.

Por isso, entender movimentos que invertem o papel do valor são fundamentais e trazer isso para a comunicação da marca muda tudo.

Vencer o medo de não ser inédito é um primeiro passo, depois transformar em mantra. Porque melhor do que criar coisas brilhantes é realizar coisas úteis.

Agora pare um pouquinho e se pergunte:

- Eu trabalho com o quê?

A resposta pode mudar tudo para você.

Originalmente publicado no Medium.

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