Café com ADM
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Um impulso alegre à ação: repercussão das idéias de Gilles Deleuze

Eis que se propõe um (grande) desafio: falar de Deleuze. Acredito que compreender plenamente Deleuze seja comparável a atingir o Nirvana, o estado de completa iluminação budista.

Tudo de bom acontece a pessoas com disposição alegre.
(François-Marie Arouet Voltaire)





Eis que se propõe um (grande) desafio: falar de Deleuze. Acredito que compreender plenamente Deleuze seja comparável a atingir o Nirvana, o estado de completa iluminação budista. Mentes como a minha, confesso, não são capazes. Compreende-se aqui e ali, e tais momentos de compreensão são extremamente prazerosos.



O próprio Deleuze nos oferece conforto à nossa capacidade de (in)compreensão: (...)

por mais longe que se leve a compreensão do conceito, há sempre uma infinidade de coisas que podem corresponder-lhe, pois de fato nunca será atingido o infinito dessa compreensão. Ser tocado por um dos pontos de seus rizomas é o suficiente para engendrar múltiplas possibilidades de preferência alegres, práticas a alegria prática de Deleuze, tão bem definido pela professora Maria Ceci Misoczky.

É preciso valer-se de Deleuze para poder falar de Deleuze. Se o nosso objetivo for traduzir significados, descobrir o que ele quis dizer, estaremos cometendo os primeiros erros. Pelo contrário, devemos nos perguntar com o que sua obra funciona, em conexão com o que ela faz ou não passar intensidades, em que multiplicidades ela se introduz e metamorfoseia a sua (própria intensidade).

Nesse sentido, podemos, a partir do construto Deleuziano, analisar uma infinidade de fenômenos, estabelecendo múltiplas conexões entre os mais variados assuntos. Trata-se de uma ruptura total com o modelo positivista, com a lógica cartesiana. Aliás, nos diria Deleuze que o sujeito cartesiano não pensa: tem apenas a possibilidade de pensar e se mantém estúpido no seio dessa possibilidade. Deleuze nos permite construir um texto aparentemente desconexo, porém inteiramente entrelaçado tal qual a trama de uma tapeçaria, repleto de rizomas (multiplicidades) que se conectam e que, por vezes, se rompem (podendo ressurgir em outras linhas, em outros lugares). Dispensa-se o dualismo rudimentar do bom e do mau. Rompe-se, traça-se linhas de fuga. Nada tem a ver com significar, mas com agrimensar, cartografar, mesmo que sejam regiões ainda por vir.

O que está escrito nesse texto já não me pertence e tampouco me pertencia antes de existir. É a extensão da coisa que passa por mim, adquire novas formas, e segue por novos caminhos. Trata-se do meu contato com a erva do diabo e seus efeitos: uma nova tentativa de fazer rizoma com o mundo e ninguém é dono de um rizoma. Aliás, um rizoma não tem início e tampouco fim. Ele está sempre no meio, entre as coisas uma aliança, unicamente aliança.

Percebe-se a repetição inevitável; mas está presente a esperança de que se torne uma repetição de afundamento, ontológica. Uma repetição impulsionada pela potência interior do rizoma que a motivou.

E o que passar adiante? O que será repetido, continuado, reproduzido, legado?

Há múltiplas possibilidades, mas prefiro ater-me ao mandamento de tornar-se alegre, tornar-se ativo (Hardt apud Misoczky).

É preciso intensificar os momentos de transcendência, de realização artística a própria sublimação do ser-no-mundo. Não há outro problema estético a não ser o da inserção da arte na vida cotidiana. Essa é uma linha de fuga a ser seguida. A arte produz paixão e paixões alegres são a pré-condição da prática (Hardt, idem). Ela nos leva a sobrepujar o modus operandi que nos é imposto e tem caráter contagioso: cada arte tem suas técnicas de repetições imbricadas, cujo poder crítico e revolucionário pode atingir o mais elevado ponto para nos conduzir das mornas repetições do hábito às profundas repetições da memória.

Posto que é arte, não seria de se estranhar pinceladas difusas, coloridas e alegres:

Certa manhã eu era um menino agitado, de uns dez anos acordei com uma sensação inusitada, profunda e doce, de alegria e bem-estar, que me iluminava inteiro como um sol interior (...) Eu nada sabia de ontem nem de amanhã, estava rodeado e inundado daquele hoje feliz. Aquilo fazia bem, e meus sentidos e minha alma o saborearam sem curiosidade nem justificação. Aquilo me invadia e tinha um gosto magnífico. (Hermann Hesse, 1949)

Por fim, na tentativa de ser rizoma, não existe ponto final, e sim reticências....


Bibliografia

DELEUZE, Gilles. Difference & Repetition. New York: Columbia University Press. p.262-304
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. São Paulo: Editora 34, 2004. Vol. I. p.11-38
HESSE, Hermann. Felicidade. Rio de Janeiro: Record, 1999.
MISOCZKY, Maria Ceci Araujo. Pelo primado das relações nos estudos organizacionais: algumas indicações a partir de leituras enamoradas de Marx, Bourdieu e Deleuze. In: ENANPAD, 2003, Atibaia. Anais do XXVII ENANPAD, 2003. v. 1.
RAJCHMAN, John. The Deleuze connections. Cambridge: The MIT Press, 2000. p.4-76


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