Você acha que o problema são os taxistas?
Você acha que o problema são os taxistas?

Você acha que o problema são os taxistas?

Esta não é uma discussão sobre táxis e Uber. É sobre nossa cultura e paradigmas que estão extremamente arraigados em nosso dia a dia

Recentemente, a briga entre o aplicativo Uber e os taxistas tomou as páginas dos jornais e os murais de opiniões na Internet. Eu poderia escrever que o Uber blá e os taxistas blá, blá. Mas acho que tudo isso não passaria de uma grande perda de tempo.

Para entendermos essa briga, precisamos ir além, falar um pouco da nossa cultura e da herança histórica dos sindicatos, conselhos e outros órgãos que dizem representar alguma classe.

Vou começar por mim. Há muito, muito tempo, minha primeira publicação no Administradores foi sobre quem poderia ou não ser “administrador”. Minha posição, naturalmente, é de que não só em Administração, mas em qualquer área, quanto mais dificuldades se criam para as pessoas participarem, pior para a inovação e renovação da atividade.

Eu não sou administrador. Bem, apesar de eu possuir minha própria empresa, ter vendido mais de 10 mil livros sobre Administração (depois disso, parei de contar, juro), ter um mestrado em Administração e quase completado um doutorado, o Conselho de Administração não me considera administrador.

Não que isso me incomode. Minha carreira vai muito bem, obrigado, sem uma carteirinha boba. O que quero dizer é que se você é contra a briga de taxistas com o Uber, mas a favor da diversidade de sindicatos e grupos profissionais que existem no nosso país com o objetivo de “proteger" seu mercado, você é um hipócrita.

Para entender isso, precisamos voltar no tempo e falar das guildas da Idade Média, entidades como nossos conselhos e sindicatos de hoje, que existiam somente para proteger e criar regras para suas respectivas classes profissionais. Você poderia ser o maior artista do mundo, mas, sem acesso à sua respectiva guilda, corria sérios riscos, e dificilmente conseguiria sobreviver, ou até viver, nesse período. Entrar em uma guilda significava passar por vários anos sob a tutela dos membros estabelecidos, em alguns casos, servindo-os como bem entendessem, de faxinas a atividades mais, digamos, íntimas.

Esses órgãos evoluíram pela revolução industrial e chegaram ao formato de hoje. Dizem ter outros objetivos, mas, na verdade, grande parte de seu dia a dia é voltado a vasculhar o mundo por oportunidades de multar exercícios ilegais de profissão e proteger os mercados de seus participantes.

Em defesa, geralmente usam o velho e bom exagero: “Você não seria operado por alguém sem reconhecimento profissional, não?” Exatamente. Em algumas profissões, como medicina e engenharia, há riscos bem diretos envolvidos. No mínimo, quero saber qual o posicionamento oficial de um conselho de Medicina sobre terapias alternativas como acupuntura, ou saber que tipo de profissional está habilitado a serrar meu crânio antes de me aventurar por algum tratamento.

Aproveitando-se dessas exceções, sindicatos no mundo todo (não só aqui, diga-se de passagem) usam e abusam de suas prerrogativas para defender os campos de mercado de seus membros, cobrando suas taxas por isso, enquanto lutam para dizer quem pode ou não pode entrar na brincadeira. São os “donos da bola” do mundo dos adultos.

Infelizmente, ao protegerem quem está dentro, limitam a atuação de uma maioria que pode ser inovadora, trazer uma visão de fora que funcione melhor ou, no mínimo, seja interessante, e reduzem a capacidade de um setor de se reinventar. Se você julga os taxistas, mas muda de cor ao falar de quem atua ilegalmente na sua profissão, caro leitor, desculpe, mas pimenta nos olhos dos outros é refresco.

Já passou da hora de uma mudança de mentalidade. O que é bom para alguns nem sempre é bom para a maioria.

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