Café com ADM
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Uma reforma que dá certo exige simplicidade e a menor presença possível do Estado

O relógio marcava seis e vinte da manhã do dia dezoito de julho deste ano. A temperatura girava em torno de sete graus em um frio que me deixava imóvel e acabrunhado dentro do carro. De repente, vi uma cena que me deixou atônito. Na calçada do posto do INSS da cidade, senhoras de idade avançada e idosos tremiam de frio aguardando em uma fila para serem atendidos. Imaginando que devia escrever sobre a cena, parei o carro e perguntei a um senhor na esquina há quanto tempo ele estava naquela situação de espera e a resposta só reforçou a minha indignação, pois, segundo ele, pela quarta vez ele estava tentando ser atendido pelo órgão responsável por uma perícia e que sempre chegava ao local, inclusive naquele dia, por volta das quatro horas da madrugada. Eu não contei, mas devia haver cerca de sessenta a setenta pessoas naquela situação humilhante, criminosa e de total desrespeito. Eu almoço, todos os dias, em um restaurante próximo ao posto do INSS e naquele dia não foi diferente. Dessa forma, por volta das treze horas eu cheguei para almoçar e vi algumas daquelas pessoas que já havia visto mais cedo e presenciei, também, a segunda cena que me deixava atônito e indignado: duas senhoras, de idades avançadas, repartindo um mesmo prato de comida porque cada uma só tinha cinco reais e precisavam esperar o ônibus da prefeitura, que chegaria às dezessete horas e meia, para leva-las de volta para casa. Essas cenas me levaram a fazer a seguinte pergunta: porque, no Brasil, os governos são tão incompetentes e medíocres nas coisas que eles devem fazer? Na busca de respostas, resolvi não ir atrás de nenhuma teoria clássica que pudesse me esclarecer tal indagação. Com dados dos gastos públicos, apenas da área social da cidade de Campo Mourão, eu escolhi, simplesmente, fazer a minha própria teoria. Sendo assim, analisando esses dados, descobri que no ano de 2004 o município de Campo Mourão gastou com recursos próprios, estaduais, federais e outros: 55.000.00 em serviços funerários; 270.000.00 em transporte escolar; 506.000.00 em habitação popular; 572.500.00 em assistência à criança e ao adolescente; 250.000.00 em segurança pública; 2.526.795.00 em assistência comunitária; 3.349.000.00 em assistência social; 14.250.000.00 em educação e 23.800.000.00 em saúde. A soma disso tudo nos mostra que o município de Campo Mourão gastou no ano de 2004 um total de 45.579.000.00 em programas sociais. Agora observem o seguinte, o município de Campo Mourão tem, aproximadamente, oitenta mil habitantes distribuídos em cerca de vinte mil famílias. Desse total, há, aproximadamente, três mil famílias que ocupam os segmentos sociais que vão da miséria absoluta ao estado de pobreza, num total de, mais ou menos, doze mil pessoas. Pois bem, se pegarmos os 45.579.000.00 e dividir por 12 (os meses do ano), teremos um total de 3.798.250 (a quantia de dinheiro que o município disponibilizou, mensalmente, durante o ano de 2004 na área social). Continuando a matemática, se pegarmos esse montante de dinheiro utilizado todo mês na área social e dividirmos pelas 3.000 famílias de pobres e miseráveis que existem na cidade de Campo Mourão, cada uma dessas famílias teria uma renda mensal de 1.266.00. Imaginemos por um momento que isso acontecesse. Se, de repente, as 3.000 famílias de pobres e miseráveis de Campo Mourão ganhassem uma renda mensal de 1.266.00 reais quais mudanças ocorreriam nas vidas dessas pessoas e quais mudanças ocorreriam na cidade? Em primeiro lugar, o comércio seria beneficiado imediatamente com 12.000 pessoas com poder de compra. A consequência natural de tal mudança seria um aumento substancial no nível de arrecadação de impostos possibilitando, inclusive, a diminuição dos mesmos sem prejuízos para o erário. Com a diminuição da carga tributária e mais gente comprando, teríamos um aquecimento significativo na geração de emprego e renda, aumentando ainda mais o poder de compra das pessoas e a arrecadação pública. Ou seja, a cidade entraria em um ciclo de riqueza auto-sustentável. Mas, muitos podem argumentar, com razão, que isso só seria possível se acabássemos com os serviços públicos, tais como a saúde, a educação e a assistência social e comunitária. É verdade. Mas, quem, ganhando 1.266.00 por mês precisaria de tais serviços? Isso sem falar que o fim dos mesmos seria um avanço social sem precedentes, pois teríamos pessoas com capacidade de pagar seus próprios planos de saúde, que funcionam infinitamente melhor que o sistema público de doença que temos; teríamos pessoas que poderiam pagar pela educação dos filhos, aquecendo o mercado educacional e forçando os preços para baixo e teríamos pessoas comendo mais e melhor e morando de forma mais sadia e digna. Falando nisso, se teríamos pessoas morando melhor e se alimentando de forma mais sadia, não teríamos tantos doentes e isso seria refletido no sistema de saúde, com menos doentes e menos gastos. Os filhos poderiam crescer na companhia das mães, o que poderia diminuir drasticamente a violência juvenil e teríamos pessoas que poderiam até planejar e pagar a sua própria previdência para não precisarem, no futuro, passar pela humilhação e pelo desconforto de terem que morrer de frio em uma fila dias a fio sem a perspectiva de, pelo menos, receberem uma satisfação. Mas, porque nenhuma mudança nesse sentido é realizada? Porque o sistema administrativo brasileiro foi construído e é mantido para funcionar exatamente da forma que funciona. Ou seja, de uma forma incompetente, corrupta, desonesta e mantenedora de um estado de mendicância necessário para alimentar a roubalheira geral e a cabidagem descarada e desenfreada de aduladores profissionais e parentes de políticos, muitos deles incompetentes, em empregos públicos. E, também, porque uma reforma que dá certo exige, apenas, estudos e simplicidade com a menor presença possível do Estado e se assim é, não resta espaço para as pessoas roubarem em nome do social. É por isso que os governos são tão competentes em incompetência.
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