Café com ADM
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Um tipo comum chamado empresário

Um em cada oito brasileiros é dono do próprio negócio. O Brasil cria 500 mil empresas por ano, mas somente 2 empresas em cada 10 sobrevivem por mais de 5 anos. 15,7 milhões de empresas estão na informalidade e só 4,5 milhões estão legalizadas*. Isso sem contar que o Brasil é país mais solidário do mundo. Num país onde o desemprego é crescente, a economia é instável e o capital estrangeiro é meramente especulativo, e o Governo incapaz de administrar sem roubar, está cada dia mais comum um tipo de profissional chamado empresário. O Brasil sempre usou e abusou da criatividade, novela, samba e da arte de viver da fé. Realmente todo este contexto forja e forma os melhores empreendedores do mundo. Se você duvida disso, felizmente os estrangeiros, não. Casos como dos brasileiros Henrique Meirelles (pres. mundial do BankBoston) e Carlos Ghosn (pres. da Nissan, no Japão) vão ficar cada vez mais comuns e requisitados para trabalhar lá fora. É o mesmo caso dos dentistas brasileiros. Eles são considerados os melhores do mundo e não é em vão. Somos um país desdentado, onde aparecem as maiores aberrações odontológicas pela simples falta de educação, desnutrição e condições econômicas. É muita boca para treinar e ficar experto no assunto. Voltando um pouco para a nossa mísera realidade, o brasileiro tem que ser muito criativo, digo, MÁGICO para poder imaginar o que fazer com um salário de 90 dólares. Num vôo mais solo encontramos um povo que encontrou na palavra "patrão", benção e maldição. Empreender não é para qualquer um, mas virou a única saída para o desemprego e a falta de qualificação. Assim, vai surgindo um tipo cada dia mais comum chamado empresário. Com a carteira vazia e um monte de dívidas em seus pesadelos, ele tem que pensar muito, ter boas idéias e em meio ao caos tem que achar uma saída lucrativa. É a era do empreendedorismo alternativo. E isso saudável. Seria um mal se o mercado não comportasse o volume de novos negócios, mas comporta. Inclusive é um alerta para as grandes empresas e as multinacionais. Se os 18% da população brasileira são empresários, este número continuará a crescer se não acabar a ganância pela mão-de-obra boa e barata. Para mim tem muito mais empresário do que empresa, pois o pedreiro que trabalha por empreitada, é empresário. A moça que faça ovos de páscoa para vender é empresária. O bóia-fria, o bicheiro, o camelô, o kombeiro, o profissional liberal e o biscateiro são empresários. Literalmente o empresário é quem empreende. Não há glamour algum nesta palavra. Se esta é a benção, qual é a maldição? O problema que a maioria vai a falência muito rápido. Despreparado para fazer crescer o seu sonho, o ex-empregado vai a luta, mas sem munição. Ai vem outra estatística que justifica o fracasso de 80% dos negócios: erros e/ou falta de planejamento. Planejar não é tudo, mas é o mínimo. Contudo, na nossa cultura, planejar negócios é coisa difícil de ensinar, difícil de aprender e horrível de por em prática. Foram anos de mamata do governo que alimentava as varas de falência e concordata. Até hoje é comum a frase: "A gente faz e vê se dá certo". Traduzindo: "Não planeje, haja, se der errado o Governo banca". Este tiro no ouvido poderia ser evitado se tivéssemos coisas mais básicas como uma educação mais voltada ao ensino do planejamento, como parte da própria vida. Para as coisas darem certo, para lucrar, para sobrar mais tempo de diversão, para se fazer uma viajem com pouco dinheiro, é preciso planejar. Não estaria indo muito longe se dissesse que as escolas deveriam ensinar o planejamento financeiro e o planejamento de negócios e estratégico como matérias letivas. Pode parecer uma visão bem mercadológica da coisa, mas até o terceiro setor se beneficiaria com uma nova safra de empreendedores que sabem planejar. Tá, então é uma visão simplista, superficial. Não estou elaborando uma tese, só discutindo. Vamos falar do que eu entendo: Sou responsável por um grupo de discussão a BPList(www.grupos.com.br/grupos/bp). Se os membros não usarem a BPList para aprender a planejar talvez não esteja vendo, mas 95% ou mais dos membros desta lista são empreendedores. Todos ávidos por aprender a planejar ou falar como planejam. Como empreendedor, acabei falando da minha própria experiência. Foi estudando para fazer tutoriais para a BPList que aprendi a planejar e meu primeiro planejamento foi feito em janeiro deste ano. As incoerências são muitas: sou