Você escuta ou você ouve? Quando a arrogância ensurdece

Existe uma diferença fundamental entre escutar e ouvir. Para aprender a ouvir, é essencial enterrar (bem fundo) a arrogância

No início da minha carreira profissional, fui um excelente Técnico Eletrônico e programador. Eu era a pessoa que procuravam para solucionar os problemas complicados. Nas empresas em que eu trabalhei, tinha o status de “o cara”, aquele que era chamado quando tudo já havia sido tentado. Para uma pessoa jovem e inexperiente, era natural que o “sucesso” me subisse à cabeça e eu, realmente, me achasse como o rei da cocada preta.

Certa vez, um equipamento apresentou defeito e vários técnicos já haviam tentado resolver o problema, mas desistiram. Fui chamado e cheguei ao local com o ar de “abram alas que eu quero passar”, cheio de arrogância, com o peito estufado feito pombo. Peguei a documentação do equipamento (esquemas, manuais, etc.) e iniciei as análises. Eram oito horas da manhã. Às cinco da tarde, eu ainda não havia resolvido e estava irritado com e minha própria demora, mesmo sabendo que o pensamento geral era “se ele não resolver, ninguém mais resolve”. Era uma questão de honra.

Neste meio tempo, chegou o Operador da máquina do turno da tarde. Ficou por ali, rodeando e olhando o que eu estava fazendo (o que me deixava irritado). Em determinado momento, perguntou se eu já havia verificado um sensor que (fazendo uma analogia para o leitor entender) estava no sul, enquanto eu estava concentrado no norte da máquina. Nem preciso dizer que “enxotei” o rapaz de perto e o tratei com aspereza. Quem aquele cara pensava que era? O Técnico aqui sou eu. Ele se afastou e eu continuei nas minhas análises onde havia parado e não queria sair.

Por volta da uma hora da manhã, totalmente esgotado, sem perspectiva e sem ideia nenhuma para resolver o problema, considerei a possibilidade de (como se diz neste meio) “jogar a toalha”. Antes, por curiosidade, fui olhar o tal do sensor que o Operador havia comentado comigo. E adivinhe! Era essa a causa do problema. O sensor estava com mau contato. Fiquei um bom tempo querendo provar que não era aquilo, que era apenas coincidência, que não fazia sentido, e tal. Mas o problema foi resolvido quando troquei a peça. Nem precisa dizer que fui considerado (de novo) um herói, mas eu não estava tão orgulhoso de mim mesmo naquele momento.

Por que o Operador sabia daquilo? O problema que eu estava tentando resolver, não era novo. Já havia acontecido antes. E sempre que acontecia, este mesmo Operador (sem saber o motivo), dava uma “pancadinha” no sensor e a máquina voltava a funcionar. Ele não tinha o conhecimento técnico, mas tinha a experiência.

Após esse episódio, repensei algumas atitudes. Claro que não foi de um dia para o outro, mas comecei a OUVIR as pessoas. Mais tarde, quando me tornei um Líder, adotei uma filosofia que me destacou entre outros profissionais com a mesma função. Eu fazia questão de OUVIR minha equipe os resultados foram espetaculares.

Escolhi este episódio que se passou comigo para exemplificar a ideia deste texto. É muito comum nos depararmos com pessoas que escutam, mas não ouvem. São indivíduos têm as suas próprias respostas, teorias e opiniões e não estão nem um pouco interessados em ouvir o que outros querem dizer. Estão fechadas a qualquer coisa que vá de encontro ao que elas acreditam.

O que se pode dizer a respeito desta atitude? A arrogância em pensar que apenas sua opinião é válida, apenas seus conceitos são coerentes, apenas sua verdade é absoluta, pode fechar valiosas portas para o desenvolvimento da consciência e para aquisição da sabedoria. Pessoas que nunca “baixam a guardam” se privam de aprender, de adquirir conhecimentos, de conhecer novas perspectivas. Infelizmente, acham que sabem tudo. Mal sabem que estão muito longe da verdade.

A dica deste texto é: Deixe de escutar e passe a OUVIR. Considere que você pode estar errado ou, pelo menos, que você não detém todo o conhecimento do universo. Ninguém sabe tudo, nem os mais proeminentes sábios. Mesmo as situações mais óbvias, pode haver um ponto escondido, a curva do anzol, que poderia mudar toda a regra do jogo. Nem tudo que reluz é ouro.

Se fechar para ouvir o que os outros têm a dizer por achar que apenas sua verdade deva ser considerada, é o mesmo que carimbar a testa com palavras como “ingênuo”, “ imaturo” e “intolerante”. Entretanto, ouvir e ponderar o que as pessoas têm a dizer e ainda considerar uma análise mais atenciosa, mesmo sabendo que vão de encontro aos seus conceitos e opiniões, é uma das mais puras manifestações de sabedoria.

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