Superprevisores: a arte e ciência da previsão colocada em novo patamar
Superprevisores: a arte e ciência da previsão colocada em novo patamar

Superprevisores: a arte e ciência da previsão colocada em novo patamar

Livro abre nova etapa de uma polêmica e vitoriosa pesquisa iniciada há cerca de trinta anos. É isso mesmo, trinta anos. Mas valeu a pena

Todos nós somos previsores. É esta a frase com que Phillip Tetlock, um cientista social da prestigiosa Warthon School, abre seu livro “Superprevisões: a arte e a ciência de antecipar o futuro”, que entrou em quase todas as listas dos melhores de 2015, lançado no Brasil agora em 2016, pela Objetiva. O livro tem a co-autoria do jornalista Dan Gardner, todavia é Tellock, um cientista muito admirado por seus pares, que discute com propriedade o resultado de seu trabalho mais recente, nova etapa de uma polêmica e vitoriosa pesquisa iniciada há cerca de trinta anos. É isso mesmo, trinta anos. Mas valeu a pena.

Não há como discordar de Tetlock. Somos todos previsores, queiramos ou não, pois nossas decisões dependem sempre de alguns cenário que prevemos, formalmente ou não. Todavia o livro não é sobre nossas previsões do dia a dia. É sobre um método de previsão baseado no trabalho de um grande número de voluntários qualificados (que receberam à guisa de pagamento somente um voucher de US$ 250 a ser utilizado na Amazon), desafiados pela busca de respostas para questões complexas. Esses voluntários conseguiram bater a muito bem remunerada comunidade de informação dos Estados Unidos na acuidade das respostas às questões que foram instados a responder.

Os previsores estão ligados a um projeto acadêmico capitaneado por Tetlock, financiado pelo governo americano depois que a comunidade de informações ficou muito desgastada com sua previsão de que Saddam Hussein desenvolvera armas de extermínio em massa, levando a uma guerra de consequências calamitosas. Na verdade foram financiadas cinco equipes de pesquisa que competiam entre si, com metodologias diferentes. Mas a de Tetlock mostrou-se claramente superior, o que justifica sua celebridade com o lançamento do livro, que virou best-seller.

No capítulo inicial, Tetlock faz um apanhado do seu longo trabalho na área e se coloca como um otimista cético em relação à capacidade de serem previstos eventos complexos, ditados pelo comportamento humano. O capítulo 2 trata das nossas limitações cognitivas e do que seria o único remédio a essas limitações: o método científico. Em vez de utilizar os argumentos de Popper na defesa desse método, o autor prefere mostrar os avanços da medicina, a partir do século passado, ao caminhar para a testabilidade, e deixar claro que este é o caminho que a ciência social deve seguir. No que se refere à nossa deficiência cognitiva, o autor lança mão, acima de tudo, das ideias do seu colega Kahneman, que ficou famoso com seu best seller “Pensar Depressa e Devagar”. Bom capítulo, mas não essencial.

O capítulo seguinte, esse sim, é essencial. Nele, o autor lista defeitos presentes em grande parte de previsões mal feitas: falta de horizonte temporal e linguagem vazia, sem contar a certeza e empáfia dos pretensos profetas, contra as quais clama em quase todo o livro. Mas não é só isso. O mais importante é que o autor estabelece um framework para a prática da boa previsão, no qual um uso criterioso de medições baseada em probabilidades é essencial, levando a conceitos como calibragem e resolução, colocando a arte de prever mais próxima da ciência. Entretanto, o mais importante no capítulo é que nele o autor estabelece dois critérios fundamentais para seu método: a visão multifacetada e a agregação de muitas previsões individuais para formar o que seria a melhor previsão possível. Estão aí as bases da nova metodologia estabelecida por Tetlock.

Mas é somente ao chegar ao capítulo 4 que o leitor vai saber com detalhes em que consiste essa nova metodologia, cujos resultados justificam sua fama de Tetlock e o sucesso de seu livro. As previsões se baseiam nas respostas de voluntários a questões complexas, do tipo: “ A Itália reestruturará sua dívida ou se tornará inadimplente até 31 de dezembro de 2011?”; “O presidente da Tunísia procurará exílio no próximo mês?”;,ou tão somente “O euro cairá abaixo de US$ 1,20 dentro de doze meses?”.

Não sei se o leitor imagina como seria bom se agora no Brasil um grupo de previsores estivesse debruçado em versões brasileiras dessas questões. Eu não consigo parar de pensar nisso enquanto escrevo.