administrador, mas sempre agia e nunca planejava. A última coisa que eu fiz sem planejamento foi a BPList e, acreditem, é uma luta planejá-la. Mesmo com os 10 colaboradores. Erros na minha educação e formação? Falta de atitude? Paradigma cultural ou é burrice mesmo? Não sei, ou não sabemos -- incluo aqui os nossos 10 colaboradores. E tem mais: diluo esta responsabilidade com os mais de 200 membros que não estão discutindo planejamento, pois como disse, é difícil. Recebi um e-mail de um membro -- um empreendedor -- pedindo exclusão da lista, pois os assuntos estavam off-topic de mais para a cabeça dele. O que ele queria é escutar sobre planejamento, mas perdeu a oportunidade de escutar outros colegas empreendedores darem subliminares dicas que o ajudariam em seu planejamento. E o mais interessante é que ele entrou mudo e saiu calado. Aconselhei que comprasse alguns livros que eu tenho na minha estante sobre planejamento de negócios. Definitivamente a lista é para quem quer contar os seus erros e acertos no mundo dos negócios. Foi expondo as minhas incoerências e erros que eu recebi muitas dicas para mudar a cabeça e começar a planejar. Certamente, só sugar conhecimento não é o negócio da BPList e nem deve ser de qualquer outra lista. Para aprender é preciso interagir. Querer que seja diferente é exigir demais de uma lista de discussões. Esta mensagem é uma provocação bem sadia. Graças a Deus eu não sou especialista em planejamento de negócios e é por isso que me arrisco a escrever com tamanha liberdade e simplicidade. A BPList não cometerá os erros que segundo o livro "Oficina do Empreendedor", de Fernando Dolabela (Cultura Editores Associados, 1999), são os 7 erros que o empreendedor deve evitar: 1. Paixão pelo produto; 2. Paranóia: não mostrar a idéia com medo de que ela seja roubada; 3. Perfeccionismo: idéia não está "pronta", é muito tarde ou muito cedo; 4. Não reconhecer a concorrência; 5. Preço baixo como estratégia de entrada no mercado; 6. Impaciência: "30 dias ou arrebenta"; e 7. Desejo ou necessidade de obter lucro rapidamente. Se você tem problemas com o planejamento não vá a um psicólogo, use e abuse. Fale abobrinha, diga que planejamento não presta, mas fale. Ridículo não é errar, é continuar no erro. Ridículo é entrar na lista sem saber fazer planejamento, continuar não sabendo e sair sem saber, batendo a porta, dizendo que não aprendeu. Portanto, o tempo é este. De aprender, de passar conhecimento. A cabeça de quem sabe fazer planejamento tem peso de ouro aqui. E nós estamos trabalhando para que estes especialistas tenham peso de ouro lá fora também. Não para o deleito de quem sabe, mas para ajudar quem não sabe e para que os empreendedores aprendam a planejar e assim mudar a nossa realidade sócio-econômica. Estamos construindo a contra-cultura do planejamento. Pode soar como muita pretensão, mas é assim que o empreendedor joga. Eu sou um empreendedor, um empresário e conheço bem as regras. A BPList é um negócio e está sendo vendido como tal. O engraçado é ver que há também os que ficam sentados esperando o espetáculo começar. Estes também estão comprando. Claro que planejar não é tudo. O empreendedor tem que saber ouvir antes de agir, medir o sucesso pelos resultados e basear decisões em fatos. Ter objetivo definido e estar sempre atento às alternativas. Evitar a resistência às mudanças e confiar nos colaboradores. Estimular o mérito alheio e promover a satisfação do grupo.** Dentro desta minha alucinação matutina, misto de praaazer, incoerências e assuntos diversos, quero dizer que só no ano passado foram liberados R$ 10 bilhões em créditos. Um volume 3 vezes maior do que em 1999. E é cada dia mais comum se ter empréstimos oficiais de R$ 10 mil, numa taxa de juros de 3%/mês**. E o primeiro passo é você mostrar o papel como pretende multiplicar este financiamento, na forma de um plano de negócio ou um Business Plan. Finalmente, aprenda de uma vez por toda que "ser empreendedor" rima com "ser amador", mas o resultado é muito diferente. Não fazer planejamento é o cúmulo do amadorismo. Lembre-se que nem o Governo faz planejamento que presta. A crise de energia elétrica é um bom exemplo disso. Aqui no Brasil, só o Governo que não é empreendedor. Que pena! * Sebrae/Global Entrepreneurship Monitor ** Revista Época, 16 de abril de 2001 Leia mais sobre líderes com talento para administrar o próprio negócio em "Patrão por Vocação", página 72, por Ana Magdalena Horta. Data de Publicação: 28/05/2001
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