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Síndrome do super herói vitimado

A luta pela sobrevivência está brutalizando o ser humano, as pessoas vivem pressionadas e a palavra cooperação foi substituída por competição, competição e competição, em alguns casos, significa disputa de poder.

A luta pela sobrevivência está brutalizando o ser humano, as pessoas vivem pressionadas e a palavra cooperação foi substituída por competição, competição e competição, em alguns casos, significa disputa de poder. E esta palavrinha é tão poderosa que leva as pessoas a destruírem a si mesmas e aos outros para atingir o que para elas significa sucesso. E a maneira com que estas pessoas constroem o seu sucesso é agressiva e a vitória é saboreada a sós em razão do medo que se tem do adversário.

Meu amigo Marcelo Aguilar chama isso de síndrome do super-herói vitimado, síndrome é uma palavra forte, mas ajuda a definir esta doença. Trata-se de um mal terrível que acomete muitos profissionais. Tão terrível que chega até a destruir uma carreira promissora. Infelizmente para esta doença ainda não existem estudos científicos, na verdade ela é somente fruto da imaginação de meu amigo.


A verdade é que pessoas acometidas deste mal se deslumbram com as oportunidades e este é o primeiro sintoma marcante para o diagnóstico, uma vez que a principal tendência de comportamento deste estágio da doença é tomar para si a responsabilidades que são de outras pessoas e buscar acumular funções diversas a fim de alardear sua competência tentando demonstrar a incompetência de outros, claro dentro de sua visão egoísta e com um detalhe crucial, simplesmente sem planejar o como fará para cumprir todas as atividades a que se propõe dentro das horas do dia.

Após a excitação inicial provocada pela sedução da oportunidade, inicia-se um novo estágio desta doença que pode ser denominado de verborrágico, cuja evidência marcante é a difamação, abertamente, de seus predecessores. Agora já definitivamente investido na condição de vítima traz fatos pontuais, na maioria das vezes totalmente fora do contexto dos acontecimentos, que, logicamente, provam a incompetência de todos os que o antecederam. Trata-se de um massacre com o intuito de provar de vez a incompetência de todos em prol de sua pseudocompetência.

Quando comecei a escrever este texto estava assistindo um programa com os melhores momentos da Olimpíada de Inverso. Apesar de ter sido realizada em Turim na Itália, Olimpíada lembra Atenas que lembra a mitologia grega, podemos chamar esta fase de Pandora. Muitos devem se lembrar do mito grego. Desde que Zeus (Júpiter) e seus irmãos, a geração dos deuses olímpicos, começaram a disputar o poder com a geração dos Titãs, Prometeu era visto como inimigo e seus amigos mortais como ameaça. Sendo assim, para castigar os mortais, Zeus privou o homem do fogo, simbolicamente, da luz na alma, da inteligência.... Prometeu, amigo dos homens, roubou uma centelha do fogo celeste e a trouxe à terra reanimando os homens. Ao descobrir o roubo, Zeus ordenou punir tanto o ladrão quanto os beneficiados. Prometeu foi acorrentado a uma coluna e uma águia devorava seu fígado durante o dia, o qual voltava a crescer à noite.

Para castigar o homem, Zeus ordenou a Hefesto (Vulcano) que modelasse uma mulher semelhante às deusas imortais e que tivesse vários dons. Atená (Minerva) ensinou-lhe a arte da tecelagem, Afrodite (Vênus) deu-lha a beleza e o desejo indomável, Hermes (Mercúrio) encheu-lhe o coração de artimanhas, imprudência, ardis, fingimento e cinismo, as Graças embelezaram-na com lindíssimos colares de ouro... Zeus enviou Pandora como presente a Epimeteu, o qual, esquecendo-se da recomendação de Prometeu, seu irmão, de que nunca recebesse um presente de Zeus, o aceitou. Quando Pandora, por curiosidade, abriu uma caixa que trouxera do Olimpo como presente de casamento ao marido, dela fugiram todas as calamidades e desgraças que até hoje atormentam os homens. Pandora ainda tentou fechar a caixa, mas era tarde demais. Infelizmente para nos pobres mortais, a única coisa que não é libertada é a esperança que permaneceu presa junto à borda da caixa.

Em nossa analogia, podemos dizer que o doente, no estágio Pandora, liberta as desgraças e busca passar a noção de que somente ele detém a solução. Caso as coisas acontecem como ele espera, não perde a oportunidade de estufar o peito e alardear, repetidamente, sua grande competência.

Por outro lado, se o que acontece não é o que ele imagina, dá-se início ao próximo estado da doença; mania de perseguição. Seu arsenal de palavras volta-se, além de seus predecessores, para colaboradores diretos e para seus parceiros que, de repente, tornam-se em sua cabeça, grandes articuladores do mal que têm, como único objetivo de existência, o desejo de derrubá-lo. Neste momento, mais do que nunca ele passa a se fazer de vítima, buscando razões ocultas que justifiquem o seu insucesso, para não dizer a sua incompetência, razão de seu sofrimento com o objetivo único de achar um culpado.

Neste estágio, a sudorese aumenta significativamente e começa a aparecer insônia e palpitações inquietantes do tipo; ninguém me deixa fazer o que é preciso. É um momento de verdadeiro sofrimento, embora a vítima desta doença não consegue enxergar e muito menos entender as verdadeiras razões de sua dor.

E você deve estar se perguntando, existe algum remédio para este mal tão terrível? Eu diria que existe sim. O único remédio para curar esta doença, e que poderia ser indicado em qualquer fase, é uma boa dose de humildade. Infelizmente os orgulhosos preferem não tomá-lo, afinal, humildade é um remédio amargo para eles e de gosto horrível. O pior é que a síndrome do super-herói vitimado embaralha o orgulho com a auto-estima e o doente sofre ainda mais, sem perceber que são dois conceitos diferentes.

Como sabemos, a maneira como vemos as coisas determina nossas atitudes e nosso comportamento. A cada momento estamos construindo nosso próprio futuro, reorganizando nossa maneira de ver e colocando o que vemos no contexto das interligações mais amplas, isto significa que temos que elevar nossa visão a uma visão mais abrangente, a atitudes mais sensatas, de maneira que ela nos ajude a construir um futuro melhor para nós mesmos.

Devemos reagir a este tipo de disputa de poder ou de doença de acordo com os valores morais. Valores estes que são construídos no seio familiar e no convívio social. Porém, o seio familiar e o convívio social são, simultaneamente, o terreno onde serão desenvolvidos e assentados os nossos valores morais. Ou seja, eles ajudam a construir e a sustentá-los. Mas, quem constrói nossos valores somos nós mesmos, nos atos cotidianos, ao refletir sobre as conseqüências destes na nossa vida e na vida dos outros. Ao desenvolver nossa compaixão e nossa consciência sobre a verdadeira fonte do poder. O gestor não é gestor sozinho. Ele tem que ser capaz de reunir pessoas com valores próximos aos seus e que compartilhem de idéias e ideais comuns. Tem que se policiar e ser policiado para que não se deixe corromper pelo poder.

Portanto, caso você conheça alguma pessoa que esteja sofrendo desta terrível síndrome, procure ajudá-la na reflexão de que ela não é um super-herói que controla o tempo, as pessoas e as coisas. Procure persuadi-la de que é apenas vítima de sua falta de análise prévia. Ajude-a entender que a pílula da humildade não acabará com sua auto-estima nem lhe fará menor do que os outros e que, portanto, deve tomá-la, em beneficio de si mesma e dos que o rodeiam.

Ah, sim! Já estava me esquecendo: qual é o gosto da pílula da humildade para você?


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