Uma Suíça, um estado e uma ópera do malandro

Quem não escuta cuidado, escuta coitado.

Algumas semanas atrás, a população suíça foi às urnas para decidir acerca da aprovação ou não de uma renda mínima mensal a todos os cidadãos locais. Essa renda, que seria custeada pelo governo local e custaria algo em torno de R$ 9.000,00/mês por habitante, foi rejeitada pela própria população, cujo país é uma referência em desenvolvimento econômico-social. A alegação para tal recusa é a de que tal medida traria grandes impactos negativos para as contas públicas nacionais, estimularia a “desídia” de seus cidadãos e feriria os valores da sociedade suíça, segundo os quais o trabalho edifica e enobrece o ser humano.

E o que isso tem a ver com o título deste texto?

Pois bem. Passando do hemisfério norte para o hemisfério sul, observamos a existência de uma nação em que muitos vivem com pouco e poucos vivem com muito à custa do desconhecimento dos muitos. E essa nação, doravante chamada neste texto de Assis, possui um estado-membro com cerca de 17 milhões de habitantes e com um PIB nominal estimado em 600 bilhões de reais (nome fictício da moeda de Assis). Esse estado, doravante denominado Bentinho, é conhecido por muitos como a “terra da malandragem”, sendo a sua capital a fonte de toda a malandragem do universo.

Durante tempos, Bentinho sempre acreditou que “malandro é malandro e mané é mané”. Em vista disso, Bentinho sempre foi conivente com a malandragem: achou bacana furar fila, acelerar o veículo no sinal amarelo e não parar no sinal vermelho, construir barraco na encosta de morro, dar e aceitar propina e criar dificuldades para ganhar com facilidades.

No campo da Administração Pública, Bentinho sempre ignorou a necessidade de transformação social dos menos favorecidos, negligenciou a importância do planejamento de longo prazo, sucateou seus serviços públicos e os “terceirizou” para amigos empresários, entidades do terceiro setor e até para traficantes e milicianos, como se verifica na “segurança” e nos transportes de algumas das comunidades mais carentes de Bentinho.

Exemplo do exposto acima vemos no subúrbio e na parte ocidental de sua capital, bem como no entorno de sua região metropolitana: na base do pão, do circo, de ideologias alienantes e da opressão de grupos armados, milhões de pessoas vivem em territórios em que milicianos, traficantes, “líderes espirituais” e políticos oportunistas mandam mais do que o próprio Poder Público.

Porém, para Bentinho, malandragem pouca é bobagem. Também era preciso sediar eventos culturais e desportivos de grande porte, a fim de fazer barulho e chamar a atenção de sua população, da população de todo o Assis e, até mesmo, de todo o mundo. Foi quando Bentinho teve a ideia genial de apoiar uma Copa do Mundo em Assis e de sediar os Jogos Olímpicos, enquanto sua população carece de educação e saúde de qualidade e vive oprimida pela escalada da violência praticada por traficantes, milicianos e outros tipos de gângsteres.

E tais pretensões surtiram resultados: além de sediar o atual “maior espetáculo cultural da Terra”, Bentinho conseguiu sediar a final de uma Copa do Mundo e sediará as Olimpíadas. Para que tal malandragem fosse plena, Bentinho empregou bilhões de reais em recursos públicos para construir e reformar estádios, abrir corredores expressos de ônibus e erguer vilas olímpicas para atletas e delegações, dando uma nova roupagem à sua capital, que tenta parecer com Paris, mas que é caótica como Bangcoc e cheira a esgoto como Manila.

Contudo, o que importa para Bentinho é a imagem, e não o conteúdo. Afinal de contas, segundo a própria filosofia de vida de Bentinho, para que pensar em estrutura para o amanhã se o que é do outro dá para gastar com maquiagem ainda hoje?

Como consequência desse jeito malandro de ser de Bentinho, a segunda maior economia de Assis convive com uma grave crise econômico-financeira, que se reflete na precarização dos já precários serviços públicos de Bentinho, no quadro de degradação ambiental dos rios e lagoas de sua capital e na intensificação da violência.

Todavia, apesar de tal estado de coisas resultante da malandragem de Bentinho, suas principais forças políticas resolveram somar forças, tal como num episódio do desenho do Capitão Planeta, e buscaram novas formas de malandragem para se locupletarem com o que é do outro, com destaque para:

  1. Decretação de estado de calamidade pública, com vistas à facilitação da captação de recursos do governo de Assis;
  2. Renegociação da dívida que possui com Assis, de maneira a estabelecer um período de carência e rever a metodologia de cálculo dos juros dessa dívida; e
  3. Apoio ao lobby de interesses econômicos de cunho duvidoso, de moral questionável e com elevado potencial para a facilitação de atividades financeiras ilícitas, como cassinos, comércio de entorpecentes e terceirização irrestrita de atividades finalísticas em organizações públicas e privadas.

Isso posto, de qual lado você prefere permanecer: dos suíços ou dos malandros?

Um forte abraço a todos, força, fé e luta para Assis e Bentinho e fiquem com Deus!

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