Café com ADM
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VIVAS AO “EMPREGADO”!

Certo dia adentrei em uma loja de departamentos de uma grade cadeia varejista. O aroma agradável inebriou meu olfato. O cenário composto de estantes e cabides rigorosamente dispostos segundo a competente orientação de algum designer trazia-me uma mistura de prazer e de poder. Poder de gastar mediante as generosas e atrativas ofertas. O sistema de som, cadenciando uma voz macia e melodiosa e, ao mesmo tempo, automatizada pela repetição, penetrava em meus ouvidos de forma imperceptível, em meio àquele fascinante cenário enquanto, paradoxalmente, mostrava-me uma parcela da politicamente-correta gestão estratégica de Recursos Humanos: -Colaboradora Grace, comparecer ao atendimento ao cliente!. A frase era simples, objetiva e também comum em outras lojas do mesmo perfil. Todavia, algo de errado ela mostrava em meio àquela fulgurante imagem e ambiente como um todo. Tive a forte impressão que ali, naquele contexto, a palavra colaboradora era inadequada. Uma breve seqüência de perguntas a funcionários diferentes mostrou-me que para o colaborador aquela organização não estava, pelo menos para os que perguntei, atendendo aos seus anseios. Entendo tal termo como alguém que labora (trabalha) junto, todavia, sem a posição igual ao que dirige e orienta. O termo trás o significado de alguém que participa da construção de algo tendo, ou não, a responsabilidade com o produto final. Olhando por outra perspectiva, o termo empregado não tem nada de pejorativo. Sequer, o termo funcionário é desqualificante pois a pessoa está sendo utilizada em uma função, numa razão de estar em um meio produtivo. Enfim, há uma propriedade e pertinência do empregado ou funcionário em um contexto mais amplo. Sem a pessoa nele empregada o objetivo não é atingido. Acredito ter havido uma conjunção inoportuna de eventos em um mesmo período de nossa história econômica. O boom de especialistas em qualidade no trabalho e qualidade de vida no trabalho aliado, à nossa indefectível visão sócio-religiosa do trabalho como atividade em si mesmo contribuíram, sobremaneira, para o desgaste da palavra como ferramenta de qualificação profissional. O trabalho sendo destino (ou sina) dos menos qualificados, dos não pertencentes às cortes ou castas. O trabalho visto com castigo, peso, ultraje. Dignificar uma pessoa pelo trabalho, por seu valor, pela expertise e excelência que ela aplica em uma determinada tarefa, ou função, é essencial nas relações humanas. Assim, colaborador, empregado e funcionário, são termos que guardam similaridades, estando todos em um mesmo plano como coadjuvantes dentro de um significado organizacional maior. O empresários ou empregadores aplicam (empregam) a competência e a expertise de um profissional para atingir um determinado objetivo organizacional. O que há de errado nisto? Por que é menos dignificante chamar um profissional de empregado? Costumo dizer a meus subordinados, este outro termo que não considero pejorativo, nem quando os meus chefes assim me qualificam, que o respeito é uma dimensão extrínseca em sua dinâmica. É verdade que adaptei o conceito de extrínseco em si, mas era importante para a mensagem. A pessoa projeta no outro, através de suas atitudes posturais (e também intelectuais, se me permitem!) o respeito que lhe é devido. Ela influencia, no outro, a percepção da reverência silente, do respeito, da aceitação, da pertinência que lhe são devidos. Como exemplo do que disse, cito minha ex-empregada doméstica que contratei, por telefone, antes de me mudar para uma outra capital. Após uma densa negociação ela manteve-se firme em sua qualificação salarial e garantiu-me que o montante que ela pedia valeria pelo seu trabalho. Após o terceiro mês passei a lhe conceder bônus de produtividade. Em sua simplicidade e competência ela se impôs e eu me curvei frente à sua excelência. Seria tão demeritório chamá-la de empregada? Ela, por sua vez, tinha orgulho de sua carteira profissional. Ela sabia do porque de lhe chamar de empregada, pois ela detinha (só dela) aquele emprego, aquela ocupação profissional especializada e passou a ser insubstituível para nossa família. Ao longo de minha carreia deparei-me com excelentes profissionais que me impuseram o respeito ao seu trabalho, antes e após este boom de termos de consultorias. Fazia questão de numerar referências para outras empresas no momento em que se desligavam da organização. Um merecido tributo. Era obrigatório sob o ponto de vista moral. Por que manter esta figuração do empregado explorado e subvalorizado? O que, de fato, a troca de termos mudaria nesta perspectiva social? O empregado aumentaria sua produtividade se chamado de colaborador? Faria ele corpo mole ou processaria por danos morais quem viesse a lhe chamar de funcionário ou empregado? Quais são os espaços físicos e conceituais que as organizações dão aos seus colaboradores? Qual é a dimensão dos alojamentos? Como é o conforto os refeitórios? O lay out e a ambiência lhes são propícias a aplicar toda a sua energia e expertise no trabalho? Você, colaborador que está lendo este artigo, tem suas opiniões consideradas e aplicadas em um processo decisório da organização que trabalha? Em caso afirmativo, qual seria o problema de chamá-lo de empregado? Em que você se sentiria diminuído? Acredito, por fim, que os neologismos não modificam culturas por si sós. As iniciativas e atitudes patronais que vêm agregadas ao termo é que são mais importantes. Valorizar a pessoa pelo que ela produz, não só nos salários e benefícios, mas também nas ações simples e subliminares exercem um efeito mais positivo. Jefferson Santos shoppering@uol.com.br
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