Silvio Santos e Uber: duelos entre a tradição e a inovação

Por mais consolidado que esteja um negócio, é momento de profissionalizar. Um olhar sobre Silvio Santos e as sugestões que suas decisões trazem a mercados impactados pelas novas tecnologias, como o visto recentemente com o Uber

Silvio Santos é "o" cara. Cresci com esta imagem, primeiro do apresentador que cativava a família no domingo a tarde. Depois com a biografia produzida por Arlindo Silva, que descortinou uma grande personalidade. Por fim o empresário que persiste com seu negócio competitivo ao longo do tempo, muito por força de suas decisões, fosse pelo posicionamento adotado pelo SBT (o vice, com orgulho), ou pela capacidade de se readequar crises (a mais evidente com o episódio do Banco Panamericano). Silvio Santos poderia ser aquele cara que, ousamos as vezes dizer, nada mais tem a aprender. E é assim que ele, mais uma vez, surpreende. Leio nota recente da Folha sobre sua contratação, da consultoria americana McKinsey, visando mudar o perfil do negócio, descentralizando decisões e preparando a linha sucessória, moldando as filhas como "superexecutivas". Como a própria nota chama a atenção, é algo diferente do usual em empresas familiares, onde o padrão é designar um sucessor, e manter o modelo vigente. Não para Silvio Santos. Ainda que pareça sutil, ele demonstra, no momento econômico mais delicado do ano, que o futuro do negócio está em profissionalizar: buscar modelos mais atualizados e preparar suas equipes.

Vale como sugestivo ao segmento do Varejo, possivelmente o que mais concentra perfis de empresas familiares, tal qual propagado por boa parte dos especialistas do mercado. Ainda que tenhamos chegado em maio acumulando retração de 2% no faturamento, segundo o IBGE, buscar estabilidade através do "pé no freio" pode ser um risco. Novos modelos de negócio tem sido importados, literalmente, com a chegada de grandes redes no Brasil, que seguem abrindo lojas, ao passo que nomes regionais tradicionais tem buscado em grande número passar seus pontos. Seja na rua ou no e-commerce, os produtos asiáticos, por exemplo, estão cada vez mais presentes. E a realidade da concorrência global nos põe como um mercado atrativo, com quase 200 milhões de consumidores, na mira de negócios cada vez mais diferenciados, de olho em como adentrar por aqui. Além da invasão dos modelos prontos, temos o nascimento de novidades que rapidamente se tornam tendência. Termos como IoT, Big Data e Omnichannel esbarram em co-working, plataformas colaborativas e financiamentos pouco usuais, como de Equity ou de investidores-anjo, realidades afetadas pela tecnologia em velocidade muito divergente da capacidade que governos tem de acompanhar esta evolução. Em nosso caso especial, no Brasil, esta diferença de velocidade acentua os problemas naturais advindos deste cenário inovador, e porque não dizer, revolucionário.

Um dos exemplos mais significativos destes impactos é a batalha do Uber com os taxistas. De um lado, a inovação tecnológica que vem propor mudança no padrão vigente de serviços de transporte. Do outro, a estrutura tradicional vigente e legalizada. Entre elas, um abismo, navegado por usuários do serviço de transportes. Para alguns, o aplicativo é tão somente uma versão digital da pirataria, ou uma versão atualizada dos clandestinos (os quais existem aos bordões, em grandes centros, insensíveis com a fiscalização atual). De outro lado, os que consideram a atualização uma justiça contra serviços precários, com reclamações variadas, desde o serviço prestado por alguns prestadores pouco corteses ou despreparados, até a forma de obtenção e manutenção de licenças. E ainda que ambos os lados também tenham representantes de alto profissionalismo e bem preparados, tudo isto gera conflitos, que culminaram em versões também distintas de resultados: algumas manifestações tradicionais, por parte dos taxistas, que fecharam recentemente vias das cidades por longos períodos como protesto contra o aplicativo (tendo visibilidade, mas pouca efetividade), e outras reações novas e bem menos ortodoxas, como agressões a motoristas integrantes do novo serviço. A margem, o Estado, a quem cabe legislar, regular e fiscalizar, demonstrando pouca ou nenhuma capacidade de dirimir as questões, não só no Brasil, mas em outros países também, e a quem muitos atribuem responsabilidades, e de quem esperam definições e respostas.

Pois bem e o que faria Silvio Santos? Logicamente não sabemos. Mas com a incerteza do futuro, seu movimento, enquanto detentor de um negócio, foi por profissionalizar, por meio de um olhar nos melhores modelos e práticas do mercado, buscando se preparar para o que ainda está por vir. Possivelmente, uma sugestão para outros segmentos que, incertos quanto a evolução de seus cenários, tenham minimamente a pretensão por se manter competitivos.

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