Como a ansiedade afeta minha vida

Um relato de experiências de um ansioso confesso

Há alguns anos fui fazer uma entrevista de emprego e em determinado momento a moça do RH perguntou qual era o meu maior defeito. Nem precisei pensar, mas fingi que estava o fazendo por alguns segundos e respondi: Sou ansios...

Ela nem esperou eu terminar de pronunciar a palavra e já foi logo dizendo: “Ansiedade não pode”. (Seria ela uma pessoa tão ansiosa quanto eu para nem esperar eu terminar de falar?) ”É clichê! O mundo incorporou a ansiedade e ser assim é normal, blá blá blá... “

Sou ansioso. Não poderia continuar esse texto sem ter escrito explicitamente isto. Mas não é uma ansiedade qualquer. Não é um friozinho na barriga em determinadas situações. Não é aquela expectativa pelo novo. Quem me dera!

Sou tão ansioso que uma semana antes de alguma coisa importante (como viagens, mudanças, entrevistas, novos empregos, provas e pasmem: algumas vezes até mesmo para ir a festas) meu organismo começa a dar os primeiros sinais que quem manda no meu corpo é qualquer coisa menos a minha mente. A garganta inflama, surge um desconforto intestinal, as manchas e coceiras no corpo se acentuam. Na véspera, comer e dormir são coisas que parecem ser impossíveis de serem feitas.

Acabo de chegar de viagem. Fui fazer a segunda etapa de um concurso público. Não bastava a tensão de uma primeira prova com 100 questões, abrangendo diversas áreas de conhecimento. Tinham que colocar uma segunda etapa em que a prova era de digitação. Tínhamos que digitar um texto de aproximadamente 1800 caracteres em 11 minutos. Um ansioso ter que se submeter a essa experiência é uma tortura psicológica!

Chegar até o local da prova foi um desafio. O ônibus foi balançando e eu só concentrando pra não vomitar lá dentro. Cheguei à Universidade ás 08:30 para o exame que começaria as 11:00. (Prefiro chegar com algumas horas de antecedência. Vai que no caminho surge algum imprevisto!). Ao chegar ao local sentei e fiquei observando as pessoas entrarem para a prova das 09:00. Um menino chegou ás 08:58 (verifiquei no celular), passou calmamente pelo local em que eu estava, parou por alguns segundos em frente ao mural para ler se seu nome estava incluído na turma daquele horário e finalmente entrou na Universidade. Um minuto depois os fiscais fecharam a portaria – que só seria novamente aberta, meia hora antes do horário da prova da próxima turma. Fiquei imaginando se fosse eu naquela situação - chegando “em cima da hora”, eu provavelmente viria correndo desde a esquina, esbarrando em todos que estivessem em minha frente! “Ser calmo deve ser tão bom!” – pensei naquele momento.

Após uma hora, chegou o momento de ir para a sala indicada no mural. Havia um fiscal na entrada para conferir os nomes e pedir pra que assinássemos a lista de presença. Eu tremia tanto que não conseguia assinar. O fiscal teve de pedir para eu ter calma. Minha letra no geral é bem feia. Minha família diz que é a mesma letra desde quando eu estava no pré! Concordo com eles! Logo, minha assinatura também é meio garranchada. Mas nada se compara com o que eu fiz naquela folha! Se não tivesse minha foto no RG acredito que não me permitiriam fazer a prova, pois a minha assinatura e a que fiz são de duas pessoas completamente diferentes.

Enfim, chegou a hora de digitar o texto. Vinte pessoas num laboratório de informática em fileiras de quatro. Para meu azar, sento ao lado de um cara que deve ter terminado de digitar o texto em 5 minutos. Apesar de ter conferido o relógio antes de começar e saber que ainda tinha tempo suficiente, escutar os barulhos dos teclados irem diminuindo me deixou mais nervoso ainda. Consegui terminar o meu apesar de minhas pernas ainda tremerem.

Após o final da prova, senti alívio por “estar livre”, porém a ansiedade de saber se passei ou não já começou a tomar conta de mim e pensamentos pessimistas são inevitáveis.

Meu organismo ainda precisa de alguns dias após esses eventos para começar a funcionar normalmente, então viajar 300km de volta à minha casa também não foi uma experiência agradável. Os ombros estão duros de tensão, ainda não consigo me alimentar direito, e fico revivendo os momentos da prova de minuto em minuto. A cabeça não desliga... Dormir agora seria uma tentativa em vão, então resolvi escrever esse texto.

Eu não acho que ser ansioso assim seja normal. Não acho normal você sentir um frio na barriga durante cinco meses, todos os dias antes de ir trabalhar porque tem medo que não irá saber fazer alguma coisa, não acho que seja normal o seu corpo estar cheio de manchas de tanto você se coçar porque irá fazer uma prova, não acho normal você não conseguir parar de roer as unhas, suar excessivamente, ter que pedir para ir ao banheiro 4 vezes durante uma dinâmica de grupo porque você não consegue controlar sua bexiga, não acho normal sua garganta inflamar, ter desconforto intestinal e dar náuseas todas as vezes que algo importante está iminente.

Então moça do RH, eu não poderia ter te dado outra resposta quando há alguns anos você me perguntou sobre o meu maior defeito! Pode ser clichê, mas a ansiedade é o que mais me atrapalha e só eu sei o quanto sofro com isso.

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