Você é um gestor ou empreendedor?

É fácil ver como os três tipos executivos comentados até agora se complementam: o Administrador dá ao negócio a estabilidade necessária para que o Gestor possa concretizar as idéias do Criador. E o que dizer do quarto: o Empreendedor? Bem, este existe para ganhar dinheiro em cima dos outros três. Não por nada, é o mais charmoso, o que dá mais IBOPE, aquele com quem todos querem se identificar. Há, inclusive, grandes chances do caro leitor também se autodefinir como tal. E maiores chances, ainda, de estar equivocado. Num grupo humano qualquer, Empreendedores não passam de 5% do total. A proporção aumenta no âmbito empresarial (15%, dependendo do nível hierárquico), até porque as empresas sempre exigem algum grau de empreendedorismo das pessoas que contratam - mas não muito, pois também não é muito o que exigem e, sobretudo, menos ainda o que praticam. Por isso, é raro encontrar empreendedores felizes no interior de corporações. (Aliás, o mais provável é nem sequer encontrá-los! A maioria deles já foi embora em busca de novos horizontes). E não podia ser diferente. Empreendedores detestam trabalhar para outros. Afinal, eles querem é criar o próprio negócio! Assim sendo, por muito que as empresas tenham tentado promover a figura do intrapreneur - o empreendedor-executivo, objeto do presente artigo - ela dificilmente se sustenta na vida real. Contudo, de vez em quando, Empreendedores costumam fazer vôos rasantes por uma ou outra empresa...e a sua passagem, quando isso ocorre, é como a de um tornado: todos querem admirá-los, porém de longe. Costumam, enfim, encantar e assustar - ao mesmo tempo. Como se explica isso? É só ver o que os diferencia do resto dos tipos executivos: traços de personalidade como visão, energia, projeção pessoal e prepotência. · Visão - Empreendedores enxergam longe, onde a vista dos outros mortais não alcança. E o que enxergam não é apenas um produto inovador funcionando, mas um império industrial e comercial a ser construído em torno deste, produzindo rios de dinheiro, prosperidade, etc. · Energia - Empreendedores atropelam até ônibus. Possuem aquela substância indefinível que os americanos chamam de drive ou de edge, que faz um sujeito se sentir "todo-poderoso", capaz de mover montanhas... · Projeção Pessoal - Empreendedores são como logotipos ambulantes: querem deixar a sua marca em tudo o que realizam. O anonimato, a modéstia, o pudor profissional... é para quem não tem o que mostrar. Cresça e apareça é o seu motto. · Prepotência - No íntimo, empreendedores só reconhecem uma verdade: a deles. Tive a oportunidade de conhecer vários na minha vida profissional, gente que hoje figura entre os maiores empresários do Brasil ou coisa que o valha. Todos, sem exceção, eram donos da verdade, portadores de um ego sideral e profundos conhecedores de qualquer tema: música, química, charutos, mitologia...- e cada um dez vezes melhor do que o segundo da fila. Alguns deixavam isso mais evidente do que outros, mas as diferenças paravam por aí. Vai lá um testemunho. Anos atrás fui contratado pelo chefão de uma das maiores empreiteiras do Brasil. O trabalho consistia em recopilar tudo o que de relevante havia sido escrito sobre diversos temas de management - liderança, planejamento estratégico, comunicação, etc. Uma obra-prima. Entusiasmado, trabalhei durante meses, de sol a lua, até montar uma verdadeira enciclopédia de management. Aí, o sujeito pediu-me para relatar um tema por vez, uma tarde por semana. Dito e feito, compareci uma, duas vezes... Na terceira, peguei o boné e fui embora. Aquilo não passava de um pretexto dele para se ouvir a si mesmo desafiando Peter Drucker, Kotler e outros papas do management na época, de igual para igual. Não era ele melhor do que todos esses gringos teóricos? Nunca vou saber, apenas achei que não valia a pena ficar por perto para tirar a dúvida. Mas, ao César o que é do César: o protagonista da história ainda preside, e com pulso empreendedor reconhecido, uma das maiores empreiteiras do mundo. As quatro características anteriores, porém, talvez não sirvam para se identificar um Empreendedor na hora. Então, peça para o candidato em foco responder o Teste dos 4 Tipos, disponível no