Uma biblioteca em Angola, na África
Uma biblioteca em Angola, na África

Uma biblioteca em Angola, na África

Muitas foram as dificuldades para que esse acervo chegasse a seu destino, mas, graças à persistência, ele se tornou um empreendimento vitorioso

Desde pequena sempre sonhei em conhecer a África e fazer um trabalho missionário lá. Embora eu não tenha tido a possibilidade de visitar esse país até hoje, pois trilhei outros caminhos para realizar outros sonhos, sempre pensei que realizar o meu desejo seria apenas uma questão de tempo!

Foi por meio da Associação Pequeninos do Senhor, da qual eu sou Fundadora e estou Presidente, que, curiosamente, surgiu a possibilidade de eu concretizar o meu anseio. Essa Associação desenvolve um trabalho, desde 1997, com crianças na primeira infância em Campinas, estado de São Paulo, e já possui mais de 180 projetos implantados em quase todos os estados do Brasil e além fronteiras nacionais.

Pois bem, um dia, eu recebi um email, vindo de um padre de Luanda, solicitando a implantação desse projeto na sua Paróquia. Dado o inusitado do fato, resolvi, eu mesma, fazer uma ligação internacional para falar diretamente com ele e saber como ele havia conhecido o projeto e como intencionava implantá-lo lá.Ele me atendeu, falando português com sotaque diferente e me disse que era um missionário italiano Salesiano, em missão em Angola. Contou também que acolhia, semanalmente, 600 crianças nas suas missas, juntamente com suas famílias. Ele havia conhecido o projeto pela internet, quando fazia uma busca no Google, pela palavra-chave “crianças na missa”. Desejou, então, adquirir a nossa expertise para evangelizá-las.

Isso me causou uma grande alegria, por dois motivos: primeiro porque aquele projeto que nasceu despretencioso se agigantava e cruzava mais uma fronteira além América. Ele já era uma realidade no Japão, na Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro; na Diocese de Quioto, em Nagahama-shi, no estado de Shiga-ken, em uma comunidade de brasileiros. Segundo, porque o meu sonho de implantar um trabalho missionário naquele país estava prestes a se concretizar.

Assim, em abril de 2010, implantamos o Pequeninos do Senhor na Paróquia São Paulo, na Comunidade Bom Pastor, no bairro Mota, o mais carente de Luanda, capital de Angola, país de língua portuguesa da África.

Como nada acontece por acaso, eu e o padre ficamos “amigos” no facebook e encontrei, dentre seus amigos, um rapaz missionário que mora em Campinas e que já o conhecia pessoalmente, pois tinha feito um trabalho de capoeira com os jovens e as crianças daquela localidade – Comunidade Bom Pastor, em Luanda. Imaginem o meu êxtase! Imediatamente fiz contato com esse jovem rapaz, que é da Guarda Civil, e marcamos um café numa rosticeria perto de minha casa para que ele me contasse tudo o que sabia de Luanda e do povo de lá, e também sobre esse missionário encantador e apaixonado pela África, chamado padre Stefano.

Eu e o jovem nos tornamos conhecidos reais, não somente “amigos” virtuais, e, um mês depois, o jovem missionário me procurou dizendo que iria novamente para Luanda a pedido do padre Stefano e que precisaria comprar alguns livros de Capoeira para deixar com os mestres que iria formar lá, durante a sua estada na Comunidade. Falou-me sobre o altíssimo custo dos livros vendidos naquele país e na falta de incentivo dado pelo governo. Contou-me que o povo apesar de passar muita necessidade e ser muito humilde, está sempre sorrindo e é muito alegre. Eu, então, me propus a ajudá-lo nessa aquisição, pois sou apaixonada por leitura.

Mas eu precisava conhecer mais aquela gente. Foi então que procurei me aprofundar um pouquinho no conhecimento da política e da cultura daquele povo carente de tudo, onde a riqueza se encontra concentrada nas mãos de tão poucos. Lá, a média da idade das pessoas é de 40 anos, e dizem, eles mesmos, que morrem de malária, pois não admitem dizer que morrem de HIV positivo. Tudo muito triste. As crianças são as principais vítimas de todo o Sistema. O governo não se preocupa em modificar a sorte delas, muitas órfãs e abandonadas, condenadas a manter esse status quo, pois há pouco incentivo educacional e cultural.

