Temos que ficar de olho.

É uma posição muito cômoda a postura de parte da sociedade sobre a questão dos cartéis e abusos das empresas frente aos consumidores. Muitos atribuem essa responsabilidade somente ao governo e suas agências reguladoras. É quase que um pensamento comum: fiscalizar, auditar e defender nossos direitos é obrigação do estado. Óbvio que são obrigações governamentais comandar a política econômica, regulamentar o mercado e a atuação das empresas privadas. Mas isso não pode tirar das nossas costas nossas responsabilidades como consumidor e cidadão. É muito fácil a sociedade transferir para o governo todas as agruras do mundo empresarial. Só que estamos inseridos nela. Somos a ponta do processo, através do consumo e também o meio, como trabalhadores de, ou para, empresas produtoras de bens. Podemos assumir esta responsabilidade, ao nosso jeito e seguindo nossas condições. Não somos executores, nem legisladores. Mas somos consumidores. Mais que isso, também somos influenciadores e multiplicadores. Temos voz e meios para expor nossa opinião, torná-la pública, mobilizarmos e pressionarmos o governo, os mercados e as empresas. Porque sempre pode haver condições e forças econômicas que incentivem gestores a promover a formação de cartéis, como: Mercado com poucos concorrentes (situação de oligopólio); Baixa diferenciação de produto e serviço (commoditização, que leva a baixa lucratividade e a necessidade de reduzir custos e aumentar o preço de venda); E altas barreiras de entrada que acabam protegendo o mercado de novos players. A possibilidade de realizar acordos para manter-se no mercado ou ampliar lucros é uma tentação muito grande e interessante num mercado recheado de histórias de pouca ética e valores morais na gestão de negócios e na relação com o cliente. A conhecida, muito divulgada e comentada cartelização do mercado de postos de gasolina, principalmente pelas cidades do interior do país, demonstra como a tentação pode se transformar em lucros se o governo não fizer a sua parte e, principalmente, a sociedade. E também demonstra que os cartéis não acontecem somente em grandes corporações. Infelizmente é muito comum encontrarmos cidades onde o preço da gasolina é fruto de acordos entre donos de postos isso quando os postos não pertencem ao mesmo grupo. Quando isso acontece, sim, há a falta de fiscalização das agências governamentais, mas também há a falta da mobilização civil. Importante para pressionar prefeituras, governos estaduais e federais. Temos que fazer a nossa parte. A sociedade precisa ser mais ativa, mais mobilizada, mais reivindicatória através dos seus hábitos de consumo. A lei de oferta e demanda é uma ótima regularizadora de preços, principalmente se a demanda for fruto do ato consciente dos seus consumidores. Por isso que empresas refletem governos que refletem sua sociedade. Sim, temos nossa parcela de culpa. Mas estamos melhores. A prática do cartel, tem diminuído significativamente nos últimos anos e a história tem demonstrado que os cartéis mais dia, menos dia fracassam. Quer dizer, há uma tendência para que a jogada não dure muito tempo. Pois há dois grupos de fatores que forçam a desestabilização do cartel: Fatores associados à competitividade: A quebra do acordo por parte dos próprios participantes, em razão do egoísmo nos negócios, e claro, a falta de ética e confiança nos colegas; A característica inovadora do mercado que força empresas a buscarem e desenvolverem produtos substitutos, melhores, mais aceitos pelos consumidores e se estas não fazerem podem abrir espaços atraentes para novos entrantes; A atração que os mercados podem ter para empresas de outros setores, mais capitalizadas e com condições de entrar no mercado com mais lastro econômico, quebrando acordos existentes.
Fatores associados à sociedade consumidora: A sociedade tende a se mobilizar e exigir melhores soluções para ela (por isso temos que fazer nossa parte); Meios de comunicação mais atuantes como propagadores e reguladores da sociedade (na imprensa, através da atividade jornalística e na Internet, como meio de propagação de opiniões pessoais); Governos com agências reguladoras mais independentes e éticas; E o surgimento de organizações não governamentais de apoio ao consumidor e mobilizadoras de causas econômicas e sociais. Como qualquer crime, os cartéis tendem ao fracasso. A questão é o tempo da prática até o seu fim. E nisso, nós como consumidores e cidadãos, devemos fazer nossa parte. Tomar uma posição mais consciente e influenciadora para que a prática do cartel não seja tentadora. Devemos nos mobilizar para eliminar espaços e condições favoráveis. Temos que deixar os olhos bem abertos. ------------------------------------------------ Marcelo Miyashita
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