Café com ADM
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Você passou de ano?

Hoje fui à reunião de pais na escola de meus filhos, num raro ato de dedicação paterna, uma vez que minha agenda permite poucos rompantes familiares como este. Mas, além de me certificar que minha filha está indo muito bem nas aulas, a reunião serviu, como de costume, para mais um momento de reflexão interdisciplinar, desta vez sobre a pedagogia empreendedora.

Hoje fui à reunião de pais na escola de meus filhos, num raro ato de dedicação paterna, uma vez que minha agenda permite poucos rompantes familiares como este. Mas, além de me certificar que minha filha está indo muito bem nas aulas, a reunião serviu, como de costume, para mais um momento de reflexão interdisciplinar, desta vez sobre a pedagogia empreendedora.

Há algum tempo venho acompanhando os movimentos de renomadas instituições de ensino espalhadas pelo país para desenvolver a cultura empreendedora no país, sobretudo das escolas de administração, que trabalham agora para desmistificar a imagem de que o melhor direcionamento de carreira que um aluno pode ter é o emprego, com carteira assinada, em grandes multinacionais.


Elas procuram mostrar que existem ótimas perspectivas de sucesso na atividade empreendedora e, como decorrência, pipocam pelo país, num ritmo acelerado, cursos e centros de empreendedorismo que visam a formação de empreendedores. Estes cursos, no entanto, estão ainda presos a um modelo tradicional de ensino, que privilegia o professor e o conhecimento, quando, na verdade, deveriam enfatizar aspectos mais amplos da formação do empreendedor, que a mim sempre foi difícil explicar quais seriam, mas a reunião na escola me iluminou.

Veja o que aprendi com as professoras do ensino fundamental sobre como deveriam ser nossas escolas de formação de empreendedores:

1) Os alunos é que estabelecem as regras da sala, eles escrevem em conjunto a sua constituição, ou, o caderno de combinados. Nada é imposto, mas discutido no grupo antes de ser colocado como regra do grupo. O empreendedor não segue regras pré-determinadas, ele cria suas próprias regras.
2) Dentro do caderno de combinados vemos coisas como: Não correr, pedir a vez para falar, cumprir com as obrigações, e outras regras que enfatizam a disciplina, o respeito, a colaboração e as relações pessoais. Muito além do simples conteúdo, o ensino do empreendedorismo deve enfatizar o comportamento, a formação do caráter, a capacidade de se expressar, o processo de negociação, a tolerância. São coisas que não se aprende ouvindo, mas fazendo e vivendo as experiências.
3) Qualquer contribuição que o aluno traga de casa não só é estimulado como valorizado nas aulas. Um artigo, uma notícia, uma nota de jornal, um fato ocorrido na cidade. Sempre que possível, estas contribuições, na maioria espontâneas, são utilizadas como ilustração de algum tema que está em estudo pela classe: Ciências, matemática, português, história, geografia, etc. No ensino do empreendedorismo, a participação individual deve ser enfatizada como forma de desenvolver o espírito crítico e participativo, a inserção no grupo e o significado pessoal dado ao conteúdo aprendido.
4) Os alunos são estimulados a pensar durante as aulas. Poucas são as respostas que vêm prontas. O raciocínio é mais importante do que a solução. A conclusão que o próprio aluno chega fica melhor sedimentada do que a resposta que ele recebe de forma passiva.
5) Considera-se a individualidade de cada aluno e suas particularidades únicas. O relatório mostra, não só como tem sido o desempenho da classe, mas considerações sobre cada aluno, o que tem de bom, o que deve melhorar. O ensino do empreendedorismo deve ser individualizado. As pessoas são diferentes entre si e estas diferenças são relevantes no seu processo de desenvolvimento.
6) A auto-avaliação é estimulada sempre. Ajuda a desenvolver o conceito de si, cria o hábito da auto-percepção. Declarações do tipo: Preciso melhorar a leitura são muito mais relevantes e motivadoras do que: Você precisa melhorar a leitura. A auto-percepção é de suma importância para o empreendedor. Ninguém vai lhe dizer quais são suas deficiências. Ele precisa descobrir por si só e não se deixar iludir pelo ego inflado que caracteriza a personalidade da maioria dos empreendedores.
7) Os alunos são questionados sempre sobre o ambiente externo à escola e à família. Eles aprendem a se posicionar diante do mundo, conhecer o seu lugar e o seu papel na sociedade, através de coisas simples como consciência ambiental e respeito mútuo, por exemplo. Para o empreendedor, esta visão do mundo é fundamental para ele tomar suas decisões diante de uma clara noção do ambiente de relevância.
8) Algumas aulas são dadas fora da tradicional sala. Toda a escola é explorada nas atividades que reúnem exercícios físicos com estímulo à visão e noção de espaço. Cada aluno tem a liberdade de escolher onde tomará o lanche, que parte da escola reproduzirá na tarefa de artes, quem entrevistará para o trabalho sobre a escola. O ensino do empreendedorismo também não deve se limitar às quatro paredes de uma sala e sim explorar os espaços para desenvolver conceitos mais amplos e livres de restrições, o pensar fora da caixa.
9) A escola promove muito a interdisciplinaridade. Todos os professores procuram desenvolver seus trabalhos em torno de temas comuns. Informática, inglês, educação física, etc. No ensino do empreendedorismo, nenhuma disciplina também é independente da outra. Um empreendimento deve ser visto sempre no conjunto das diversas disciplinas e não pela simples soma de suas partes.
10) Valores, princípios, visão, ética, responsabilidade, consciência, criatividade, teamwork, comunicabilidade, bom senso, autonomia, organização, planejamento, liderança e percepção são outras coisas que são ensinadas não só pela escola, mas tendo a família como co-responsáveis no processo. Assim também a escola de empreendedorismo forma através da modelagem do comportamento às situações que surgem no dia-a-dia do empreendedor e não necessariamente simuladas em sala de aula.

Vemos que o ensino fundamental está caminhando a passos largos na formação de pessoas conscientes e mais preparadas para a vida, trilhando um caminho de evolução no processo ensino-aprendizagem pelo qual, fatalmente, passará também o ensino médio e o superior.

E os empreendedores, será que estão dispostos a abarcar a idéia de que para ter resultados é preciso antes de mais nada aprender a ser, a saber-fazer e refletir na ação, para só depois trilhar pelos caminhos surpreendentes do conhecimento significativo e construído, tal qual as crianças do ensino fundamental? Você está preparado para esta lição? Você está pronto para passar de ano nesta escola?


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