Diante dessa realidade triste e tão dura, eu imaginei que poderia descortinar para elas um novo mundo, por meio dos livros infantis. Desejei levar novos horizontes para essas crianças. Elas são sedentas até de sonhos, quanto mais de realizações! E, assim, decidi montar uma biblioteca no Bairro Mota, dentro da Comunidade Bom Pastor.

Mas como operacionalizar essa ideia? Todas as notícias que recebia dos entendidos eram desanimadoras. Tudo concorria para que nada desse certo! O governo angolano não permitiria que os livros chegassem até a Comunidade, pois eles seriam imediatamente recolhidos na alfândega e, sem mais explicações, vendidos a preços altíssimos pelos camelôs em praças públicas… Para que isso não acontecesse, o Pe. Stefano entrou contato com o Cônsul do Brasil em Angola e ele assegurou que os livros chegariam ao seu destino final. Tivemos também apoio dos Salesianos que garantiram, em carta, que eles fariam de tudo para que o acervo chegasse à paróquia no bairro Mota.

Então, era mãos à obra. Arregimentei minha equipe de trabalho e iniciamos a campanha de arrecadação. Muitos me consideraram maluca! Outros questionaram por que eu não montava uma biblioteca aqui mesmo, no Brasil. Enfim, era para ser lá! E tudo caminhou para dar certo, sim!

Inicialmente divulguei a campanha na minha página do facebook, muitas pessoas se envolveram com a iniciativa e começaram a dar “dicas” de como arrecadar mais e mais livros infantis. E os livros foram chegando. Dizem que as coisas não caem do céu, mas eu digo que caem sim e são colocadas na nossa frente pelas mãos de Deus quando fazemos o bem e conseguimos enxergar além dos nossos próprios interesses. Isso porque consegui parceiros que, gentilmente, me orientaram e cederam materais imprescindíveis para o sucesso da campanha.

Artistas fizeram cartazes de divulgação, conseguimos a doação de 400 caixas de papelão da empresa Rigesa no tamanho adequado para o empilhamento e carregamento de livros. O Banco Itaú doou os livros da sua coleção infantil e o Banco Santander abriu as portas de todas as agências da nossa região metropolitana para ser ponto de arrecadação. Um supermercado de rede nacional fez campanha nas suas 13 lojas espalhadas pelo Brasil e trouxe para a nossa sede mais de 50 caixas de livros doados em suas unidades.

E a campanha foi crescendo e eu acreditava no meu sonho que se realizava a cada dia. Mas como esses livros atravessariam o oceano e chegariam ao seu destino? Eu não tinha dúvidas de que isso seria resolvido de alguma forma, como de fato foi, pois garra e determinação eram o que não me faltavam para esse empreendimento que eu tanto desejava e tinha a certeza de que estava presetes a se concretizar

O jovem rapaz salesiano me passou o email de uma pessoa de uma construtora internacional que havia sido responsável pela realização de algumas obras da Comunidade Bom Pastor, em Luanda. Eu fiz contato com ele e ele me encaminhou para o setor de logística aqui no Brasil, que me prometeu transportar de navio, em um container, todos os livros e, quando em Angola, levar de caminhão as caixas até as mãos do padre Stefano.

Após um ano de trabalho, que envolveu várias empresas e muitas pessoas, nossa equipe de trabalho, voluntários e amigos, me ajudaram a contar, selecionar e cadastrar todos os livros, montar as caixas, fechar e etiquetar cada uma delas. A campanha chegou ao seu final com 9.000 livros arrecadados.

A empresa multinacional que se prontificou a fazer o transporte marítimo, também se encarregou de providenciar o transporte terrestre de nossa cidade, no interior de São Paulo, até o porto no Rio de Janeiro. E dali, após 30 dias, os livros chegaram ao seu destino final, ilesos de qualquer vandalismo, perfeitos, assim como partiram do Brasil.

E assim foi montada a biblioteca em Luanda, e muitos dos livros desse acervo foram também distribuídos para outros centros educacionais carentes de Angola.

Essa iniciativa foi mais que a realização de um único sonho, mais que uma atitude de empreendedorismo, foi a concretização de uma ação social e cultural em prol da realização de sonhos de muitas crianças além mares que certamente terão a oportunidade de olhar para muito além de seus pés, pois poderão correr para novos horizontes, incentivadas pelas viagens que farão durante as suas leituras.

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