Sinceridade ou “sincericídio”?

Sinceramente, por que a sinceridade da participante do reality show dividiu opiniões?

Todos os sites de notícias em que entrava, eu via seu rosto, sempre em uma foto com expressão de ódio, raiva e intenção de ataque. Nas redes sociais, pessoas se dividiam entre defende-la (“ela é sincera, e ninguém gosta da verdade”) ou repudiar suas atitudes (“ela não precisava ser tão descontrolada”).

Quando tive a coragem para ser sincera (não nasci com muito freio na língua mesmo), na fase da adolescência, que é uma fase em que não temos medo de muita coisa, aos poucos fui sendo silenciada e encorajada a me calar, manter minha opinião pra mim, afinal de contas, minha sinceridade estava sendo sinônimo de grosseria (realmente ninguém aguenta a verdade nua e crua), mesmo que eu não emitisse nenhum xingamento. Isso aconteceu tanto que me deixei levar e passei para o outro extremo: o de não falar absolutamente nada. Porém, o fato de me calar, começou a fazer mal também, afinal quem disse que uma pessoa sincera aguenta se calar para sempre? Temos que ser nós mesmos, sempre!

Até que, através de processos terapêuticos, aprendi que deveria buscar o equilíbrio dessa minha característica (que não é defeito, mas pode se transformar em um facilmente) e saber a hora de falar, com quem falar, porque falar... enfim, avaliar caso a caso e ver se realmente vale à pena correr o risco.

Mas porque? Porque não posso falar o que vem à cabeça sempre que quero?

Sinceridade demais, sem filtros, queima o filme sim: você passa a ser um desequilibrado, parece que ninguém pode ter opinião contrária à sua, tudo é no grito, na imposição da sua verdade (que não é a verdade absoluta do mundo), além de, se mesmo assim ninguém quiser concordar, pode gerar atritos maiores e até violência verbal e física, porque nessas horas o controle já foi para o espaço. Chamo isso de “sincericídio”, pois você acaba consigo mesmo. Ao outro? Só vai gerar um desconforto temporário e talvez até uma melhoria, porque tem gente que consegue usar a crítica (mesmo destrutiva) a seu favor. Não dá para ser sincero a qualquer custo. Realmente precisamos aprender a filtrar as falas, saber se é o momento certo, se a pessoa que irá ouvir aguentará ouvir, entre outros. E olha, não sou eu quem estou dizendo, foi a vida que me mostrou através da lei do retorno. Quem fala o que quer, tem que ter estômago para ouvir o que não quer, e nem sempre os “sincerinhos” de plantão tem. Às vezes são os que menos escutam (de verdade mesmo, ouvir todo mundo ouve).

O que nossa amiga quis fazer, realmente passou dos limites. Todo ser humano tem defeitos e tentar demonstrar o defeito do outro o tempo todo pode ser indício de querer esconder os próprios. O que ela não contava é que usufruiria do próprio descontrole (apesar de confessar que já sofreu bastante por "ser assim"). E a vida vai se encarregar de “corrigir” cada um com os fatos que precisamos viver. Às vezes nem teremos notícias do outro, mas todo mundo vai viver o outro lado daquela situação terrível que proporcionou um dia a alguém.

É possível ser sincero e simpático ao mesmo tempo. Sinceridade não é sinônimo de antipatia e nem de imposição. Você pode falar o que quiser, desde que saiba como falar (até mesmo para o seu ouvinte poder absorver o que você diz de forma saudável). Ninguém ganha nada no grito, a menos que seja um ditador. Ainda acredito no poder da gentileza, até para tratar de assuntos delicados para o outro.

Acredite, a vida realmente dá voltas, tanto para o sincero, quanto para o receptor.

ExibirMinimizar
aci institute 15 anos compartilhando conhecimento