meu site www.juliolobos.com.br. Se for Empreendedor, porém, há 99% de chances dele nem se dignar a dar-lhe resposta. É que executivos desse tipo não acreditam em testes. Afinal, já sabem muito bem como são - por que um outro qualquer poderia saber disso melhor do que eles? Tente descobrir o Empreendedor a olho nu, então. Ele(a) irá se denunciar dois minutos após entrar numa sala onde houver pessoas trabalhando em conjunto. Pois no terceiro minuto ele(a) terá tomado conta do pedaço, da empreitada, do que for... O seu negócio é liderar, assumir, dominar... e, de preferência, em situações complexas e/ou críticas. É como se tivesse compulsão por assumir situações, outras pessoas, etc. Nada como a Paixão por ser livre, ditar as próprias regras... O que, por sinal, faz muito bem. Sedutor contumaz, o Empreendedor transmite seus insights entusiasticamente a outros, bem como a maneira de realizá-los. As pessoas destemidas em geral gostam de ser comandadas por este tipo de executivo. (Mas só as destemidas, pois as outras costumam ficar desorientadas, senão apavoradas, ante seus sonhos de grandeza e propostas de alto risco). Empreendedores são visceralmente competitivos - querem ser os primeiros em tudo. E territoriais, também - ocupam e disputam espaço o tempo todo. Estão, enfim, sempre combatendo, conquistando territórios. Dotados de senso político, não temem "peitar" os problemas surgidos no caminho. Uma vez em movimento, nada nem ninguém irá demovê-los. Imaginam-se invencíveis, não aceitam uma negativa como resposta. Uma idéia clara do empreendedor anterior é dada pelo livro The Soul of a New Machine, que relata a história do VAX, um minicomputador produzido pela Digital Equipment Corporation (DEC) na década de 70, o mais vendido em todos os tempos. Por incrível que pareça, o tal artefato foi desenvolvido clandestinamente por uma equipe de desajustados num porão perdido nas profundezas de uma das fábricas mais distantes do Escritório Central. Durante quase dois anos, sob a liderança de um engenheiro tão maluco quanto irreverente, esse mini-Exército de Brancaleone surrupiou verbas, ocultou equipamentos, contratou recursos sem autorização e falsificou documentos... até terminar uma máquina que ninguém lhes havia pedido. Felizmente para eles, no fim esta máquina revelou-se tão competitiva que a direção da DEC não pode deixar de comercializá-la... ganhando bilhões de dólares no ensejo. (Da equipe original, convém mencionar, muitos acabaram divorciados e com a saúde em frangalhos; enquanto vários também se demitiram uma vez encerrado o projeto). O maior mérito do Empreendedor, contudo, seria passar do planejamento à ação mais velozmente que todos os outros tipos executivos. Estrategista natural, ele enxerga instintivamente o Grande Quadro, distinguindo as questões principais, as conseqüências, as prioridades... Mas não fica nisso, pois também sabe conciliar as possibilidades visualizadas com os recursos disponíveis. À diferença do Gestor, que a miúdo faz acontecer eventos programados, números, fogos de artifício, o Empreendedor "produz" soluções para problemas críticos, mudanças estruturais... Pelo visto, as empresas deveriam disputar os Empreendedores a tapa e lhes dar plenas condições para exercer seus talentos. De fato, é o que seus dirigentes vivem dizendo. Como se explica, então, a alta taxa de deserção dos ditos cujos? Ironicamente, o principal problema dos empreendedores é o de que a organização a que servem fica pequena para o tamanho de suas idéias, sonhos, ambições... e o próprio ego. A sua capacidade para equilibrar contradições - exigências técnicas versus valores humanos; estratégias versus táticas; planejamento versus ação... - por exemplo, é soberba. Mas de que vale, se não tiverem onde praticá-la? NAlgo parecido atinge a capacidade conceitual, também muito desenvolvida na espécie. Para os Empreendedores, uma empreitada só faz sentido se atrelada a uma missão, um objetivo superior. Nisso, não se diferenciam dos Criadores, mas o seu escopo é mais amplo; a sua mira, mais elevada. Enquanto estes se dão por satisfeitos se a organização lhes garantir um nicho para implementar suas idéias, os Empreendedores sentem-se com direito a interferir no próprio