Pelo método de Tetlock, as previsões podem ir sendo ajustadas por um longo período até que encontrem uma data limite, quando são então agrupadas e, em seguida, após o evento previsto acontecer, avalia-se seu grau de sucesso. Para se ter uma ideia do projeto, em quatro anos, quinhentos eventos foram previstos por 2.800 competidores. A agregação desses resultados revelou um grau de acerto muito acima do que se poderia explicar por conta do acaso. E o que é mais importante: o processo revelou superprevisores, participantes que se mostraram consistentemente superiores a seus competidores durante um longo tempo.

Uma boa forma de ler o livro é após o capítulo 4 passar ao 9, pois é ali que o autor mostra a ampliação da experiência dos superprevisores com a criação dos supertimes, ao agregar os que tiveram melhor desempenho nas previsões individualizadas. No bloco formado pelos capítulos 5, 6 e 7, o autor se esforça para nos convencer de que os voluntários do seu projeto não são possuidores de QIs que envergonham os pobres mortais nem são grandes matemáticos, sequer viciados em informação. Têm, na verdade, um pouco de cada uma dessas coisas, mas não num nível que os separe fortemente da população culta. Segundo Tetlock, as qualidades de um superprevisor são muitas, incluindo uma visão aberta do mundo e uma certa reverência pela complexidade dos fatos, que, ao invés de paralisá-los, incita-os à ação. Quem quiser saber em detalhe quais são mesmo essas qualidades pode ir direto às duas últimas páginas do capítulo 8, onde o perfil do previsor ideal é delineado.

Essa resenha pode dar a impressão de que o livro é difícil de ler, mas isso não corresponde à verdade. Há grandes surpresas durante quase toda a leitura. Por exemplo, o capítulo 10 é dedicado à discussão da viabilidade de tomar decisões e liderar sua implementação utilizando um processo de previsão tão complexo. Tetlock acha isso viável e toma como exemplo uma corporação que foi capaz de unir incerteza e ação com alto grau de eficiência operacional. O leitor pode estar pensando na Apple de Steve Job, mas o exemplo utilizado é nada mais nada menos do que o exército prussiano e seu sucessor - a Wehrmacht – a assim intitulada “força de defesa” alemã.

Ao chegar a esse capítulo minha surpresa não foi pequena, assim como não foi a da resenhista do livro para o Valor Econômico há poucos dias. Mas o fato é que o manual de comando do exercito alemão é um exemplo de flexibilidade mesmo para organizações que operam em tempos líquidos, para usar a expressão em moda de Zygmunt Bauman, tendo sido o primeiro a promover um sistema de comando que enfatiza o julgamento independente em todos os elos da cadeia. Só lendo e relendo esse capítulo, e vendo algumas de suas fontes, para acreditar que não somente os oficiais, mas também aos soldados alemães era requerido que agissem e pensassem independentemente. É ler e reler para crer.

Antevendo-se à crítica

Como cientista que é, Tetlock não iria fechar o livro sem considerar que sua contribuição está sujeita à crítica e que muitas delas não podem ser deixadas de lado. Ele centra-se em duas vertentes críticas, vindas de dois pesos pesados, nada mais nada menos que dois dos seus colegas mais conhecidos: Daniel Kahneman e Nassim Taleb. Kahnemam desconfia que as habilidades analíticas dos superprevisores não são sustentáveis. Acredita que essa atividade baseia-se no sistema 2, que determina nossa capacidade de pensar devagar, mas que a tendência é que o sistema 1, o pensar rápido, acabará por se impor, de modo que os superprevisores irão com o tempo diminuindo sua eficácia. A crítica de Taleb é mais radical: quem muda a história são os Black Swans e estes são imprevisíveis, por definição. Assim , o que é importante não pode ser previsto e tudo que é previsível não é importante, pois seria circunstancial. Duas críticas radicais e bem fundamentadas, fogo amigo do maior calibre. Mas Tetlock, embora reconhecendo a procedência, não deixa as críticas sem refutação. O capítulo 10 sem dúvida vale a pena ser lido.

O livro termina como deveria: com previsões sobre o futuro das superprevisões. Tetlock, ao final, mostra-se um otimista cético, como se auto definiu no primeiro capítulo. Mas a discussão sobre a quantificação é imperdível e a solução que apresenta para contornar a crítica de Taleb é muito boa. Mas o que me chamou especialmente a atenção nesses tempos brasileiros de histeria política é a sua crença na possibilidade de progredir no debate social quando se unem ciência e boa fé. Queira Deus ele esteja certo mais uma vez.

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