Universidade, anarquia organizada e estratégia

A visão precipitada da universidade como uma anarquia organizada pode levar a conclusão de que nela a estratégia não possa ser planejada antecipadamente. Apesar de caracterísiticas de anarquia, concorda-se com Freidberg de que isso não pode ser considerado de forma ortodoxa.

A noção de anarquia organizada, inventada por Cohen et al (1972) difere radicalmente de uma burocracia bem organizada, de uma organização coesa e coerente ou do processo consensual do modelo colegiado. É característica de uma organização na qual os recursos disponíveis permitem que as pessoas sigam em diferentes direções sem coordenação de uma autoridade central. Os líderes são relativamente fracos e as decisões são tomadas a partir da ação individual de cada membro ou de um grupo definido, sendo que as decisões são geradas por processos não-planejados e emergentes, uma vez que os objetivos organizacionais são ambíguos e a participação é fluida. Em tais circunstâncias fluidas, o reitor e outros líderes institucionais servem primariamente como catalisadores ou facilitadores de um processo contínuo. Eles não comandam, mas negociam; não planejam racionalmente, mas tentam aplicar aos problemas, soluções pré-existentes, ou seja, as decisões não são "feitas", mas elas "acontecem" (BALDRIDGE, 1983).

Cohen e March (apud BALDRIDGE, 1983, p. 9) descrevem o processo decisório em uma anarquia organizada:

Como conjunto de procedimentos através dos quais os participantes organizacionais chegam a uma interpretação do que eles estão fazendo e do que eles têm feito enquanto eles estão fazendo essa busca. Deste ponto de vista, uma organização é uma coleção de escolhas diante de problemas, de temas e sentimentos que procuram por decisões que precisam ser repensadas, de soluções que buscam temas que possam oferecer respostas, e gestores que buscam trabalho.

A liderança da anarquia organizada pode também assumir uma postura política, mas suas estratégias são diferenciadas do modelo político. Com vistas ao objetivo de exercer influência sobre outros tipos de organização os autores argumentam que os líderes devem:

Despender tempo, persistir, trocar status por substância, facilitar a participação de oponentes, sobrecarregar o sistema, fornecer 'latas de lixo' para atrair e desmontar os assuntos em debate, gerenciar simbolicamente, e interpretar a história, por exemplo, reescrevendo as atas de reuniões (HARDY; FACHIN, 2000, p. 172).

Uma das características desse modelo é a participação fluida nos processos de decisão, "ou, se preferirmos uma fraca estruturação dos mesmos: é fácil entrar ou sair dos processos de decisão, de neles introduzir novas preocupações ou de inferir outras a partir deles" (FRIEDBERG, 1993, p. 73).

Apesar de muitas vezes, de forma apressada, as universidades serem consideradas instituições totalmente anárquicas, é difícil identificar uma estratégia no processo anárquico, mas pode este representar, certamente, em alguns eventos, uma fase do processo estratégico. Também, a participação fluida vai de encontro aos estabelecimentos de laços estruturais, mais apropriadas à existência de determinados grupos. Essas duas questões corroboram com as críticas de Friedberg (1993) caso se adote este modelo de forma ortodoxa, pois este parece tratar as decisões estudadas como excepcionais e os atores participantes como passivos em uma perspectiva descontextualizada.

Isto não impede de considerar que algumas organizações, e especialmente as universidades e as escolas, possuem algumas características de anarquias organizadas ou são sistemas frouxamente acoplados (loosely coupled systems), como mais tarde especificados por Weick (1976).

Essa fragmentação provocada pela ambigüidade e pela complexidade da organização universitária de alguma forma precisa ser contrabalançada por algum elemento integrador. Papel da cultura organizacional, a ser abordada no próximo artigo.

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