negócio! Interferências que, lembremos, são baseadas em insights - visões, enfim, reservadas a poucos mortais. Mas quem, numa organização, voa alto o suficiente para perceber missões, objetivos superiores e coisas do gênero? Resposta: o CEO dela, e olha lá. Portanto, ou você coloca o Empreendedor logo à frente de um negócio com princípio, meio e fim... ou nada feito: o sujeito logo irá embora, mas não sem antes ter infernizado a vida de muitos. Empreendedores famosos? No exterior, Thomas Watson Jr., filho do fundador da IBM, por exemplo. Um belo dia, nos anos 70, atreveu-se a empatar três anos de faturamento do colosso da informática - US$ 5 bilhões! - num único modelo de computador, o 360. Deu-se bem - o que a IBM é hoje ainda deve-se a essa sua jogada de altíssimo risco. No Brasil, poderia mencionar os atuais dirigentes da Datasul e a Microsiga, ambos ex-executivos. Mas, cuidado, não é destes empreendedores que o presente artigo trata, mas dos que criam e tocam novos empreendimentos enquanto ainda empregados em alguma empresa que não lhes pertence. Gente como Gugu Liberato, que ainda permanece fiel ao Sistema Brasileiro de Televisão, embora tenha condições para tentar um vôo solo; ou Antônio Maciel Neto, executivo de carreira (Petrobrás, Eliane, Itamarati), a quem a Ford Motor Co., num lance inédito, recrutou no mercado para tentar revitalizar sua combalida operação no Brasil. Enfim, você gostaria de trabalhar com um Empreendedor? Noventa e nove por cento de chances da sua resposta ser afirmativa - a aventura, a adrenalina, a dinâmica... é o que vai usar como justificativa, eu sei. Na prática, porém, duvido que o seu entusiasmo prevaleça por muito tempo. Vejamos: · Para começar, Empreendedores usam a franqueza como arma. Você sabe o que eles querem (e querem de você), porque assim o dizem. E sabe do que gostam, porque convidam você a desfrutar aquilo, junto com eles. Empreendedores, enfim, não ficam à espera de verdade, saem a sua procura! Só que vivemos num mundo que não funciona assim, tão em campo aberto. A ambigüidade, o deixa-disso e até a mentira são os ungüentos que mantêm a sociedade coesa, em pé. · Empreendedores também são solitários psicológicos - rodeados de gente, permanecem distantes, intocáveis. São simpáticos, mas nada empáticos. No seu conceito, as outras pessoas é que têm de se aliar a eles, e não o contrário! Eles vivem testando os outros, agressivamente: até onde você é leal a eles? Ou está compromissado com a causa? Ou é capaz de honrar o que diz? Agora, cá entre nós: quem é que agüenta tanta cobrança? · O maior defeito dos Empreendedores, todavia, chama-se arrogância. Muito inteligentes e rápidos para detectarem "onde a coisa pega e qual a solução definitiva", não têm paciência para esperar pelos mais lerdos ou menos dispostos a correr riscos. Ao contrário, irritam-se quando estes reclamam, mesmo que polidamente, de serem maltratados. Acostumados a energizar platéias com visões e apelos, não aceitam serem percebidos como abruptos ou abrasivos! · Um crônico menosprezo pelo detalhe, pelo óbvio e pelo conhecido também pode levar os Empreendedores a decisões prematuras ou a soluções de difícil implementação. Pior ainda: o risco deles entrarem em confronto com o establishment é quase certo, dada a sua propensão a ignorar normas consideradas "inócuas". · Igual aos Gestores, Empreendedores criam códigos pessoais de conduta que superpõem as normas da empresa. Por um lado, dão assim a sua gestão uma identidade toda especial; por outro, escravizam a si mesmos, e aos que lideram, de maneira dogmática. Para um Empreendedor, "Ser pontual" pode significar "Chegar antes da hora". E cobrará de terceiros - e de si próprio! - tal exagero como se fosse uma lei. · Finalmente, dos quatro tipos executivos, o Empreendedor é o mais focado na glória, na fama. A sua ambição nesse sentido é imensa; cada "grande empreitada" é para ele um degrau a mais nessa escalada. Vencê-la, enfim, é o que importa; nem que seja pagando um alto preço em termos de sacrifício pessoal e familiar. Sabendo-se superior, chega a ser algo messiânico. Não é raro flagrá-lo transformando visões em revelações! ARTIGO RETIRADO DA REVISTAR VENCER.
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