Sobre isso de otimismo

É possível ser otimista o tempo todo? A culpa pelo desanimo momentâneo atrapalha? Um convite a reflexão sobre a postura esperada no mundo dos negócios

Saber perceber o lado bom das coisas é uma qualidade inquestionável, vale para a vida profissional tanto quanto para a pessoal. Aponta-nos oportunidades, permite momentos melhores e mais alegres. E conseguir perceber o lado ruim? Será que pode ser útil?

Imagine uma pessoa faminta e extremamente otimista, daquelas tão fanáticas por otimismo, quanto alguns dos palestrantes que ganham muito dinheiro com isso. Ela se aproxima de uma pedra, para e pensa positivo: “Faça-se um banquete”. O que acontece?

A pedra se torna comida porque você pensou? A crise acaba porque você pensou? O funcionário desonesto se torna o ícone da ética porque você pensou? Não! O otimismo não é uma solução definitiva para seus problemas, é um requisito para superá-los, sim, mas não basta.

Quero dizer que você tem o direito de ficar pessimista em uma situação difícil, é natural e às vezes necessário. Precisamos entender os problemas que estão diante de nós antes de buscar uma solução, naturalmente esse processo é desgastante e desmotivador. Quanto maior o problema, maior o efeito que produz em nós, quanto mais frequentemente convivemos com problemas, mais vulneráveis poderemos estar.

Isso é natural. Aquele profissional que consegue ser otimista o tempo todo não existe, a única forma possível de manter uma postura assim, é ser tão alheio a realidade, com uma visão tão limitada sobre todas as dificuldades que enfrentamos na vida, que não conseguimos percebê-las.

O Dr. Spock de guerra nas estrelas talvez não se abalasse também, mas ele era frio, não motivado. Além disso, é um personagem fictício. Um cachorro também não costuma perder a motivação (é usado como exemplo naquelas mesmas palestras inclusive), mas você também não é um cachorro, que não possui a mesma capacidade analítica de um ser humano.

O problema é que quando estamos desmotivados nosso trabalho rende menos, nossa presença é menos agradável (principalmente dentre aqueles que foram convencidos pelo estigma da motivação inabalável).

O grande mérito está na nossa capacidade de superação, na nossa habilidade de recuperar a motivação, entendendo o problema diante de nós, buscando uma solução e, aí sim, diante de uma perspectiva real, se motivando para colocá-la em prática. É isso que move as realizações humanas.

Não se culpe se a desmotivação “te pegou”, acabe com ela colocando em prática algo que pode mudar a situação que te colocou nela, se não se sentir capaz, procure ajuda, se sentar-se à mesa pensando positivo te ajudar, faça-o, pode ser um método útil para que se sinta melhor e em condições de “lutar”, mas não trate a desmotivação como uma doença, pois ela também é o combustível da mudança e o estopim para algumas das maiores realizações humanas. Quem está muito feliz e contente com o que o cerca, não vai mudar nada.

Não pense que minha intenção é desvalorizar o trabalho dos palestrantes motivacionais, a iniciativa pode ser muito útil para encorajar equipes para colocar em pratica ações específicas, buscando alcançar objetivos específicos. Nem mesmo a importância da motivação. Só espero lhe provocar uma reflexão sobre os limites de realização baseadas exclusivamente na motivação e te tirar a culpa de, em certos momentos, não corresponder ao perfil idealizado dos seres inabaláveis, que só tiveram o sucesso em tudo que fizeram. Errar, se desmotivar temporariamente, perder o controle (não exagere nisso), e ficar triste e estressado, fazem parte da vida de todos, principalmente dos que se arriscam em busca de algo grande.

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