Trabalho, dinheiro, carreira e poder - Paradigmas postos nos séculos XX e XXI para as pessoas

Uma discussão breve sobre o poder o dinheiro e a acumulação na vida das pessoas e das famílias. Ou melhor, sobre o dinheiro como aspecto central na construção da vida e da carreira.

É comum ouvir dizer que “dinheiro não traz felicidade”[1].

Na verdade, no início da história do homem essa afirmação era a que prevalecia em suas relações sociais, porque quase nada era comprado. Tudo era produzido no próprio feudo. Os servos e suas famílias cultivavam seus alimentos e a produção de mobiliário, por exemplo, tinha o mesmo destino:

Nos primórdios da sociedade feudal, a vida econômica decorria sem muita utilização de capital. Era uma economia de consumo, em que cada aldeia feudal era praticamente autossuficiente (HUBERMAN, 1964, p. 27).

O que não era conseguido no seio das próprias famílias ou nos feudos, intercambiava-se no mercado semanal, nas cercanias do castelo. Assim, as trocas, eram a única forma de se obter algo que não se tinha/produzia. Esse era o caminho natural. O da produção do bem necessário à sua subsistência; ou, as trocas no mercado (HUBERMAN, 1964, p. 27):

Sem dúvida, havia certo intercâmbio de mercadorias. Alguém podia não ter lã o suficiente para fazer seu casaco, ou talvez não houvesse na família alguém com bastante tempo ou habilidade. Nesse caso, a resposta à pergunta sobre o casaco poderia ser: ‘paguei cinco galões de vinho por ele’.

O surgimento do dinheiro, como moeda de troca, aparece como uma boa solução na mediação das transações, na medida em que ele, em alguns casos, passava a eliminar os potenciais impasses e conflitos, na permuta de gêneros e/ou de objetos. Ou seja, ele acabava servindo de apaziguador dos potenciais conflitos, na medida em que se tornava o melhor qualificador das trocas[2].

Dessa forma, neste período importante da vida do homem, o dinheiro passa a ser o mediador dessas relações de troca; e, com isto, e a partir desse momento, ele passa a ser o dinamizador do intercâmbio entre as mercadorias, bem como o norteador para um melhor incentivo ao comércio (HUBERMAN, 1964).

Nessa perspectiva, grosso modo, o dinheiro ganha centralidade, bem como sua acumulação passa a ser importante estratégia de poder e de status social e político nas cidades, por parte de quem o possui. Na verdade, a acumulação passa a ser o novo nexo para se conseguir importante posição social.

Quem tem o bastante para satisfazer suas necessidades, e não obstante trabalha incessantemente para adquirir riquezas, seja para conseguir uma posição melhor, seja para viver mais tarde sem trabalhar, ou para que seus filhos se tornem homens de riqueza e importância (TAWNEY, 1926, p. 36).

Na verdade, ao longo da história do homem, no que diz respeito ao trabalho, suas relações, carreira e formas de estruturação (do trabalho), muitas mudanças foram sentidas/vividas. Ou seja, o homem sofreu muitos impactos dessas transformações na relação capital versus trabalho e da reestruturação cíclica do universo do trabalho: primeiro, foram as atividades de caça e pesca; depois o plantio para se tirar o sustento da família; a seguir, as atividades desempenhadas em casa somente para o sustento da família e/ou do feudo; logo a seguir, vem o artesanato, a marcenaria, a padaria, o açougue, a produção de vela etc. A essa altura, muda-se a lógica, ou seja, com o progresso e o crescimento das cidades, e o uso do dinheiro no centro das relações, surgem as novas profissões e um novo desenho de negócio e das relações de trabalho e emprego.

Nessa altura, a produção sai do âmbito do seio das famílias e passa a fazer parte do cenário das cidades, dos mercados e das empresas. Nesse novo mundo capitalista, isto porque o capital captura o trabalho de forma definitiva, a produção não é mais para satisfazer, tão somente, as necessidades imediatas do núcleo familiar, mas sim, para atender o novo mercado consumidor.

Angulando nessa reflexão, na Era Industrial [3] e [4] as relações deixam de ser sociais e ganham status de relações com o capital. Com ela tudo muda. Isso porque muda-se a lógica de trocas e, com isto, o conteúdo do trabalho.

Seguindo esse passo mudam-se, também, as funções, que passam a ser regulamentadas e controladas por um gestor; as relações profissionais são desconectados da atividade em si; há importante indiferença quanto a natureza e a importância do trabalho; e, portanto, não há, nessa nova era, mais a participação dos trabalhadores nas decisões e no valor do trabalho (SAINSAULIEU; KIRSCHNER, 2006).

Na verdade, as tarefas perdem seus conteúdos. A relação com o trabalho é unicamente pela troca: trabalho por dinheiro.

