Somos Marshall: o trabalho como propulsor da recuperação
Somos Marshall: o trabalho como propulsor da recuperação

Somos Marshall: o trabalho como propulsor da recuperação

Se existe uma lição que podemos extrair de terríveis tragédias, é que a principal ferramenta de recuperação do indivíduo atingido por elas é a superação e o trabalho

Em novembro de 1970, um avião com 75 tripulantes carregava o time de futebol americano da Universidade Marshall, do estado da Virgínia, quando caiu a poucos quilômetros do aeroporto de Ceredo, no próprio estado. Ninguém sobreviveu. A Universidade era o pilar da pequena cidade de Huntington, o que tornou a queda do avião e a morte de seus tripulantes um golpe ainda mais duro nos moradores do local, que viram famílias, amizades e relações de trabalho serem abaladas para sempre. Os dias seguintes após a tragédia, como já era de se esperar, foram terríveis para a comunidade. O sentimento de perda e dor dominaram a rotina de todos. Pais perderam filhos, filhos perderam pais, esposas perderam seus maridos, e a esperança era um sentimento que parecia não existir mais.

A faísca de esperança para restaurar o ânimo da pequena cidade surge quando os alunos da universidade se juntam para convencer o board a retomar o programa de futebol americano da instituição, contrariando todas as expectativas e também a opinião de alguns residentes da cidade, que acreditam que ao retomar o programa, a universidade (mais precisamente a figura de seu diretor, Don Dedmon), estaria faltando com o respeito com relação à memória dos jovens jogadores que se foram. Surge outro problema: quem se arriscaria a montar e treinar uma equipe no meio da temporada, do zero, utilizando jogadores reservas e até mesmo jovens sem experiência no esporte?

A resposta e principal cerne narrativo deste Somos Marshall (We Are Marshall, 2006), chega na figura de Jack Lengyel (Matthew McConaughey), um cativante e motivador treinador que apesar da vasta experiência no esporte, jamais enfrentou um desafio tão grande na carreira. Contando apenas com a confiança de Dedmon (o ótimo David Strathairn, de A Firma), e a ajuda dos únicos sobreviventes da equipe anterior, o reticente auxiliar-técnico Red Dawson (Matthew Fox, da série Lost), que chegou a ser dado como morto antes de constatarem que ele não havia embarcado no avião por conta de uma gripe; e o jogador Nate Ruffin (Anthony Mackie), que não embarcou por estar contundido, o novo treinador acredita que mais do que apenas montar uma nova equipe para a Universidade Marshall, seu trabalho trará de volta um pouco da esperança que a cidade havia perdido.

Nós brasileiros infelizmente também vivemos uma experiência semelhante em 2016, também em uma noite de novembro, quando no dia 29, o avião que levava o time de futebol da Chapecoense para a final da Copa Sulamericana que aconteceria na Colômbia contra a equipe do Atlético Nacional de Medellín, caiu próximo ao aeroporto de Rionegro. Foram 71 mortos e apenas seis sobreviventes.

Outra tragédia do tipo que também ficou famosa aconteceu em 1972, quando o avião que levava o time nacional de rúgbi do Uruguai em direção ao Chile para uma disputa, caiu sobre a Cordilheira dos Andes. Os eventos envolvendo a tragédia foram retratados no excelente drama Vivos (Alive), filme dirigido por Frank Marshall em 1993.

A questão é que, se existe uma lição que podemos extrair destas terríveis tragédias, é que a principal ferramenta de recuperação do indivíduo atingido por elas é a superação e o trabalho. Em Somos Marshall esta lição fica bastante evidente, uma vez que o trabalho de Lengyel, Dawson e Dedmon em torno da reconstrução do time da cidade funciona como elemento catártico para a recuperação de toda a comunidade. Mesmo enfrentando a desconfiança e até mesmo o preconceito de parte dos habitantes da cidade, Lengyel mantém a cabeça erguida e o espírito resiliente, e sua batalha acende a faísca de esperança de que a comunidade tanto precisa.

Mesmo não sendo uma unanimidade entre a crítica em geral, Somos Marshall é em minha humilde opinião um filme muito bonito e inspirador, que valoriza a batalha do espírito humano frente a a adversidade e a terrível dor da perda. O filme tem passagens valiosas que podem e devem ser aproveitadas por todos que assistem ao filme. Para o ambiente corporativo, fica a lição de que por mais difícil que pareça a derrota, nada é tão irreversível quanto a morte e seus desígnios. É preciso sempre começar de novo, mesmo nas mais difíceis das adversidades.

O medo do fracasso e o sentimento de tristeza co-habitam no âmago de muitos indivíduos e trabalhadores das mais diversas áreas da indústria, do comércio e do mundo corporativo, assim como em diferentes esferas da sociedade. E em meio à cenários como estes, a esperança precisa ser alimentada, através do trabalho duro e da superação. Tanto o treinador Lengyel deste Somos Marshall quanto qualquer indivíduo atingido por diferentes tipos de tragédias, sejam elas diretas ou indiretas, devem acreditar de que todo fim também significa um novo começo, independente das fronteiras inexoráveis da morte, ou das barreiras temporárias do fracasso.

"Um dia, não hoje, não amanhã, não nesta temporada e provavelmente nem na próxima, mas um dia, você e eu acordaremos e subitamente seremos como qualquer outro time em qualquer outro esporte, onde vencer é tudo e nada mais importa. E quando este dia chegar, bem, finalmente nós poderemos honrá-los."
- Jack Lengyel, 1971.

Somos Marshall está disponível para o mercado de Home-Video e alguns canais a cabo como TNT e HBO.

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    Eduardo Kacic

    Eduardo Kacic

    Eduardo Kacic é bacharel em administração com mais de 15 anos de experiência no mundo corporativo, até que decidiu se aventurar por sua paixão: O cinema. Hoje ele é roteirista de longa-metragens, crítico de cinema, palestrante e tradutor cinematográfico. É colunista de cinema no portal do jornalista Luiz Andreoli e agora também veste a camisa do Portal Administradores.

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