Café com ADM
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Uma aliança perturbante

China e Estados Unidos têm de dar as mãos para a globalização não fracassar. A situação de ambas grandes potências é de “dependência estratégica mútua” diz Thomas Barnett, um especialista norte-americano em defesa, professor do Naval War College americano. É esta nova aliança que deverá substituir o eixo americano-britânico que foi o pilar da aliança atlântica no século XX e o eixo nipo-americano desde a derrota do Japão na 2ª Guerra Mundial. No meio deste movimento estratégico, Europa e América Latina ficariam com escassa margem de manobra no jogo de potências mundiais.

A Nova Aliança Sino-Americana uma proposta perturbante

«O Ocidente está morto como conceito historicamente útil»



China e Estados Unidos têm de dar as mãos para a globalização não fracassar. A situação de ambas grandes potências é de dependência estratégica mútua diz Thomas Barnett, um especialista norte-americano em defesa, professor do Naval War College americano. É esta nova aliança que deverá substituir o eixo americano-britânico que foi o pilar da aliança atlântica no século XX e o eixo nipo-americano desde a derrota do Japão na 2ª Guerra Mundial. No meio deste movimento estratégico, Europa e América Latina ficariam com escassa margem de manobra no jogo de potências mundiais.




5 MUDANÇAS QUE PODERÃO OCORRER (segundo Barnett)

. China e Índia avançarão em direcção aos recursos críticos e estabelecerão alianças estratégicas pontuais ou regionais para esse fim. Pelo que os EUA deverão, desde já, acomodar-se a essa tendência e oferecer-lhes uma aliança estratégica

. O terrorismo transnacional poderá vir a aninhar-se em África, encarada como local de retirada estratégica

. A Rússia poderá jogar a cartada do gás e o principal destinatário é a Europa, com quem um «Bill Clinton» russo poderá querer estabelecer uma aliança estratégica

. A questão da Coreia do Norte poderá ser resolvida se os EUA oferecerem uma NATO asiática à China, sacrificando Taiwan

. Os Estados Unidos poderão voltar ao seu desígnio de alargamento da União, com a entrada de novos estados até meados do século




A ideia é que os Estados Unidos para assegurarem um segundo século americano terão de mudar radicalmente as suas alianças geo-estratégicas. «O conceito de Ocidente está historicamente morto. [Nós americanos] Não devemos gastar mais energias a tentar ressuscitá-lo», sublinhou-nos, Thomas Barnett, 43 anos, professor do Naval War College dos Estados Unidos, autor do polémico Blueprint for Action: A Future Worth Creating (Putnam, Outubro 2005). Um livro lançado recentemente que escandalizou os saudosos da «Guerra Fria» ao propor, preto no branco, que «a conclusão estratégica óbvia é que a aliança de longo prazo com a China será a pedra basilar da ordem geo-estratégica do século XXI».

Barnett já escrevera no ano passado um outro livro The Pentagons New Map (Putnam, 2004) - que foi «bestseller» na lista do The New York Times, preparando a cama para duas ideias básicas rejeitadas fortemente por muita gente no Pentágono e na Administração norte-americana: «A China não é a próxima União Soviética» e «Se perdermos (de novo) a China podemos liquidar a globalização de novo».

O temor das réplicas

Segundo este especialista em defesa, vivemos «uma pausa estratégica de uma década ou mais» na rivalidade entre super-potências que pode ser uma janela de oportunidade para prosseguir a actual vaga de globalização pós-queda do Muro de Berlim. Sem o risco de ter uma réplica do início do século XX, quando a rivalidade hegemónica «estancou a vaga de globalização de então» e provocou duas guerras mundiais.

Esta pausa actual foi oferecida pelo terrorismo transnacional, e deveria ser aproveitada para os Estados Unidos descobrirem «mais tarde ou mais cedo que temos mais em comum com os emergentes», do que com a Europa e o Japão, os dois pilares das alianças americanas até hoje.

Desaconselha, por isso, a repetição da estratégia de «contenção» da doutrina da Guerra Fria, agora em direcção à China, o principal emergente. «Não há alternativa. Os EUA serão forçados a acomodar-se a esta nova realidade», repete-nos Barnett.


Mundo a 3 e ½

Para suportar esta ideia da viragem estratégica para os grandes emergentes particularmente China e Índia -, Barnett reorganizou o Planeta em três mundos e meio, determinados pela geoeconomia e a geopolítica:
- o núcleo central (os chamados países desenvolvidos apoiados no eixo EUA-Europa-Japão);
- o novo núcleo central (sobretudo os 4 grandes emergentes, que a Goldman Sachs baptizou em 2003 de BRIC);
- o perigoso «gap» (que cobre 1/3 da Humanidade em África, boa parte de Caraíbas e América Latina, parte dos Balcãs, Cáucaso, do Médio Oriente e da Ásia Central e do Sudeste);
- e, finalmente, um quarto grupo de estados, um «meio-mundo», que forma como que uma «bainha», uma «costura», que pode funcionar como «ponte» do terrorismo transnacional entre o «gap» e os núcleos centrais. Nesta «charneira» se incluiriam países como o México, Brasil, África do Sul, Marrocos, Argélia, Grécia (na União Europeia) e Turquia, a par de outros, como o Paquistão, Tailândia, Malásia, Filipinas e Indonésia. Alguns destes países não gostarão nada de se ver metidos nesta «bainha».

Encurtar o «gap», considerado como que «uma espécie de buraco do ozono não integrado na globalização», é «o objectivo das políticas de negócios estrangeiros para as próximas décadas», em que a legitimidade da «mudança de regime» e da «guerra preentiva» é advogada por Barnett.

Dentro desta linha, admite resolver o problema da mudança de regime na Coreia do Norte a troco de «um custo hoje» (Taiwan) e da criação de «uma NATO asiática» com a China. Sugere, provavelmente para espanto dos leitores, que se «coopte» o Irão e se lhe dê «alguma responsabilidade na segurança regional».

Sonha, ainda, com o dia em que os Estados Unidos, tal como «a União Europeia o faz», «back to business» na integração de novos estados, olhando para as suas traseiras na América Latina. Um dos seus desejos prospectivos é «Cuba como 53º estado da União» e coloca a Venezuela e a Colômbia como candidatos a mudanças de regime.

Entre as suas previsões finais, duas dão que pensar. Acha que a Rússia ganharia em ter um Bill Clinton - «talvez lá para 2020», diz-nos que fizesse a aproximação estratégica daquela potência do gás natural com a União Europeia. Por outro lado, deixa-nos um aviso: «África poderá ser amanhã o local de retirada estratégica do terrorismo transnacional».


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