Transferência e absorção de tecnologia

Apesar das boas intenções e dos muitos programas governamentais estimulando a transferência de tecnologia das instituições públicas para as empresas, os resultados ainda são pífios.

A transformação tecnológica está cada vez mais rápida. O ritmo é alucinante. Enquanto isso, cresce a percepção de que as empresas brasileiras estão andando muito lentamente. Parece que elas estão patinando na avenida tecnológica. China, Índia e Coréia do Sul já dispararam.Os governantes desses países priorizaram a ciência, a tecnologia e a educação. Por aqui, a ficha ainda não caiu. Nem o professor com PhD, nem o torneiro mecânico perceberam que os concorrentes já adotaram, há muitos anos, uma estratégia imbatível de investimentos públicos nessa era do conhecimento. O Brasil segue investindo menos de 1% do PIB em pesquisas tecnológicas.

Apesar das boas intenções e dos muitos programas governamentais estimulando a transferência de tecnologia das instituições públicas para as empresas, os resultados ainda são pífios. Muitas instituições públicas ainda não perceberam que estão isoladas. Que precisam quebrar as muralhas que elas mesmas construíram ao seu redor. Que somente o relacionamento com o setor privado poderá colocá-las em sintonia com as demandas atuais e futuras da sociedade que as mantém.Os casos de integrações tecnológicas bem sucedidas entre universidades e empresas são relativamente poucos. A maioria fica no campo das intenções. Fica nos contratos de parceria bem redigidos, mas pouco práticos e funcionais. Acontece que essas boas intenções e contratos nem sempre conseguem libertar as instituições públicas de pesquisa das suas amarras internas. Falamos da burocracia e da cultura antinegócios que permeia uma confraria científica antiquada. Uma confraria que cria entraves e dificulta a execução dos acordos. Tudo isso acontece porque ela abomina qualquer tipo de relacionamento entre o público e o privado. Os cientistas das empresas são motivados e focados em resultados. Os cientistas públicos geralmente são mal remunerados. Eles trabalham desmotivados e sem as condições mínimas para realizarem seus projetos. Essa diferença motivacional também tem dificultado a produtividade das parcerias já firmadas.


A maioria dos empresários nacionais investe pouco na geração de tecnologia própria. Eles ficam parados, pedindo e esperando por mais incentivos do governo. Muitos preferem pagar royalties, ou adaptar tecnologias importadas ao invés de gerar tecnologia própria. Muitos não entendem que, quando se fala de transferência de tecnologia do setor público para as empresas, é preciso falar também da capacidade de absorção e de aperfeiçoamento dessa tecnologia pelas empresas. A maioria das empresas não tem uma equipe de cientistas e nem estrutura de pesquisa capacitada para receber e aproveitar de forma eficiente as novas tecnologias geradas nas instituições públicas. Enquanto isso, temos milhares de ótimos cientistas desempregados ou dependurados em miseráveis bolsas de pesquisas .

O governo precisa priorizar e intervir com urgência na geração e na transferência de tecnologia. O setor público investe relativamente muito pouco. A transferência para o setor privado é lenta e difícil. Os cientistas públicos precisam receber salários dignos. A sociedade precisa recompensar muito bem o trabalho dessa elite. È uma elite mesmo. São cérebros privilegiados que precisam de tranqüilidade financeira e familiar para produzir mais e melhor. Eles precisam de bons laboratórios. Precisam viajar para muitas reuniões científicas e congressos. Precisam intercambiar conhecimentos com seus pares no Brasil e no exterior. O governo não precisa se preocupar em dar explicações sobre os investimentos em ciência e tecnologia. A sociedade saberá distinguir perfeitamente as despesas feitas para manter uma elite de legisladores corruptos e improdutivos, dos investimentos com retorno garantido feitos na manutenção de uma elite que batalha pela soberania brasileira em ciência e tecnologia.

Eder Bolson, empresário, autor de Tchau, Patrão! www.tchaupatrao.com.br




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