Café com ADM
#

Venture Capital arrisca pouco

Entre 1992 e 2002, o venture capital norte-americano só apoioi 2,5% das start-ups verdadeiramente inovadoras. Um artigo polémico escrito por dois capitalistas de risco.



O «venture capital» (traduzido em português por capital de risco) é pouco amigo de arriscar na inovação em tecnologias de informação e comunicação (TIC). Em dez anos, apenas 2,5% das start-ups norte-americanas em TIC, apoiadas pelo capital de risco e que realizaram IPO (entradas em bolsa) no Nasdaq ou no New York Stock Exchange (NYSE), se revelaram efectivamente inovadoras no mercado. Paradoxalmente, nos cinco anos de euforia da Economia Digital, conta-se pelos dedos de uma mão o número de empresas emergentes que transformaram os sectores e nichos onde nasceram e que foram apoiadas por capitalistas de risco. É o primeiro estudo estatístico sobre o impacto do «venture capital» na inovação, realizado por «insiders», da Signal Lake Management LLC, uma capital de risco de Boston. O trabalho foi, agora, publicado na revista Spectrum, do prestigiado IEEE (Institute of Electrical and Electronics Engineers, Inc), e revela os quatro «pecados» do referido capital que, segundo estes críticos, não honrará o nome.



O leitor ficará chocado são apenas 20 as empresas de TIC verdadeiramente inovadoras entre 1992 e 2002 que foram apoiadas pelo capital de risco e que se cotaram em bolsa, num universo de 823 financiadas e que realizaram IPO no Nasdaq ou no NYSE. A maioria nasceu no período entre 1992 e 1996, onde encontramos nomes conhecidos como Yahoo!, RSA Security, Pixar, Veritas Software e Versant, por exemplo. No período áureo da «bolha», o tiro certeiro ainda foi escandalosamente menor apenas uma mão se revelou inovadora: Akamai, VeriSign, Ciena, Inktomi e RealNetworks, foram as únicas, entre 1997 e 2002, que passaram no crivo desenvolvido por Bart Stuck e Michael Weingarten, os autores do estudo, que são donos da Signal Lake. O título escolhido para o artigo foi, desde logo, sugestivo: Como o Capital de Risco impede a inovação.

A conclusão é imediata: a maioria das start-ups em que o «venture capital» interveio não produziu inovação digna de nota. A frase lapidar usada é esta: «A bolha foi um maná para as start-ups, mas um desastre no que toca a ideias verdadeiramente originais». A correlação entre capital de risco e inovação é, por isso, considerada «muito fraca». Investir no que é emergente é algo que é deixado à sorte dos próprios empreendedores, dos amigos e da família, e de alguns «business angels». «Os capitalistas de risco são muito avessos ao risco e estão pouco virados para apoiar ideias e conceitos verdadeiramente inovadores», escrevem no artigo. Toda a lógica do «venture capital» está montada para apostar na extensão do que se conhece como provado ou entra na moda há uma tendência psicológica para um comportamento seguidista: «Eles adoram as modas. Então vemos uma multidão de operações que são variações sobre o mesmo tema». Uma conclusão que não é nova, que se houve na boca da maioria dos empreendedores inovadores, mas que agora está suportada empiricamente.


4 pecados originais

A razão para estas costas viradas ao risco é imputada ao «sistema» de funcionamento das capitais de risco, baseado em quatro «pecados» originais: cada fundo de capital tem um ciclo de vida curto, o que impõe uma lógica de curto prazo; há pouca capacidade técnica para compreender tecnologia; existe a tendência para a sedução pelos empreendedores em série, habilidosos na feitura de planos de negócio (os famosos «business plans» - há mesmo uma indústria de consultoria em seu torno) e nos discursos de elevador («elevator speech», ou a arte de vender o peixe em poucos minutos no ascensor); horror a optar em contra-ciclo, vício de agir em «manada» seguindo o «vaporware» ou o pessimismo.

O antídoto, dizem os dois autores, é apreciar uma start-up pelos seus méritos, não ligando ao que é a moda do dia e descartando os registos do passado».

O artigo provocou, no entanto, um aceso debate e colheu muitas críticas nos «blogs» da especialidade, sobretudo pelas exclusões que fez no filtro que aplicou. Sublinhe-se que os autores eliminaram do universo de análise 21 spin-offs de grandes companhias (em alguns casos truques de contabilidade ou lavagem de cara), seis inovadoras que entretanto foram absorvidas por outras empresas (e que deveriam, mesmo assim, ter sido incluídas, dizem os críticos), e 459 «dot.com» da área do comércio electrónico entre elas monstros sagrados, como a eBay e Amazon.com. Por uma razão, dizem Bart e Michael: as verdadeiras inovações no «e-commerce» aconteceram no MIT Media Lab de Nicholas Negroponte e com a criação da OnSale (criadora dos leilões na Net), que se fundiu com a Egghead, acabando por ser comprada em 2001 pela Amazon quando entrou em falência. Os críticos alegam que, algumas delas, inovaram nos modelos de negócio, e que isso deveria ser considerado inovação.


Fontes:
- Artigo: «How venture capital thwarts innovation», Edição de Abril 2005. Disponível em: http://www.spectrum.ieee.org/WEBONLY/publicfeature/apr05/0405vcap.html
- Uma das críticas: http://www.patentchronicles.com/archives/20050408/flawed-article-on-whether-vcs-are-bad-for-innovation/




ExibirMinimizar
CEO Outllok, A era da liderança resiliente. Confira os Resultados.