Uma Análise Conjuntural da Produção e Comercialização do Algodão

Em um momento em que a agricultura passa a ser cada vez mais importante para a economia brasileira, e que alguns produtos passam a ser cada vez mais cultivados, presenciamos uma intensa volatilidade no mercado interno e também no mercado externo. Uma questão que chama a atenção é a supervalorização das commodities. Embora se tenha aqui o mercado de algodão como o objeto de análise, o fato é que por conta da escassez de produção em relação à atual demanda do mercado em geral, outras commodities, tais como a soja, o milho e o café, apresentam a mesma tendência de mercado. Entretanto, o aqui proposto é o enfoque em torno do algodão. Neste sentido, em poucos meses vimos grandes alterações de preços. O algodão está justamente entre os que sofreram maior valorização no último ano, e prova disto foi que de março de 2010 a março de 2011 acumulou alta de 178,73%, segundo dados coletados pelo Centro de Estudos Avançados de Economia Aplicada da ESALQ/USP, sobre cotações do mercado interno, posto indústria São Paulo, expressas em termos nominais. Este fenômeno que hoje ocorre, pode ser explicado pela sua evolução nos últimos dez anos, tomando como ano base a safra brasileira de Grãos de 2003/04. O produtor brasileiro sofreu durante a safra 2005 com os preços baixos. A produção de algodão vinha crescendo fortemente em 2002 e 2003, o que fez com que chegássemos ao final de 2004 com preços enfraquecidos diante de altos estoques e de uma produção muito acima do consumo. Na safra 2002/03 o país teve 735,1 mil hectares de área plantada de algodão, colhendo uma produção de 847 mil toneladas. Em um ano a produção saltou e acabou elevando os estoques nacionais, forçando assim uma queda dos preços do algodão em pluma do mercado interno. A área plantada na safra 2003/04 foi de 1.100 mil hectares, ou seja, 49,7% a mais do que no ano anterior. Já a produção chegou a marca de 1,309 milhões de toneladas, uma produção 54% maior que na safra anterior. A explicação para este aumento na área plantada se deve a elevação dos preços dos anos anteriores. Segundo as leis da oferta e demanda o mercado sempre buscará um ponto de equilíbrio entre o montante ofertado e o demandado. Este fato ocorre porque uma oferta restrita, com uma demanda aquecida, tende a elevar o preço do produto para que haja um equilíbrio entre o disponível e o que as pessoas estão dispostas a adquirir. Já em um cenário invertido, um excesso de oferta tende a enfraquecer os preços, uma vez que não existem interesses por parte da demanda em adquirir todo o produto ofertado. Desta forma, os preços do final de 2004 e início de 2005 ficaram muito abaixo da média do ano anterior (em 2004, os preços iniciaram o ano acima de R$70,00 por arroba para o algodão em pluma e terminaram o ano abaixo de R$45,00 por arroba), fazendo com que durante todo o ano de 2005 o mercado trabalhasse com preços perto de R$40,00 por arroba. Os preços baixos acabaram desestimulando a produção, sendo visto que nas safras 2004/05 e 2005/06, a produção reduziu-se fortemente, chegando ao ano de 2006 a 1.037 mil toneladas. Como era de se esperar, preços baixos desestimularam os produtores, que reduziram sua oferta, e desta forma os estoques mais justos forçaram a elevação dos preços. Chegando-se ao ano de 2008, novamente temos uma forte produção e preços em alta. Naquele ano o Brasil teve uma produção de 1.600 mil toneladas de algodão, produção recorde para o algodão em pluma até aqui. Produtores satisfeitos com os preços e o Brasil se destacando no mercado internacional como uma economia forte e estável. No segundo semestre de 2008 porem, com a crise financeira que se iniciou no mercado americano e afetou todos os países do mundo, esta tendência se inverteu. Com a crise, houve aumento do desemprego e queda no consumo, o que acabou pressionando os preços para o campo negativo e desestimulou a produção das commodities em todo mundo, em especial do algodão. Neste novo cenário, preços novamente em baixa derrubaram o ânimo do produtor brasileiro, que diminuiu sua oferta fortemente. Passada a crise, os países em desenvolvimento se recuperaram rapidamente, puxados por um forte consumo em especial pelo consumo chinês. Esta rápida recuperação fez com que novamente o mercado invertesse toda tendência negativa, voltando os preços a seus patamares anteriores. Assim, durante o ano de 2010 vimos elevações nas cotações das principais commodities tanto no mercado interno como no mercado externo. Os preços do algodão saltaram, e iniciaram o mês de março deste ano sendo vendido a R$130,00 por arroba na maioria dos estados brasileiros. Os preços firmes animaram os produtores, que pretendem colher este ano uma safra recorde de aproximadamente 1 milhão e 950 mil toneladas de algodão em pluma (Segundo o 6° levantamento da CONAB realizado em Março deste ano). As constantes elevações dos preços do algodão têm gerado bons retornos aos produtores, além de fortalecer a balança comercial brasileira, porém, ao mesmo tempo em que os preços são animadores, têm encarecido a matéria prima da indústria têxtil nacional. Assim, voltamos ao ponto-chave, que é a elevação dos preços das commodities, em especial do algodão. Com seu preço elevado, amargos são os prejuízos enfrentados pelo setor, uma vez que não se consegue repassar toda a alta para o consumidor final. Acredita-se que devido a constantes elevações dos preços da pluma, as roupas estarão mais caras para o consumidor final neste inverno. Mesmo com a alta na área plantada no Brasil, especialistas se dizem satisfeitos com os preços e são otimistas ao dizer que as cotações continuaram acima da média até o próximo ano. Já para o próximo ano, alguns analistas são pessimistas quando à continuidade de preços em alta. É difícil hoje encontrar alguém que esteja disposto a fechar contratos para o próximo ano, uma vez que a produção brasileira pode aumentar fortemente este ano e inverter toda a tendência de alta do mercado para a próxima safra.

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