Um novo olhar à vida
Um novo olhar à vida

Um novo olhar à vida

O que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem da vida

A calçada estava coberta por folhas amareladas soltas das amendoeiras. Era o fim do inverno. As mãos se esfregavam uma na outra em busca de um aquecimento imediato. A luva havia ficado sobre a cama, resultado da pressa em busca da fornada do melhor pão do bairro que seria deliciosamente servido com manteiga e o simples e saboroso acompanhamento do café com leite, em xícara média, presente da vó Adelaide. Apesar de carioca não gostar de céu nublado, Joana Sampaio sabia fazer do limão uma deliciosa limonada. Aquela tarde não seria mais uma no calendário. Com suavidade e inteligência, ela abriu um leve e encantador sorriso ao observar o par de luvas sobre o lençol de seda.

Leve, mas ágil, Joana preparou a mesa para receber a pessoa mais especial: ela mesma. Sim. Ela compreendeu que a partir do momento em que a autoestima está alinhada, o caminho rumo à felicidade ganha pavimentação. Culta e sensível, a jovem morena de cabelos anelados mordia o pão, ainda aquecido e com a manteiga derretida, com uma vontade… Hum!… Que vontade de experimentar daquele pão quentinho. Com seus olhos arregalados a cada mordida, Joana demonstrava a satisfação da gula. Se permitindo ser uma comilona, a magra e bela Joana devorou três pães. Verdade! Que horror! Quem pode, come! Quem não pode, critica. Simples assim.

Satisfeita com a farta refeição da tarde, Joana direcionou a sua atenção aos seus estudos sobre William Shakespeare, o dramaturgo inglês que morreu aos 51 anos, em 1616. Também poeta, o nosso bravo deixou clássicos memoráveis como Romeu e Julieta, MacBeth, Sonho de uma noite de verão. Lembra? Então, pensador, claro, ele ainda escreveu sobre o aprendizado que a pessoa adquire ao longo da vida. Nesse aspecto, Joana gostava de ficar atenta aos sinais. Ela compreendia que a pessoa tem a oportunidade de aprender com a vida todos os dias. E Shakespeare tem um texto com esse título “Aprendi com a vida”.

A professora de literatura Joana gostava de fazer várias leituras sobre esse texto. Ela não se cansava de passar os olhos sobre ele. Ao terminar o café da tarde, a jovem morena direcionou seu olhar para o horizonte, e começou pronunciá-lo. Dessa vez, ela o tinha na ponta da língua. A voz doce e suave de Joana tornava a redação emocionante:

“Depois de algum tempo, você aprende a diferença, a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começa a aprender que beijos não são contratos e presentes, não são promessas. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança. E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão”.

Realmente não é fácil. E Joana sabe disso. Ela sofreu decepções, frustrações e sabe que as coisas não se resolvem em um passo de mágica. Mas ela considera também que tudo é possível de ser solucionado. Ela segue declamando o texto do dramaturgo:

“Depois de um tempo você aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam… E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso. Aprende que falar pode aliviar dores emocionais. Descobre que se levam anos para construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da vida”.

Lendo Shakespeare, Joana aprendeu que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem da vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher. Aprende que não temos que mudar de amigos se entendermos que os amigos mudam; percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos. A jovem descobriu que as pessoas com quem você mais se importa na vida podem ser tomadas de você muito repentinamente.

Leve e reflexiva Joana compreendeu que a vida tem valor e que ela tem valor diante da vida. Por isso, decidiu que a partir daquele instante deixaria as pessoas que ama com palavras saborosas, doces. Ela entendeu que a vida é breve e pode acontecer de não ter a oportunidade de encontrar a pessoa que considera e ama uma outra vez. Faça como a Joana.

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