A força de trabalho converteu-se numa mercadoria. Suas utilidades não mais são organizadas de acordo com as necessidades e desejos dos que a vendem, mas antes de acordo com as necessidades de seus compradores que são, em primeiro lugar, empregadores à procura de ampliar o valor de seu capital (BRAVERMAN, 1981, p. 79).

A fraternidade e a colaboração existentes até a Idade Média, àquela altura, dão lugar a concorrência e a outros fatores que hoje conhecemos sobremaneira. Ou seja, a simplicidade nas relações humanas daquela época e a produção caseira e artesanal, somem e são substituídas pelas indústrias e pela acumulação capitalista (SAINSAULIEU; KIRSCHNER, 2006). Depois disso, essas últimas, dão lugar as grandes corporações globais. E, por fim, as guerras que antes eram travadas no campo de batalha, e o inimigo era conhecido, passam a ocorrer no mercado concorrencial, entre as megacorporações, com seus megaexecutivos globais.

A internet, os aparatos tecnológicos e a globalização da economia de mercado, no fim do século XX e XXI, principalmente, e de forma importante, traz-nos muitos novos paradigmas, mas todos, e de toda sorte, voltam-se para o modelo iniciado lá no início da história do homem: a acumulação e o capitalismo como norte central no apagamento das relações humanas.

Na verdade, as relações humanas tornaram-se – ou são trocadas – pelas relações econômicas. Ou seja, a globalização e o poder da concentração do dinheiro, pelas megacorporações e pelos megainvestidores, trouxe a já aludida economia de mercado.

Nessa economia as pessoas passam a diferenciar-se uma das outras não pelo seu caráter, mas pelo seu grau de bens, que passaram a acumular de forma frenética e constante. Isto porque, o dinheiro e o poder que ele gera numa economia de mercado, traz status e valor social (MACEDO JR. et al., 2011).

É o dinheiro como trampolim para o poder e para o sucesso na vida, na sociedade e na carreira (idem, 2011).

Dinheiro só se torna capital quando é usado para adquirir mercadorias ou trabalho, com a finalidade de vendê-los novamente, com lucro (HUBERMAN, 1964, p. 179).

No fim do século XX, e início do XXI, passa-se a viver a era da acumulação do dinheiro e do consumo. Isto porque ele dá a seu possuidor uma sensação de performance superior e que é acompanhada de uma importante e ilusória segurança psicológica. Ou melhor, o dinheiro (ou o capital) propicia um efeito mental e comportamental positivo; e ele, leva as pessoas que o detém a ter um comportamento voltado para o objeto (para o dinheiro). E, faz seus possuidores individualistas, competitivos, não-colaborativos e invejosos (MACEDO JR. et al., 2011).

Nessa perspectiva, o dinheiro (ou o capital) faz com que seu possuidor acredite que ele (o dinheiro, ou o capital) dará a seu possuidor autossuficiência e autoconfiança; e, como é óbvio, desconfiança no outro. Isto porque, na lógica abstrata da acumulação, há que se derrubar e aniquilar o inimigo. Até por que ele (o inimigo) pode, potencialmente, tomar-lhe o lugar na pirâmide do poder, da carreira e do dinheiro.

No século XXI, e, evidentemente no XX, também, todas as pessoas foram treinadas para ver o dinheiro como a chave solucionadora de todos os problemas. Ele (o dinheiro, o capital e a acumulação) é a fonte de acesso à escada do poder e de uma carreira de sucesso e de respeitabilidade.

Por fim, para a nova lógica da economia de mercado, fica-se com a sensação que o dinheiro nos faz independentes, eficientes e possuidores de habilidades especiais. Portanto, e infelizmente, acabamos nos sentindo o Homem Aranha. Só, tristes e olhando a vida, e as pessoas, a partir do alto dos prédios de uma cidade indefesa e fria.

REFERÊNCIAS.

BRAVERMA, H. Trabalho e Capital Monopolista. 3. Ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.

HUBERMAN, L. História da Riqueza do Homem. 2. Ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1964.

MACEDO JR, J.S.; KOLINSKY, R.; MORAIS, J.C. Finanças Comportamentais. São Paulo: Atlas, 2011.

SAINSAULIEU, R.; KIRSCHNER, A.M. Sociologia da Empresa. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

TAWNEY, R.H. Religion and the Rise of Capitalism. Nova Iorque: Harcourt, Brace, 1926.

[1] Ditado popular sem autoria conhecida.

[2] Segundo Huberman (1964, p. 34 ss.), a troca de um bem por dinheiro passa a ser levada a cabo na Idade Média. Os banqueiros da época podiam efetuar negócios financeiros. Suas operações cobriam negócios que se estendiam através de todo continente europeu (de Londres ao Levante). Nesta perspectiva, substitui-se a economia natural da troca pela economia com a utilização do dinheiro.

[3] Ou Revolução Industrial: de 1780 – 1914.

[4] Para Leitura substantiva sobre o tema: Chiavenato (2000); Braverman (1981).

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